Eu queria escrever uma crônica que, agora no final do ano, enchesse teu coração de boas expectativas para o 2016 que bate à porta. Eu queria escrever ao menos uma frase que aquietasse teu espírito e te trouxesse esperança. Creio que a revista esteja cheia de belas e motivadoras mensagens. Talvez tu precises mesmo... 2015 foi intenso... as pedaladas, os salários parcelados, El Niño e seus efeitos, toda a lama de Mariana, a morte do Rio Doce, os reféns e o massacre do Bataclan, até o Eike Batista ficou pobre... uma injeção de ânimo seria utilíssima.

Mas não vou escrever. Acho que hoje, o que precisamos é uma injeção de consciência. Mês passado já te falei isso: “Que a mudança parta de mim”. Me impressiona a maioria achar que está aqui apenas a passeio. Me choca perceber a falta de preocupação com o outro, mesmo que esse outro sejam nossos filhos e netos. Quanto mais nos “modernizamos”, mais produzimos lixo. Quanto mais pensamos que o problema é do Estado, mais sofremos as consequências.

Quando Thomas Hobbes reescreveu uma frase do notável escritor latino Plauto, “o homem é o lobo do próprio homem”, (no estado natural, todos se opunham contra todos, que a lei era a dos mais fortes e que o restante era subjugado à força, sem direitos e com o ônus de produzir a subsistência dos mandantes), cravou na testa do homem a verdade de que somos divergentes e que nosso mundo gira em torno de nossos umbigos.

Em meio a esse deserto, devemos ser oásis e nos posicionar frente a tudo isso. Escolher o orgânico ou o reciclado; optar pelo bem humorado ao amargo; fechar as torneiras; não adquirir produtos de empresas que utilizam trabalho escravo ou que os testam em animais; são várias as atitudes que podem fazer a diferença... mesmo que não apareça nos dias de hoje... a soma será positiva no futuro.

Pense nisto. Não me importa que tenhas apenas um belo 2016. Quero que haja para ti e os teus um belo 2026, um extraordinário 2036, um 2046 sobrenatural...

Felizes anos novos.

Franco Vasconcellos e Souza,
Gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores.
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• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 31 - Dezembro de 2015

Achava que quando fosse um velho, de quarenta anos, estaria entregue às baratas. Já contei pra vocês que nem lembro o passar dos anos no meu dia a dia. Hoje, titubeei. Quando recebi e-mail falando do prazo para escrever a crônica de outubro, parei para pensar nos eventos do mês e, imediatamente, veio à minha mente, com a sonoridade de uma trombeta: meus quarenta anos... O tom ameaçador da revelação ficou ali, ecoando... Os livros de autoajuda proclamam que a vida começa aos quarenta, os de psicologia anunciam a crise da meia idade... À mim, não parece que amanhecerei diferente.

Lembro de alguns aniversários que foram especiais para mim, com a casa cheia de amigos queridos – tenho os melhores. Houve também um, do qual só lembrei em novembro... passou batido. Hoje, claramente, tenho mais motivos para me alegrar do que para lamentar. Nasci no mesmo ano do “Tubarão” de Steven Spielberg, da “Doralina”, de Rachel de Queiroz, enquanto Rita Lee cantava “Ovelha Negra”, Caio Fernando Abreu via “O Ovo Apunhalado” e Plínio Marcos acendia seu “Abajur Lilás”. Era uma quinta-feira e a bolsa havia rompido. O líquido morno escorrendo causou um rebuliço em minha casa. Fomos às pressas para o hospital. Nasci, por volta de 10h30. Segundo contam, não havia bebê mais feio na cidade. Daquela manhã até o dia de hoje, tanta coisa aconteceu. Sou plenamente grato por tudo o que Deus me deu, mas nas minhas orações costumo lembrá-lo de que ainda não estou satisfeito: “Quero mais, Senhor!” e creio que o que vem dEle, é o melhor que poderia ter sido. O número quarenta, biblicamente, aparece várias vezes. Foram quarenta dias e quarenta noites de chuva para alagar o planeta, foram quarenta anos no deserto, Jesus, Moisés e Elias jejuaram quarenta dias... a quaresma, para os católicos, são quarenta dias... Baseado nessas informações prefiro acreditar que quarenta – anos, nesse caso – é o tempo certo, necessário ou suficiente para que o objetivo seja atingido, e isso é motivo para comemorar.

Que venham os quarenta e outros quarenta, e mais outros... apesar de eu, ainda me sentir com trinta e nove e meio.

Franco Vasconcellos e Souza,
gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores.
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• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 29 - Outubro de 2015

Não. Não me venham dizer que as meninas cresceram! Sempre sonhei com a menininha parceira que dizem que toda menina é do pai. E agora, isso? Em épocas da vida, achava que não teria filhos. Sempre achei um perigo – ainda acho –, mas preferi correr o risco. Tive logo duas.

