Como diz o poeta Tunai: “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam, por que o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões”. Para quem não conhece, esse poema foi musicado por Sergio Natureza, gravado e eternizado magistralmente por Elis Regina.

O que nos faz pensar no amor e no ódio como irmanados está relacionado a uma questão muito particular, as intensidades de energia que geram estes dois afetos. Freud, criador da psicanálise, afirmava que o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. Então, quando o ódio está em atividade, algo do amor ainda não se dissolveu.

É comum ouvirmos relatos de pessoas apaixonadas dizerem: encontrei a pessoa perfeita, temos tudo em comum, pensamos da mesma forma, gostamos das mesmas coisas, parece que nos conhecemos há muito tempo. Tivemos um encontro incrível, conversamos mais de três horas e não vimos passar o tempo. E concluem, ele(a) tem uma cabeça ótima.

Mais incrível ainda, quando esses relatos falam de uma relação virtual, quando as pessoas nunca estiveram presencialmente, juntas. O que se dá aí, que mesmo sem falar pessoalmente, ou mesmo, em um encontro pela primeira vez com alguém em uma situação casual, supomos o encontro com a alma gêmea?

Encontrar alguém igual, quem sabe, seja encontrar a imagem do espelho. Mesmo quando se diz: gostei de tal pessoa por que era bem diferente de tudo que eu encontrava por aí. Mas como saber que uma pessoa é diferente do que se encontrava por aí, se não sabemos quem é, como é essa pessoa? Talvez se possa pensar que a procura de alguém igual a mim ou diferente de mim, tenha a mesma origem. Ou seja, sou eu que estou criando um ideal de completude, de unidade que não poderá ser sustentado pelo outro, posto que o quê encontro é uma fantasia que deposito no outro, a ilusão imaginária do encontro com esse ideal.

Então, quando busco alguém igual a mim, o que vejo pode ser o que eu criei e não o que realmente o outro é. Às vezes, confirmando essa idéia do engano, ouvimos da pessoa que se diz apaixonada, observações do tipo: ‘claro que ele(a) não é perfeito(a), mas com o tempo eu consigo mudar o jeito dele(a)’. Então ... se é preciso mudar alguém para que se pareça com meu ideal, de quem ou do quê realmente estamos falando, a não ser de uma fantasia de transformar a realidade do outro para que se aproxime do que eu quero, e não desta pessoa como ele é.

Mesmo assim, esse engano de um encontro ideal é inevitável na paixão. É preciso encontrar uma fantasia no que vemos para que tenhamos coragem de arriscar, colocar fora de nós essa possibilidade de que, fora de mim, algo se materialize para o encontro imaginário do objeto amoroso. Essa fogueira que queima com intensidade aquece os corações. Afinal, esse órgão, o coração, cantado em verso e prosa desde o inicio dos tempos, sempre foi nomeado para colocar aí nossos sentimentos. Talvez porque ele altere seu ritmo e nos diga que algo pulsa, nos implica, nos desestabiliza, nos excita, nos altera emocionalmente e fisicamente toda vez que nosso inconsciente identifica, no que vemos, algo que nos faz pulsar no desejo de completude.

Seguindo nosso poeta, em uma segunda estrofe, ele diz: “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam, por que o amor e o ódio se irmanam na geleira da paixões”.

A fantasia de que, com o tempo, se pode dar um jeitinho para que o outro venha a ser como queremos, muitas vezes se torna ligeira insatisfação, depois impaciência, queixa, acusação de desinvestimento nas coisas e interesses comuns. Quando essas pressões já não produzem qualquer reação por parte daquele que se mostra desconfortável, por que a relação não anda conforme a fantasia, pode resultar em uma nova estratégia, com o intuito de criar, também imaginariamente, um novo projeto comum.

Se buscam recursos para além da dupla. Ou seja, o foco da queixa muda para o planejamento, quem sabe, de aumento de família para quem já o fez; ou de ter filhos para aqueles que não têm, ou reformar da casa, mudança de cidade, ou trabalho. E assim, o que está tão próximo como a discussão sobre a relação e suas dificuldades, do que não liga mais esse enlace, do que perdeu o ímpeto, é projetado em novas fantasias para fora do investimento da relação amorosa, mas deriva para a burocratização da convivência. Ao invés de busca de solução, temos a dissolução e o desencontro.

Pode emergir dessa estratégia uma nova frustração, marcado aparentemente pela raiva ou o ódio. Ou seja, o ódio endereçado a alguém, quando uma relação amorosa se rompe, evidencia que esse desfecho, esse término, deixou um resto, algo por dizer ou fazer, que não foi possível resgatar. Algo se perdeu sem que soubéssemos como isso aconteceu. Nos perdemos.

Muitas vezes o ódio endereçado ao outro que nos trocou por outro sonho, ou simplesmente não deseja mais seguir nesta ligação, deixa naquele que se sente preterido, uma sensação de que a pessoa abandonada falhou, fracassou, foi insuficiente para corresponder ao que o outro esperava.

Algo se rompe, gela, ‘vai esfriando por dentro o ser’, a paixão tórrida se transforma, dissolve o que antes unia. O sofrimento causado pela quebra da magia do encontro, da fantasia de amor perfeito parece ter sido traído, enganado, falseado, a confiança quebrada. Mas o quê ou quem falhou? Ninguém falhou ou os dois falharam?

Porque não foi possível seguir com o ideal de perfeição, não quer dizer que o amor não foi verdadeiro, que o vivido foi mentira ou falsidade. Porque ambos embarcaram em uma viagem comum, em um sonho comum, talvez não tenha sido o bastante para que seguissem no mesmo destino, no mesmo projeto, não determina que alguém seja culpado. Ninguém falhou.

Ao longo do tempo, é esperado que as pessoas mudem, reconfigurem seus interesses, seus desejos, seus prazeres. É bom que seja assim. Não é possível que alguém com vinte anos continue igual aos trinta ou aos cinqüenta. A passagem do tempo, tanto externo como internamente, vai amadurecendo as pessoas, fazendo com que o quê em um tempo era prazeroso mude seu foco de interesse. Por si só, a mudança, o amadurecimento, não produz separação ou perda da capacidade de amar ou se apaixonar.

