Quem ama não bate: Coisas que ensinamos sem nos dar conta - por Sueli Santos

Quem ama não bate: Coisas que ensinamos sem nos dar conta - por Sueli Santos

 

Certa vez fui visitar uma pessoa que tinha uma filhinha de um ano e oito meses aproximadamente. Ao chegar à casa, entrando na sala pois a porta estava aberta, encontrei a menina em seu carrinho. Ela chorava muito, gritando com algum desespero.  Preocupada com a cena, falei: o que foi, por que estás chorando? Tentava chamar a atenção dela e ao mesmo  tempo  ver também se mais alguém estava em casa. 

Ao me ouvir, a mãe veio de outra peça da casa aos gritos. Estava atarefada com as coisas da casa e tinha uma vassoura nas mãos e um pano pendurado no ombro, parecia uma fralda ou coisa assim. Ela disse: não é nada dona Sueli, ela está mimada, não posso fazer nada agora, só quer que fique olhando pra ela, é “balda”. Esse é um termo usado naquela região e significa que uma criança está “mal acostumada”, só quer atenção.

Como a criança não parava de chorar, e a mãe de praguejar,  peguei-a no colo e falei suave com ela, passando a mão no rostinho, tentando acalmá-la. A manobra não adiantou. Mais o bebê berrava, continuava a olhar para a mãe com aquele desespero. Fiquei assustada! Por que chorava tanto, estaria com alguma dor?

A mãe, que se lamentava por estar escravizada àquela pequena tirana, tirou bruscamente o bebê do meu colo, esfregou o pano que trazia ao ombro no rostinho da menina e a sacudia de forma enérgica, continuando a praguejar.  A menina, no colo da mãe, imediatamente, como em um passe de mágica parou de chorar. Ficou quietinha olhando sua mamãe. 

Entendi que isso para ela era amor, segurança, a tranqüilizava. Sempre que se sentia só, desamparada e chorava, a mãe chegava daquela forma e a olhava;  seu toque era forte, a sacudia e  fazia com que  se sentisse  acolhida.

Pensando no desenvolvimento do psiquismo, sabemos que quando os bebês acordam, costumam dar algum sinal.  Resmungam, fazem algum ruído ou choram, isso é o que podem fazer. É que ao acordar, e não verem ninguém ao seu redor, sentem-se desamparados. Do ponto de vista da psicanálise, para os bebês, o olhar da mãe, ou de quem cuida deles, lhes dá um sentido de existência. 

Quando um bebê desperta, quem costuma acudir ao seu grito ou choro é a mãe ou quem cumpre essa função. Cada mãe ou cuidadora, chega do seu jeito. Nem todas as mães se relacionam da mesma forma com seus filhos. Cada uma com sua história.  Algumas são suaves, sussuram palavras carinhosas, sorriem, e isso acalma a criança.

Essa mãe chegava de outra forma, falando alto, com mãos fortes, com gestos bruscos ao meu entendimento. Mas para essa criança  não havia violência aí, só alivio de angústia. Aquela bebê estava acostumada a sua mãe. Quando se sentia perdida, sem um olhar que lhe desse sentido e chorava ‘chamando’ alguém que a socorresse,  a mãe rompia a solidão, a mãe a amava. 

O jeito como tratamos os bebês, e também os filhos quando maiores, ensina a eles uma forma de amor. Muitas vezes, sem saber, sem nos darmos conta, ensinamos que amor é sinônimo de violência, de opressão, de humilhação.

Quantas vezes, porque as crianças fazem alguma coisa que as põem em risco, ou se machucam porque estão brincando ou fazendo alguma descoberta, nós dizemos:

Agora tu vais apanhar para aprender a não  fazer mais isso. Quando teu pai chegar, vou contar o que fizeste e tu vais ver o que te acontece.

Agora vais ficar de castigo para não fazeres o que não deves. Vou te tirar tal e tal coisa até aprenderes. Vais ficar trancado no quarto sem falar com ninguém para pensares no que fizeste.

Eu te bato porque gosto de ti, para te proteger.  Ele pede pra apanhar, só depois de uns tapas é que fica bonzinho, que obedece.

De certa forma  podemos estar ensinando que quem ama, quem cuida, é violento. Dizemos de alguma  forma que bater, castigar, reprimir é amor.  O castigo, a punição, a violência inibe o comportamento indesejado pelos pais. Mas a criança aprende a ter medo, não o respeito. Aprende que há coisas que são proibidas mas não  aprende a se cuidar.

As vezes penso em algumas histórias que ouço na clínica de pessoas adultas, que buscam relações violentas, com ‘pegada’; o quanto essas pessoas não estão tentando reencontrar esse primeiro amor, por terem entendido que amar é possuir o outro como um objeto, é vigiar, é ter um ciúme controlador sobre o outro, é ser tratado como dependente, é ser desvalorizado.

Falar com as crianças,  ensiná-las a respeitar limites,  é ensinar que amor é tolerância, é dividir dúvidas, medos,  alegrias pelas descobertas, pelas novidades.  O amor passa pela palavra, pelo olhar de compreensão, pelo respeito ao crescimento e tentativas de autonomia. Quando batemos, perdemos a razão, e a palavra, perde o valor. Quem ama não bate.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

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