A primeira, vi na incubadora, me dei conta que era o pai daquela coisinha. Me recuperei da falta de ar, e pude tocar em seus pezinhos... meu primeiro toque pele com pele, me fez perceber que agora era pai de uma menina! Chorei. Choro ainda hoje, ao escrever esse texto. No mesmo instante, meu coração se encheu de um amor que nunca havia experimentado. Compreendi muita coisa naquele segundo. Anos depois veio a segunda, cheia de novidades (são muito diferentes!). Bebezão. Inda mais se comparada à primeira. Todo aquele amor que nem cabia em mim, se duplicou. 

E agora, a vida vem me contar, aos gritos, que elas cresceram! Lembro de uma canção do Abba - And a sense of guilt I can’t deny / what happened to the wonderful adventures / the places I had planned for us to go (E um sentimento de culpa que eu não posso negar / o que aconteceu às aventuras maravilhosas / os lugares que eu tinha planejado para nós irmos) - e me pergunto, quando foi que elas cresceram? Onde ficaram os detalhes que eu perdi?

Estes anos tem sido incríveis. Nem tudo foi um mar de rosas, mas a simples presença delas em minha vida fez com que eu me tornasse uma pessoa melhor. Tem me ajudado a ser um homem mais completo. A cada novo momento de vida que vivemos juntos, sou forçado a repensar e ajustar minhas ações para que não só me torne um pai melhor, mas também deixe para elas o legado de que toda vida vale a pena.

Agora, sou forçado a admitir, elas cresceram! Estão se tornando mulheres admiráveis, cheias de altos e baixos. Como pai, sei que vou ter que crescer juntamente com elas e também vou ter meus altos e baixos! Mas estou empolgado. Mal posso esperar pelas próximas crises, alegrias e aventuras.

Meu Deus, quanto medo de não poder controlar cada passo! Mas há coisas que não se pode experimentar, contar, descobrir, ver, sonhar... há fronteiras que não se pode atravessar... tem-se que permitir cruzar e ver com os próprios olhos, confiar... respirar fundo... e ser com quem se pode contar.

Poderia ficar aqui, escrevendo linhas e linhas para te explicar o que sinto... mas só os pais entenderão.

Franco Vasconcellos e Souza
Gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores.
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• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 28 - Setembro de 2015

Quando pensei em escrever essa crônica, terminava de organizar as coisas no apartamento onde passei a morar. Pensei seriamente em contar das mudanças que fiz durante a vida. Mentalmente, passei a listá-las e concluí que precisaria dessa e da página ao lado, só para fazer a relação e, com certeza, acabaria por esquecer algum endereço, deixando magoadas algumas construções. Foram mais de quarenta. Só de cidades foram treze. Estados, dois. Países, dois também.
Os mais chegados, seguidamente me dizem que devo gostar muito de mudar. Eu respondo: “Mentira!”. Tenho verdadeiro pavor. A cada uma, reluto mais. Não sei se é consequência do avanço da idade, que vai me deixando mais acomodado, ou se é saco cheio, mesmo.
A busca inicial pelo novo imóvel, já tem causado desânimo... são cada vez menores e mais caros. Depois vem a procura pelas caixas de papelão, mil documentos, alterações na luz, água, telefone, TV, internet... uma mão-de-obra... o vaso de comigo-ninguém-pode que não cabe mais em lugar nenhum, o ventilador que quebrou o pé... pendura quadros, trilhos de cortina, instala chuveiro, pia...

Quando as coisas vão para o lugar, vem a hora da faxina e depois, do júbilo. É hora de curtir. Concordo com Doroty Gale, de “O Mágico de Oz” - Não existe lugar como o nosso lar – e acredito que isso seja um sentimento coletivo. Como é gostoso viajar e conhecer lugares novos. Como são confortáveis as camas dos hotéis. Como são quentes e fortes as suas duchas. Como são fartos os cafés da manhã... Como é melhor ainda a nossa cama, com nosso chuveiro de contagotas e nosso café com pão servido na mesa da cozinha de nossa casa, ô delícia!
Tá lá na Bíblia, no livro de Provérbios: “Com a sabedoria edifica-se a casa, e com a inteligência ela se firma, pelo conhecimento se encherão as câmaras de toda a sorte de bens preciosos e deleitáveis” (24.3-4).
Acho que vem daí a minha facilidade em mudar de local. Levo comigo as coisas que me são preciosas e a eterna certeza de que sempre podemos recomeçar. É isso que faz da casa um lar e é no lar, e isso independe de onde ele seja, que a família se reúne e tudo o que realmente é de valor acontece.