Se há uma mudança por parte das duas pessoas em uma relação amorosa, a relação segue amadurecendo, terna, e mesmo tórrida, mas agora construída a dois, nos processos mútuos de revisão, reconquista, encantamento de um com o outro, com a mudança de um e outro. Isso é possível pelo respeito à alteridade. Ambos não se tornaram um só, mas cada um fez sua viagem e compartilharam suas experiências, enriqueceram um ao outro.

Quando entendemos que colocamos no outro a responsabilidade de um esfriamento na relação de amor, quem sabe possamos pensar que, se nós notamos isso, talvez em nós se denuncie que não estamos mais satisfeitos porque em nós algo a mais nos fez ou deixou de fazer sentido nesse enlace. Portanto,  a falta de correspondência da união perfeita passa pelos dois envolvidos, e que por algum motivo, e mesmo quem sabe, por acomodação, se deixou que tudo seguisse o fluxo do cotidiano que foi regelando o amor.

Uma relação amorosa ou de paixão, envolve reciprocidade. Quando isso acontece, quando o amor não está mais lá onde o colocamos, talvez tenhamos que pensar se queremos tentar reaquecer ou reencontrar algo que se perdeu. Mas também podemos pensar que esse ciclo se fechou e que podemos resguardar tudo que foi vivido e prazeroso como parte da nossa história de um momento determinado da vida. Não há porque tentar destruir essa história ou as pessoas em que depositamos tanto amor e dedicação. Quando isso é possível, estamos livres para ressignificar nossas possibilidades de amar novamente e agora em outro momento, com uma experiência acumulada sobre o que se pode esperar, mas principalmente com o que se aprendeu a não esperar. Ou seja, a realidade é mais segura que a fantasia e a vida é maior que o sonho. Amar é sempre uma possibilidade à nossa mão.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul 

Gostaria de compartilhar algumas idéias que tenho discutido sobre a sexualidade na velhice. Na velhice, a sexualidade segue viva. Quando ouvimos relatos de histórias de pessoas mais velhas, é bem freqüente nos depararmos com depoimentos de seus filhos adultos, ou mesmo de cuidadores de velhos, sobre sua surpresa, ou susto e até mesmo desconforto, sobre esse tema.

Como sabemos, a sexualidade, do ponto de vista da psicanálise, é entendida como a busca do prazer ancorada em fantasias, por tanto, está para além do exclusivamente genital. Como o humano não vive sem fantasiar, então a sexualidade sempre terá um lugar no psiquismo e na vida das pessoas.

Claro que com a passagem do tempo, a prevalência da relação genital  como fonte de prazer, tão presente no inicio da vida sexual,  vai ganhando outros contornos, derivas, que passam por relações gratificantes, podendo se voltar para relações de carinho ou na convivência de grupos de amigos, ou no cuidado com os netos, ou em alguma atividade ligada a interesses criativos.

No entanto, qualquer atividade que produza prazer, alegria, encontro com velhas recordações de vivências da própria história em outros tempos vividos, ou que provoquem o interesse por novas experiências e descobertas, podem recuperar o investimento libidinal da vida dos velhos.

Parece estranho? Pois lhes digo, é vital. Então, o desejo de viver novas experiências, para além das clássicas atividades em grupo de convivência, de carteado, de bate papo, de bailes, de viagens, em qualquer dessas situações, as fantasias de continuar sendo interessante para um outro, de encantar, seduzir está sempre presente.

Nenhum velho vai para um encontro sem se produzir, sem se preocupar com sua aparência. É comum ouvir que eles ficam felizes porque alguém comentou que estavam bonitos(as) ou muito bem com tal roupa e assim por diante. Pois saibam que isso também é uma demonstração de seu interesse em seduzir. Não é como na juventude, mas a sexualidade aí tem uma nova inscrição.

Costumo ouvir relatos de jovens que se assustam quando um(a) velho(a) fala de seus desejos ou fantasias sexuais, muitas vezes com relação ao próprio cuidador. O que assusta? Por que se assustam? Afinal as pessoas velhas querem falar sobre isso, talvez até pela falta de censura que agora se permitem, queiram contar o que, em seus momentos solitários, ficam fantasiando.

É importante poder ouvir e deixar falar. Afinal, os velhos não perdem a condição de humanidade, de ser homem ou mulher ante que qualquer coisa. Talvez os cuidadores ou filhos se assustem por ouvir o que lhes é proibido dizer, ou seja,  que não  resolveram em sua própria história essas questões, que não consegue ‘dar ouvidos’ as seus próprios desejos.

Ouvir histórias, sempre ajudou os humanos a elaborar seus medos, suas angustias. Por tanto, ouçam seus velhos, e antes de tudo, não se assustem ao encontrar, agora sem censura, a fala solta sobre o desejo.

O presente texto foi produzido a partir de discussões no Curso de Pós-Graduação Envelhecimento e Saúde do Idoso (UCS).

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Venho me dedicando ao estudo da velhice já faz algum tempo. Como sabemos, a velhice não é uma etapa da vida que se apresente sempre da mesma forma ou represente uma realidade definida. Apesar de a velhice ser um fenômeno biológico, o organismo do velho condiciona-se a uma singularidade, diferentemente do que ocorre com outras espécies, na medida em que acarreta consequências psicológicas.

É importante que usemos o termo velhice, evitando tratar esse período da vida com uma adjetivação que muitas vezes se apresentam como forma de negação dessa realidade. Chamar a velhice de melhor idade, terceira idade, adulto maior, apenas reforça a dificuldade e o preconceito social sobre uma etapa da vida comprovada sobre a existência, e mais, revela que a vida foi vivida.

Afinal, qual é a melhor idade? Ser um bebê e ter que ser levado para creches por que os pais precisam trabalhar e não podem acompanhar seus primeiros e pequenos gestos de desenvolvimento? Ser criança e ficar longos tempos em frente a uma tela de televisão ou em joguinhos de computador porque não é mais seguro ficar brincando e descobrindo aventuras no pátio de casa ou na rua, porque afinal a vida urbana se tornou muito perigosa? Ser adolescente e se haver com um apelo de escolha profissional, quando não há mais certeza de trabalho? Fazer uma escolha sexual, quando se tem tantas dúvidas de como ser? Então na velhice a melhor idade seria em relação a quê?

Afinal, o que é a terceira idade? Em alguns estudos antropológicos, trabalham com o conceito de longevidade, ou seja, pessoas que passaram de cem(100) anos. Encontramos um número expressivo de pessoas no Brasil, com mais de cem anos que são cuidados por seus filhos de oitenta anos, que por sua vez são cuidados por seus filhos de sessenta anos que são acompanhados por seus filhos de quarenta. Se a expectativa de vida aumentou, como designar ou definir a terceira idade?

Afinal, o que é adulto maior? Certa vez em uma conferência com outros profissionais, um gerontologista conhecido apontou, como uma grande novidade, que na Espanha se tratava o velho como adulto maior. O problema é que se não conhecemos bem um idioma, às vezes, incorremos em algum erro de compreensão, haja vista que em espanhol, adulto mayor ou maduro é uma forma que se nomear pessoas de idade avançada ou velho, não é um eufemismo ou um sinônimo de velho.

Mas não para por aí, atualmente se propõem termos como envelhecente, a exemplo do que dizemos de adolescente. Também ouvimos termos como senhorinha ou senhorzinho a pretexto de tratar com carinho os vovôs e as vovós. Ser vovô e vovó não revela que essas pessoas procriaram, e em seus filhos se reeditam enquanto avós, não está aí marcada sua continuidade enquanto sexuados? Será que os velhos perderam, na velhice, a sua identidade e subjetivação enquanto seres sexuados? Deixaram de ser homens e mulheres?

Quanto mais se inventa, só pioram os argumentos. Derivações adjetivas, podem mascarar, tentar encobrir o preconceito ou não aceitação da passagem do tempo. Para além disso, negar que isso ocorrerá a todos nós, inexoravelmente. A única forma de não envelhecer é morrer precocemente, o que suponho, também não nos agrade essa idéia.

Negar a velhice como se assim evitássemos a morte, é um equívoco. Todos morreremos porque estamos vivos, não porque nos tornamos velhos, embora se suponha que isso vá acontecer em algum momento na velhice, pois afinal, a vida vivida vai desgastando, produzindo seus efeitos no corpo físico. Quanto a isso nada se pode fazer.

Podemos tentar retardar o processo de deterioração do corpo com cuidados físicos, alimentares, com o cultivo das condições intelectuais, mas isso não para o tempo. É importante que seja assim, que o que vivemos nos ensine a questionar, melhorar nossa compreensão do sentido da vida, de nossas relações, de como construir e balizar nossos projetos, sonhos.

Quanto aos sonhos, esses não envelhecem, temos sempre algum projeto em construção, um objetivo mais adiante a atingir, eis aí a mola propulsora da vida viva, independente da idade que tenhamos.

Esse texto se baseia em temas que venho desenvolvendo há algum tempo. Deixo aqui, como sugestão de leitura, alguns títulos com outros colegas pesquisadores com os quais tenho interlocução de estudos sobre o envelhecimento.

FREITAS; PY; CANÇADO;DOLL.;GORZONI. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2ª edição. Rio de Janeiro: Guanabaran Koogan, 2006.
SANTOS, S. Sexualidade e amor na velhice: Uma Abordagem de Análise de Discurso. Porto Alegre: Editora Sulina,2003.
SANTOS,S. Sexualidad y amor em La vejez: Un Abordaje de Analisis de Discurso. Buenos Aires: Editorial  Proa XXI, 2005.
SANTOS,S.;CARLOS,S.(Org).Envelhecendo com apetite pela vida:Interlocuções psicossociais. Rio de Janeiro:Editora Vozes, 2013.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Dando continuidade ao tema das dúvidas e dos por quês, e ainda refletindo sobre a afirmação do psicanalista francês Jacques Lacan(2016), que nos ensina que as perguntas respondem, pensemos um pouco sobre o lugar que a sexualidade ocupa (ou preocupa) na vida das pessoas, independente de idade.

Ou seja,  se biologicamente se nasce com uma marca genital, que nomeamos como menino ou menina, homem ou mulher, então por que a sexualidade sempre se apresenta como uma questão, uma incógnita ou um fator de angústia?

Dizendo de outra forma, se a biologia classifica como macho e fêmea todo filhote animal e humano, definindo sua função na reprodução e continuação das espécies, por que no humano essa classificação não funciona como nos outros animais?

Por que  não é garantido que nos humanos a marca biológica determine como vai se dar o desenvolvimento da sexualidade apenas como função de reprodução da espécie, sem preocupação com o prazer e com o desejo?

A questão não é de fácil resposta posto que, no humano, as relações são construídas a partir do que ele entende, percebe, sente e como busca satisfazer sua relação com a realidade que o envolve. Por exemplo, tomando a percepção como parâmetro de compreensão da realidade.

Se pedirmos para uma criança de seis ou sete anos fazer um desenho de sua casa, ela pode desenhar uma casa com chaminé embora more em um prédio de apartamentos. Ela pode desenhar essa casa com chaminé sem fumaça ou com fumaça, pode pintar sua casa de uma cor que não corresponde a casa verdadeira. Poderá, como elementos complementares, pintar o céu de cor rosado com vegetação cinza ou vermelha no entrono.

Então esse desenho está revelando as emoções dessa criança. Ela está pintando uma realidade que é sua particular, com sua estética, sua imaginação, suas fantasias. Ela desenha o que sente, como percebe seu mundo naquele momento. Talvez um adulto possa olhar a obra e pensar preocupado: essa criança está com problemas, não sabe que o céu é azul, que a vegetação é verde, que é preciso desenhar fumaça se a casa tem chaminé?