 

Franco Vasconcellos e Souza,
gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores.
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• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 27 - Agosto de 2015

Muitos mistérios assolam nossa existência terrena. A mente humana dá lugar aos mais variados questionamentos, sobre os mais diversos assuntos. Há quem procure chupacabras. Há quem sofra com medo do escuro. Há quem elabore teorias sobre corujas “sorteras” - pergunte à Eda, aí de São Chico, ou quem sabe, um dia eu conte aqui mesmo essa outra história. O meu medo da adolescência era mais assustador e envolto em mistérios que qualquer coisa que você, leitor, tenha visto ou duvidado. Eu já morava sozinho. Mas ainda era um guri. Fazia o segundo grau – hoje chamam de ensino médio – em Passo Fundo, em turno integral. Naquele tempo, houve um mistério que me tirava o sono, pois como escrevi ali em cima, eu morava sozinho. Acordava com o nariz pintado de azul.

Na primeira vez, não dei muita bola. Passei uma água, tomei um Nescau, escovei os dentes e fui para a aula. Esqueci do assunto. No outro dia, acordei, me levantei... mesmo ritual de todos os dias. Ao me olhar no espelho do banheiro, lá estava ele, outra vez, me encarando... o guri de nariz azul. Pense num susto. A partir desse dia, acordava, às vezes em plena madrugada, só para dar uma conferida e sempre, invariavelmente, avistava o palhaço gremista do outro lado do espelho. Perdia o sono e divagava... mil teorias sobre o que vinha acontecendo... coisas de outro mundo... Um belo dia, assistindo a um jogo de futebol no meu pequeno televisor Telefunken preto e branco e com bombril na antena, sozinho, acordado, precisei ir ao banheiro e, para meu espanto, lá estava ele outra vez, azulão. Num estalo, encabulado, desvendei o famigerado enigma. Fiquei tão abismado que nem sei como terminou o jogo, sequer me lembro quem jogava. Revelo agora, somente a ti: na frente do meu apartamento, tinha a bodega do Seu Aquiles. Ali, eu, viciado em leite condensado, comprava muitas latas da preciosa iguaria. Bebia, na lata, durante a noite. Fazia um furinho e saciava a minha gula. Acontece que o Seu Aquiles carimbava a tampa da lata com o preço do produto... e o mistério virou piada. Até hoje, mesmo agora, enquanto te conto essa historinha, dou boas risadas. Engordei e parei com o leite condensado.

Franco Vasconcellos e Souza
Gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores.
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• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 20 - Janeiro de 2015

Tá chegando o carnaval... a festa de Momo.
Sei que após ler o que segue, alguns irão me taxar de quadrado, ou fanático, ou mesmo de metido e chato, mas algumas coisas não consigo deixar de falar.
Segundo os gregos, Momo nasceu filho do Sono e da Noite, como o deus da zomba ria, do sarcasmo, da galhofa, do delírio, da irreverência e do achincalhe. De tanto criticar e ridicularizar os outros deuses, a divindade maior do Olimpo perdeu a paciência com ele e o despachou para a Terra, onde o deportado passou a apresentar o estandarte da folia. Houve um tempo em que na Roma Antiga, o soldado escolhido como o mais belo de todos era quem recebia a coroa de monarca brincalhão, o que lhe dava o direito de comer, beber e brincar até esgotar totalmente suas forças, sem que ninguém o impedisse de fazer coisa alguma. Ao final era queimado em sacrifício – por isso ‘quarta-feira de cinzas’.
Por aqui as coisas não parecem muito diferentes, o que muda é o sacrifício final. Uma grande safra de ‘filhos do carnaval’, lá pelos meses de outubro e novembro, sem mencionar a propagação de doenças que veio com a deturpação dos valores. Muitos sequer tem como descobrir de quem pegaram a DST, tamanha a rotatividade de parceiros.
Aqui no interior ainda nos chocamos ao ver na TV que os adolescentes ‘ficam’ com oito, 12 ou 23 em apenas uma noite, fazendo parecer normal o inaceitável. Os criticamos e suspiramos aliviados por não morarmos em grandes centros. A punhalada vem quando descobrimos que as coisas por aqui já não são tão diferentes. Quantas são as tristezas que nos traz uma manhã de Carnaval? Acontece aos milhares. Independente de crença religiosa, não quero aqui fazer um manifesto anti-Momo. Apenas quero recomendar quem é pai ou mãe, a que estejam atentos a seus filhos. Aproximem-se deles... e que o carnaval seja apenas festa.

Franco Vasconcellos e Souza
Gaúcho de Erechim, morador de São Francisco de Paula, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores.
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