Quero alertar aqui, que como o exemplo do desenho, a sexualidade é construída no psiquismo humano de acordo com as experiências emocionais e afetivas. A criança construirá sua identificação sexual, a partir das relações com os pais, com as pessoas que cuidam dela. Dizendo de outra forma, a criança construirá sua identidade com relação aos pais como ela os vê, como entende ou sente que eles são em suas fantasia, em seu afeto.

É o carinho, a segurança, a troca afetiva que determinará o destino da definição da sexualidade no humano e não a marca biológica de nascimento no corpo. Emocionalmente isso só será definido ao longo do tempo, e dependerá de como o amor dos pais, ou cuidadores, marcará o psiquismo da criança.

Se  a sexualidade humana é forjada na relação afetivas com os pais,  marcada pela satisfação e pelo prazer e/ou desprazer desse contato, então por que essas histórias e vivências acumuladas não garantem que ser menino ou menina defina emocionalmente a sexualidade dos humanos? Então por que não cumprir o mandato dos pais e da biologia, sem dúvidas, sem angústias, sem dificuldades nas escolhas e vivências afetivas e sexuais?

Retomando algumas perguntas do artigo anterior, Se nossa história nos ensina a viver como nossos modelos familiares, com os mesmos princípios e valores, então por que não é sem conflitos?

Se a sociedade atual é livre para fazer, falar e realizar seus desejos sem censura, sem preconceito, então por que os jovens continuam sem coragem, ou confiança, ou naturalidade em falar sobre isso com suas famílias, com seus amigos, com as pessoas que confiam?

A sexualidade humana é determinada pelas marcas de prazer e desprazer que vão sendo inscritas no corpo desde muito cedo, no cuidado com todo o desenvolvimento dos bebês. Desde a amamentação, dos cuidados de higiene, de como falamos com os bebês, de como o tocamos, de como investimos nosso afeto esperamos que esses bebês sejam uma continuidade de nossos sonhos e fantasias de pais.

Na adolescência, como uma etapa de definição de papeis sexuais, emergem dúvidas, conflitos entre o que é determinado pela educação, pelo que os pais esperam que os filhos sejam, e o que o adolescente não sabe que é. Aí, na adolescência vão aparecer as possibilidades de experiências que desvelarão o que até então estava marcado na infância, ou como se diz em psicanálise, estava no inconsciente, recalcado. Não tinha como ser expresso, falado, compreendido, embora nas brincadeiras as crianças já esbocem esses conflitos.

Nem sempre, como no exemplo do desenho, as crianças vão ver sua realidade afetiva e identidade sexual conforme lhes é ensinado que deva ser. Como cada um vai construir suas escolhas e identidade sexual não é determinada apenas pelo biológico, como se fosse um destino.

O humano é marcado pelo desejo, e o desejo é sempre inesgotável, impreciso, o que pode determinar que a escolha sexual e afetiva ou amorosa seja diferente do que esperam de nós. Procure dividir essas questões com seus filhos, com seus pais, com seus parceiros, com seus amores. Se a experiência sexual e sua definição não é mais um tabu, então por que não se falar sobre isso? Que resposta temos para essas perguntas?

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

Um psicanalista francês chamado Jacques Lacan(2016), em seu livro O desejo e sua interpretação, nos ensina que as perguntas respondem. Seguindo essa afirmação, será que por falar, a pessoa sabe o que diz? Parece que não. Por quê? Porque o ato de falar vai muito mais longe que o simples ato de fala. Ao falar estamos implicados em buscar sentido para o que dizemos.

O que falamos, é decorrente de nossas experiências de vida, de nossos valores e portanto, está sujeito ao registro da linguagem e da cultura. Quando perguntamos, o que queremos saber é sobre o que não temos certeza, o que duvidamos ou buscamos mais informações para o que pensamos. Mas também quando perguntamos, o fazemos porque temos alguma hipótese sobre nossas questões. Nesse caso, a pergunta já traz, de certa forma, uma resposta em embrião.

Dizendo de outra forma, aquilo que falamos é produto de nosso pensamento, mas para além disso, o pensamento está ligado a nossa história familiar, com a bagagem de tantas histórias de tantas outras famílias, ou seja, a história de nossos pais, avós e de suas origens, ideologias, crenças religiosas, de todas as experiências e ensinamentos que aprendemos com essas pessoas de nosso universo familiar. E principalmente, do que supomos que entendemos sobre essa herança familiar.

Se é assim, então por que essas histórias e vivências acumuladas não nos protegem dos enganos, desencantos, equívocos, dificuldades que nos acontecem em nossas escolhas e vivências afetivas?

Se nossa história nos ensina a viver como nossos modelos familiares, com os mesmos princípios e valores, então por que não é sem conflitos?

Se aprendemos com a experiência do sofrimento, então por que não conseguimos evitar que o sofrimento se repita na relação com nossos filhos ou com as pessoas que escolhemos para amar e compartilhar a vida?

Gostaria de tomar aqui um tema preocupante aos que têm filhos, mas aos filhos também. Tema que atravessa gerações e acaba sempre chegando à clínica psicanalítica, qual seja: a gravidez precoce na adolescência, assunto recorrente e quase epidêmico, independente de classe social ou nível cultural.

Se é um tema recorrente, independente do tipo de sociedade, então por que não é enfrentado, orientado na preparação da vida sexual dos jovens? Por que esse acontecimento ainda parece surpreender, ou ser motivo de reprovação entre adultos e adolescentes?

Se conhecemos tantos métodos de prevenção e controle de gravidez, se temos políticas públicas que disponibilizam métodos contraceptivos, então por que os adolescentes não fazem uso desse recurso na iniciação de sua sexualidade?

Se a sexualidade não é mais um tabu na sociedade atual, e cada vez mais cedo está no cotidiano dos jovens, então por que não se fala sobre isso, e não fazem uso dos meios disponíveis para evitar a gravidez precoce, ou ainda, as doenças sexualmente transmissíveis?

Se há liberdade de falar sobre o tema com os pais, com a rede de amigos(as) ou na escola, então por que a iniciação sexual tem que ser marcada por uma gravidez prematura, aos dez, doze, quinze anos?

Se as meninas engravidam prematuramente, isso não acontece por acaso ou só com elas. Então por que os meninos não são orientados a acompanhar a gestação, o parto e conversar sobre sua participação e responsabilidade com relação à vida que foi gerada?

Se a sexualidade, na juventude, faz parte de seu desenvolvimento como pessoa, faz parte de uma etapa de mudança da vida, necessariamente é um processo natural. Então por que não pode ser apenas natural e tem que ser transformada em uma carga, ou culpa, ou alvo de juízos de valor, de discriminação social?

Se a sociedade atual é livre para fazer, falar e realizar seus desejos sem censura, sem preconceito, então por que os jovens continuam sem coragem, ou confiança, ou naturalidade em falar sobre isso com suas famílias, com seus amigos, com as pessoas que confiam?

Procure dividir essas perguntas com seus filhos, com seus pais, com seus parceiros, com seus amores. Se a experiência sexual não é mais um tabu, um problema, então por que não se faz isso? Que resposta temos para essas perguntas?

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Coisas que fazemos sem nos dar conta

A realização de desejos, uma estratégia de mercado do mundo capitalista, usa a propaganda como instrumento poderoso para induzir a população ao consumo. Esse é o grande vilão da indústria de brinquedos que joga com as fantasias infantis de poder com seus personagens grandiosos, mágicos e imbatíveis. Assim o consumo de bonecos com todo tipo de poder e seus acessórios, tais como máscaras, capas, espadas, barretes como elementos de combate aos monstros e às criaturas do mal, ganham espaço no mundo da fantasia das crianças, dando vazão em suas brincadeiras e potencializando seus supostos super poderes no enfrentamento contra os possíveis inimigos.

É difícil para os pais, quando os filhos pedem para ganhar esses brinquedos, resistirem ao apelo.  Nem há porque resistir ou negar esses pequenos prazeres às crianças. No entanto, é bom lembrar que também podemos conversar sobre isso com as crianças, falar sobre suas fantasias. Observar como brincam, com quem brincam, com quem brigam no seu mundo imaginário.

Brincar é uma excelente forma de elaborar os sentimentos de hostilidade, medo, violência, amor, solidariedade.  Brincando as crianças conseguem por para fora suas fantasias, também evidenciar suas angústias e todo tipo de afetos. Os adultos podem aprender muito observando as crianças, o que está se passando em suas fantasias e quem sabe, contribuir para que convivam melhor com a realidade por vezes ameaçadora no mundo da infância e dos adultos.

Atualmente, há um forte apelo à erotização da infância, principalmente em relação às meninas.  É cada vez mais comum o mercado de bonecas com namorados. Portanto, não basta comprar a boneca, é preciso comprar seu namorado. Esses personagens têm um guarda-roupa para diferentes eventos, o que não só induz a forma como se deve conduzir a fantasia das crianças, criando cenários e cenas, mas também geram mais elementos para desejar consumir.

A fantasia de namorar, tem escapado da brincadeira com as(os) bonecas(os), e extrapolado a barreira de uma situação lúdica para ganhar espaço entre as crianças, como se fossem adolescentes precoces ou adultos em miniatura criando jogos de sedução. Algumas vezes, observa-se que é estimulada a idéia de  meninas e meninos terem namorados, porque brincam juntos na escola e são companheiros de festinhas nos aniversários. 

Gostar de estar e brincar com alguma criança em particular ou algum grupo de crianças, é comum e desejável. Afinal é parte necessária da socialização da criança. Mas confundir esse gostar, essa identificação entre amigos com um interesse erótico, já é um pouco de mais.  O gostar de alguns amigos(as) na infância não tem relação com identificação de gênero, assim como não tem o caráter da sedução do adulto ou do interesse erótico do adulto.

Voltando ao mercado de consumo, no entanto, todas as faixas etárias estão na mira das  indústrias. Criando objetos de desejo para todas as idades, o mundo consumidor, sem filtro, procura seguir a tendência do mercado, como se diz na linguagem econômica, sem entender o que está movendo e provocando esse desejo.  Em outro momento discutiremos outras faixas etárias. 

No presente artigo, tomo como referência a infância. O que nos parece assustador é que os pais, sensibilizados pelas demandas de seus filhos, respondem sem crítica a esses apelos que são criados pelo consumo. Assim, vemos crescer de forma vertiginosa a cosmética de todo tipo de maquilagem para crianças, gel para deixar os cabelos em pé para meninas o que não excluindo os meninos; assim como sapatos com saltinhos, moda que se assemelha ou ‘combina’ com as roupas e complementos da mamãe e do papai. 

Aqui surge uma dúvida: com a idéia de vestir todos iguais se pretende rejuvenescer ou infantilizar os pais? Ou se pretende ‘amadurecer’ as crianças? Qualquer resposta afirmativa seria um equívoco. Adultos e crianças não são iguais. Pais e filhos não são uma só pessoa, como um jogo de espelhos: eu sou você amanhã.

Quando as crianças, em casa, usem as roupas dos pais, isso decorre de uma fantasia de identificação, de parecer com os pais. Isso é importante enquanto modelos identificatórios. No entanto, quando se vai a uma loja e tem uma oferta de roupas e acessórios semelhantes entre adultos e crianças, não há nessa situação a fantasia das crianças como elaboração de identificação com os pais. Há uma armadilha para produzir fantasias de consumo.

O que aí se oferece é uma sugestão de que se pode alterar a realidade e voltar a ser criança, ou adulto em miniatura; ou quem sabe copiar o ‘boneco’ dos pais, posto que apenas a aparência, a imagem está em jogo.  Podemos pensar o mesmo em relação a estimular a foto de crianças se beijando, ou a crianças beijando um dos pais na boca, e/ou fazendo caras e bocas de sedução frente a uma câmera para o álbum de família, ou pior, exibir nas redes sociais.

Talvez aí se exiba a fantasia dos adultos de uma ilusão de precocidade erótica que não é da criança, mas da imaturidade dos adultos que exibem suas próprias fantasias sobre um mundo infantil que é seu.  Expor fotos de crianças em poses eróticas e olhares lânguidos, ensina a criança a se exibir como objeto, violentando a infância. Se esse escrito fizer algum sentido para você, discuta, compartilhe. A infância e também seus filhos, agradecerão.  

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Situações traumáticas são inevitáveis

Chamamos de traumática, aquela experiência que nos impõe uma situação de perda e que surpreende, desestabiliza nossa vida, sem que haja possibilidade de reação, de defesa, de proteção. Pode ter um caráter irreversível, como a morte por exemplo, quanto a isso, nada podemos fazer. A morte não tem meio termo.

Mas quando a perda se caracteriza por uma situação circunstancial, temporária, como o rompimento de laços afetivos, perdas de bens materiais que considerávamos seguros, ou perdas de caráter pessoal, tais como: de prestígio, de poder ou de reconhecimento, nesses casos algo sempre pode ser resgatado. O traumático nesses casos, requer um período de elaboração, de entendimento dos acontecimentos para restabelecimento de nosso equilíbrio emocional. Isso às vezes necessita de um acompanhamento profissional e também de algum tempo para algumas resoluções.

Se acreditarmos, como equivocadamente os livros de auto-ajuda propagandeiam, que temos o controle de nossa vida, de nossos sentimentos, de nossos conhecimentos, de nosso futuro pela força de nosso pensamento, acreditamos em uma vida irreal. É como acreditar no pensamento mágico e místico do homem primitivo ou de crianças muito pequenas, ou seja, acreditar que o pensamento, por si só, tem poder de alterar a realidade.

Por exemplo, as crianças quando vêem um filme de terror fecham os olhos diante de uma cena assustadora, tentando assim evitar o perigo. Mas afinal, o perigo aí é uma projeção de imagens em uma tela, não há ali realidade. Então, fechar os olhos para essa cena não protege do perigo nem altera o curso da história. Nesse caso, não há realidade que possa ser controlada. Os  sentimentos de medo, estão em nós, em nosso psiquismo, pela forma como foram vividas nossas experiências emocionais na nossa própria história.

Portanto, o pensamento mágico tampouco nos protege de nossas emoções. Pensemos outra situação bem comum do nosso cotidiano, quando os pais se separam. Quando por inconformidade dessa situação, os pais entram em litígio, é comum que a parte que se sente lesada, traída ou ferida pelo rompimento, transforme em uma batalha essa separação. Para além da perda do amor, o traumático emerge na dor de não ter podido contornar o incontornável, ou seja, aquela relação se esgotou e não havia como recuperar os laços.

O traumático é sentido como uma falha de alguém, daquele que não pode fazer a escolha da separação. Então, alguém deve pagar. É preciso que o outro, aquele que definiu a separação pague por isso, sofra. Muitas vezes os filhos são usados como moeda de troca na negociação do sofrimento.

A criança é sempre a parte mais fraca pois não entende a situação, gosta dos pais e se sente implicada em ter que escolher. É como se ao estar com um dos pais, estivesse traindo o outro, ou se não pudesse gostar de estar com a mãe ou com o pai pois acredita que estando com um deles, o outro não o amará mais ou estará sofrendo por isso. Também por pensamento mágico, a criança pensa que pode ser responsável por resolver essa separação ou ter que restaurar a relação dos pais. Mas quanto a isso, ela não poder fazer nada, embora sofra as conseqüências da separação inevitável.

O traumático, quando se rompe a relação de amor, qualquer amor, não depende só de uma pessoa. Não é uma questão de quem falhou ou deixou de amar. Uma relação de amor é uma aposta no sonho do ‘para sempre’. Quando acordamos do sonho, às vezes, a realidade é diferente, se modificou. Algo aconteceu com o passar do tempo em que os sonhos, os projetos comuns deixaram de seguir na mesma direção, quebrando o contrato de seguir se amando e juntos.

Situações traumáticas não são incontornáveis

Nossos medos nos avisam de perigos eminentes ou imaginários, mas nossos medos não nos previnem ou nos protegem da vida real. Quando isso acontece, quando perdemos o rumo, ou nos sentimos ameaçados em nosso sonho de felicidade estável, é preciso enfrentar essa dor, tratar a ferida e não negar que isso está acontecendo ou culpar a vida.

A vida é um investimento de risco. Não vem com garantia ou prazo de validade. As possibilidades de perdas e ganhos estão sempre em um horizonte que vislumbramos à distância. As operações de investimentos, quando pensamos ter atingindo nossos objetivos, já não bastam. Não estão mais lá, e buscamos atingir outro patamar. O sentimento de que sempre nos falta alguma coisa, no entanto, é o que nos impulsiona a seguir buscando, crescendo, desejando.

É porque algo sempre nos falta que buscamos completar esse furo. Essa insatisfação com o que já conquistamos, por si só, não deveria ser traumático. A insatisfação com o que temos ou somos, ou com o que perdemos ao longo de nossas relações, na vida, pode ter um destino não traumático.

Pode ser instigante, provocar outras soluções de continuidade. As perdas que nos desestabilizam, muitas vezes, quando enfrentamos esses momentos de dor ou de crise, podem nos fortalecer.

A psicanálise nos ensina que o desejo é algo que não sacia, ou seja, estamos sempre  a procura de algo que nos dê prazer, completude, bem estar. É o que chamamos de pulsão de vida. Dizendo de outra forma, a vida insiste em querer, em provocar desejo. Isso é o que entendemos como libido, uma energia erótica, vital.

Retomando o título desse artigo, Experiências Traumáticas e Superações, gostaria de propor também uma reflexão sobre o traumático episódio que nos afetou, quando um tornado atingiu São Francisco de Paula, domingo, 12 de março. O evento em si foi traumático pela destruição de casas, de bens materiais.

As pessoas que sofreram ferimentos mais ou menos graves, seguramente ainda lembrarão por muito tempo o medo da morte eminente; terão que trabalhar muito para recuperar suas casas, o cotidiano de suas vidas. Isso ficará na memória de todos. Dos que foram atingidos diretamente e da comunidade como um todo que solidarizou-se com seus amigos, vizinhos, parentes.

Mas nem tudo que é traumático é patológico. Dizendo de outra forma, nem tudo que nos fragiliza, nos abate, nos desestabiliza vai nos adoecer. O que ouvimos de pessoas que foram atingidas diretamente pelo tornado, revelou a força vital, e portanto erótica, dessa comunidade. 

Os depoimentos das pessoas atingidas não eram de uma crença de destino, de fatalidade, de conformismo. Havia dor, tristeza, medo da morte tão próxima. Sim foi traumático. Esses sentimentos não poderiam ser manifestados de outra forma. A realidade de um evento dessa magnitude não pode ser relativizado.

As forças da natureza, recolocam o humano na sua real dimensão de fragilidade. Não controlamos a natureza com o pensamento mágico, supondo de nenhum mal vai nos acontecer quando fenômenos climático ou tectônicos atingem a terra. Os fenômenos naturais tem seu curso, seu ciclo, mas também reagem ao que os humanos intervêm sobre o curso natural da natureza. A relação humano com a natureza também é de reciprocidade.

Mas apesar da grande devastação produzida por esse evento traumático e que abalou toda a cidade, foi muito surpreendente ouvir declarações, de parte das pessoas atingidas, de que a vida humana estava assegurada, a família estava viva e isso era o mais importante. A forma de viver essa realidade era apostar na força da reconstrução daquilo que não era o fundamental, os bens materiais.

Tudo o que haviam perdido, claro, era lamentado porque conquistado com muito trabalho, dificuldade, empenho em melhorar suas condições materiais. Mas todos esses bens, com trabalho, com saúde, com a ajuda de todos se reconquistaria. A solidariedade, como um valor agregado das relações fraternas de famílias, vizinhos, amigos, construiu uma rede de força e apoio, retomando o desejo de recomeçar, reconstruir, retomar a vida nas mãos.

Ainda precisaremos de algum tempo para superar nossos medos, ainda lamentaremos o que perdemos. Mas a grande lição que tiramos desse evento traumático, que tocou a todos é que a solidariedade, o cuidado, o respeito pela vida de uma comunidade, pode transformar a vida de cada um, é responsabilidade de todos, implica a todos. E finalmente, o traumático pode ser transformado em superação e força.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

Certa vez fui visitar uma pessoa que tinha uma filhinha de um ano e oito meses aproximadamente. Ao chegar à casa, entrando na sala pois a porta estava aberta, encontrei a menina em seu carrinho. Ela chorava muito, gritando com algum desespero.  Preocupada com a cena, falei: o que foi, por que estás chorando? Tentava chamar a atenção dela e ao mesmo  tempo  ver também se mais alguém estava em casa. 

Ao me ouvir, a mãe veio de outra peça da casa aos gritos. Estava atarefada com as coisas da casa e tinha uma vassoura nas mãos e um pano pendurado no ombro, parecia uma fralda ou coisa assim. Ela disse: não é nada dona Sueli, ela está mimada, não posso fazer nada agora, só quer que fique olhando pra ela, é “balda”. Esse é um termo usado naquela região e significa que uma criança está “mal acostumada”, só quer atenção.

Como a criança não parava de chorar, e a mãe de praguejar,  peguei-a no colo e falei suave com ela, passando a mão no rostinho, tentando acalmá-la. A manobra não adiantou. Mais o bebê berrava, continuava a olhar para a mãe com aquele desespero. Fiquei assustada! Por que chorava tanto, estaria com alguma dor?

A mãe, que se lamentava por estar escravizada àquela pequena tirana, tirou bruscamente o bebê do meu colo, esfregou o pano que trazia ao ombro no rostinho da menina e a sacudia de forma enérgica, continuando a praguejar.  A menina, no colo da mãe, imediatamente, como em um passe de mágica parou de chorar. Ficou quietinha olhando sua mamãe. 

Entendi que isso para ela era amor, segurança, a tranqüilizava. Sempre que se sentia só, desamparada e chorava, a mãe chegava daquela forma e a olhava;  seu toque era forte, a sacudia e  fazia com que  se sentisse  acolhida.

Pensando no desenvolvimento do psiquismo, sabemos que quando os bebês acordam, costumam dar algum sinal.  Resmungam, fazem algum ruído ou choram, isso é o que podem fazer. É que ao acordar, e não verem ninguém ao seu redor, sentem-se desamparados. Do ponto de vista da psicanálise, para os bebês, o olhar da mãe, ou de quem cuida deles, lhes dá um sentido de existência. 

Quando um bebê desperta, quem costuma acudir ao seu grito ou choro é a mãe ou quem cumpre essa função. Cada mãe ou cuidadora, chega do seu jeito. Nem todas as mães se relacionam da mesma forma com seus filhos. Cada uma com sua história.  Algumas são suaves, sussuram palavras carinhosas, sorriem, e isso acalma a criança.

Essa mãe chegava de outra forma, falando alto, com mãos fortes, com gestos bruscos ao meu entendimento. Mas para essa criança  não havia violência aí, só alivio de angústia. Aquela bebê estava acostumada a sua mãe. Quando se sentia perdida, sem um olhar que lhe desse sentido e chorava ‘chamando’ alguém que a socorresse,  a mãe rompia a solidão, a mãe a amava. 

O jeito como tratamos os bebês, e também os filhos quando maiores, ensina a eles uma forma de amor. Muitas vezes, sem saber, sem nos darmos conta, ensinamos que amor é sinônimo de violência, de opressão, de humilhação.

Quantas vezes, porque as crianças fazem alguma coisa que as põem em risco, ou se machucam porque estão brincando ou fazendo alguma descoberta, nós dizemos:

Agora tu vais apanhar para aprender a não  fazer mais isso. Quando teu pai chegar, vou contar o que fizeste e tu vais ver o que te acontece.

Agora vais ficar de castigo para não fazeres o que não deves. Vou te tirar tal e tal coisa até aprenderes. Vais ficar trancado no quarto sem falar com ninguém para pensares no que fizeste.

Eu te bato porque gosto de ti, para te proteger.  Ele pede pra apanhar, só depois de uns tapas é que fica bonzinho, que obedece.

De certa forma  podemos estar ensinando que quem ama, quem cuida, é violento. Dizemos de alguma  forma que bater, castigar, reprimir é amor.  O castigo, a punição, a violência inibe o comportamento indesejado pelos pais. Mas a criança aprende a ter medo, não o respeito. Aprende que há coisas que são proibidas mas não  aprende a se cuidar.

As vezes penso em algumas histórias que ouço na clínica de pessoas adultas, que buscam relações violentas, com ‘pegada’; o quanto essas pessoas não estão tentando reencontrar esse primeiro amor, por terem entendido que amar é possuir o outro como um objeto, é vigiar, é ter um ciúme controlador sobre o outro, é ser tratado como dependente, é ser desvalorizado.

Falar com as crianças,  ensiná-las a respeitar limites,  é ensinar que amor é tolerância, é dividir dúvidas, medos,  alegrias pelas descobertas, pelas novidades.  O amor passa pela palavra, pelo olhar de compreensão, pelo respeito ao crescimento e tentativas de autonomia. Quando batemos, perdemos a razão, e a palavra, perde o valor. Quem ama não bate.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Todos os anos é a mesma coisa. O início das aulas traz muitas expectativas para pais e crianças, cada um a seu modo. Seria bom que fosse um momento de crescimento para ambos. Os pais felizes por seu filhos estarem crescendo, indo para um mundo de novas relações com a vida. As crianças felizes de poder conviver com outras crianças e aprender muitas coisas novas, mesmo que não saibam muito bem o que será.

Os primeiros dias de escola, de crianças muito pequenas, são cheios de insegurança. Elas não sabem bem o que vão encontrar. Os que estão indo pela primeira vez, além do desconhecido, ficarão longe de casa por algum tempo, longe do que lhe é familiar. Para aqueles que já passaram por essa experiência, sempre há a curiosidade para saber quem será a nova professora ou professor, se seus colegas serão os mesmos, que outras coisas terão que aprender no novo ano.

Por vezes, os pais também ficam inseguros pela separação dos filhos que começaram a ter experiências novas, longe de seu olhar protetor. Nos pais de crianças maiores, surge a expectativa de que seus filhos vençam os novos desafios da aprendizagem, que tenham progresso e que se comportem bem. 

Para as crianças, é importante entender que a escola é um lugar onde vão encontrar outras crianças, seus colegas; que vão brincar, compartilhar e ouvir histórias, aprender muitas coisas importantes para seu conhecimento, aprender sobre o mundo que as rodeia.

Mas nem sempre a entrada na escola e o convívio das crianças com o mundo do conhecimento, da troca de experiências com professores e colegas é entendido como algo leve, que traz prazer, como um mundo de aventuras. 

Algumas  vezes, buscando proteger os filhos e estimular que tenham uma boa experiência na escola, as crianças recebem recomendações do tipo: cuidado, vocês  têm que se comportar direito, ficar caladas e obedecer as ordens da professora; não fazer bagunça, ser boazinhas e não brigar com os colegas.

Mas afinal, o que significa: se comportar direito? Ficar calado e obedecer? Não fazer bagunça? Ou ser bonzinho e não brigar com os colegas? Não responder para a professora? Isso pode ter muitas interpretações por parte das crianças. Essas recomendações dos pais, podem estar ligadas à forma como eles entendem o que deva ser o comportamento de seu filho fora de casa, ou que seja isso que a escola espera das crianças.

Atenção: 

Uma coisa importante de se entender é que as crianças pequenas estão dentro do mundo da linguagem, mas nem sempre entendem o sentido do que os adultos falam. 

Criança com medo, calada, assustada, não aprende com leveza, com curiosidade, com alegria. O medo do que é novidade, daquilo que é diferente, não é um bom amigo da aprendizagem. 

O receio de fazer feio, de errar, de não saber a resposta certa, pode inibir a criança a se arriscar, a mostrar suas dificuldades.

Dicas para pais e professores:

As vezes, crianças muito quietas, que nunca perguntam nada ou que têm vergonha de falar, que são muito críticas de si mesmas, que sempre acham que o que fazem é feio, são crianças  entendem que estão proibidas emocionalmente de errar e por isso não se permitem não saber, não se permitem mostrar suas dificuldades. Então ficam caladas, encolhidas, lentas, sem criatividade, sem alegria ou aparentam desinteresse por qualquer estímulo.

Isso pode ser confundido com dificuldade de aprendizagem, ou alguma deficiência de inteligência. É preciso prestar atenção no que realmente está impedindo a criança de mostrar suas potencialidades e capacidades.

Portanto, entrar na escola, ou retornar às aulas, deve ser uma experiência de prazer, de alegria, de entusiasmo pelo novo. A escola deve ser vista como um lugar agradável, de descobertas, de conhecimento de novas pessoas, de compartilhar brincadeiras. Ou seja, de aprender com as novas experiências.

Assim as crianças vão aprender a compartilhar suas descobertas com os colegas, vão aprender a esperar sua hora de falar, vão ter curiosidade de perguntar o que não entendem, terão vontade de mostrar o que sabem.  E principalmente, é preciso respeitar que cada crianças tem seu tempo para entender tudo isso.

Não compare as crianças umas com as outras, como esse todos tivessem que aprender da mesma forma ou no mesmo jeito. Cada uma é única e essa é a riqueza da convivência da experiência de crescimento na escola, na família, na vida. Respeite as diferenças.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

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