Na língua portuguesa existem certas definições que podem ter mais de uma interpretação. Entendo que a palavra desenvolvimento seja uma delas. O texto a seguir é uma interpretação minha, e, obviamente posso estar enganado. Na verdade, espero estar!

Segundo o dicionário Aurélio, o prefixo “des” quer dizer “separação”, “transformação”, “ação contrária”, “negação”, “privação”. E existe a expressão Desenvolvimento Econômico, que significa “crescimento, quando acompanhado de alterações produtivas na estrutura produtiva do país ou região”.

Mas as palavras desorganização, desapego, desarranjo, desestímulo, entre tantas outras, têm um significado bastante claro. E uma que não deixa qualquer dúvida, principalmente nos dias de hoje, é ... desconectado!

Retornando à palavra desenvolvimento, desde o período da Revolução Industrial, em meados do século XVIII, com o surgimento da máquina a vapor e todo o progresso tecnológico, com máquinas e equipamentos em todos os setores da indústria / produção, até os dias de hoje, infelizmente estamos testemunhado um afastamento progressivo – ou um “des-envolvimento” – da Natureza. Inicialmente, a indústria tomou a ponta neste papel e, com o progresso tecnológico, a mídia o assumiu, e até tomando para si a responsabilidade de divulgar e propagandear esta ideia. Afinal de contas, os lucros da mídia provém principalmente da propaganda da indústria e do comércio. Obviamente, para manter seus clientes, e seus lucros, a mídia prontamente subverteu o verdadeiro significado da palavra desenvolvimento.

Há um filme muito interessante que trata do assunto de uma forma muito contundente e didática, chamado “Avatar”, lançado no cinema em dezembro de 2009. E sobre ele, vou me deter um pouco nas próximas linhas.

Coincidentemente, ou até propositalmente, o filme foi lançado logo após o fracasso da Conferência do Clima em Copenhagen e no início do Ano da Biodiversidade.

De acordo com o filme, precisamos restabelecer nossa conexão com a Natureza, além de demostrarmos respeito pelo nosso semelhante e qualquer outro ser vivo. Ele propõe uma discussão sobre o futuro de nosso planeta, e expõe a monstruosidade de que somos capazes, ao destruirmos o equilíbrio em um mundo em perfeita harmonia, com uma brutalidade chocante, apenas por ganhos financeiros.

A destruição da árvore-casa dos Na’vi, povo que habita a lua Pandora, pode ser comparada à destruição da Amazônia, Mata Atlântica, e tantos outros exemplos de agressão à Natureza que já protagonizamos e vemos ao redor do mundo.

Na mitologia grega, Pandora recebeu de seu marido, Epimeteu, uma caixa contendo todos os males, com a advertência de não abrí-la. Porém, ela não resistiu à curiosidade e abriu a caixa. Assim como Pandora não cuidou de sua caixa, não estamos cuidando de nosso planeta. Existe até um ditado que diz “cuspir no prato em que comeu”, quando queremos nos referir a alguém que agiu de forma totalmente ingrata ao local, ambiente ou pessoa que a ajudou nos momentos de maior necessidade. E a humanidade está fazendo muito mais – e pior – do que apenas cuspir em seu próprio quintal...

Em Pandora, tudo está em harmonia. Lá existe a árvore da vida, Eywa, que sustenta todas as conexões entre todos os seres vivos, funcionando semelhante a uma teia, como se conectando as sinapses em nossos neurônios de nosso cérebro. Alguém duvida que estejamos todos interligados? Até Darwin, há 150 anos, já dizia isso...

José Lutzemberger também afirmava que “...tudo está relacionado com tudo. Tudo é uma coisa só”, em seu manifesto ecológico “Fim do Futuro”.

De uma forma diferente do filme, onde as conexões são diretas, nossa conexão existe, mas foi perdida com o nosso afastamento da Natureza. E ela ficou cada vez mais evidente a partir do momento em que começamos a nos organizar em cidades, em torno de 9000 anos atrás. E este crescente distanciamento só nos tem trazido uma falsa noção de progresso, com um cada vez maior emprego de tecnologia e dependência dela. Hoje, há muitas pessoas que dizem não conseguir viver sem o celular. E quando ele não existia, em torno de 25 anos atrás? Não havia vida?

O filme mostra que nosso direito a continuar habitando a Terra passa por uma reconexão com ela. Esta foi a experiência do personagem principal, e que lhe permitiu libertar-se da cegueira e da ignorância que seria desencadeada pela ação dos humanos em Pandora... E isto aconteceu a partir de seu contato e convívio com o povo Na’vi, com quem ele aprendeu a importância desta harmonia naquela lua, ao experimentar o respeito a todas as formas de vida.

Isto levanta uma questão. Quem são os selvagens e quem são os civilizados. Quem está em harmonia com a Natureza exuberante de seu planeta ou quem está totalmente “desenvolvido” com seu mundo, sua Natureza e seu equilíbrio, e ainda age de forma a perpetuar este caos?

A própria palavra “desenvolvimento” sugere um afastamento do envolvimento, uma total desconexão com a mãe Natureza, o que só gera desequilíbrio para todos nós.

E assim, uma constatação apresentada pelo filme é que é isto que nos falta: envolvimento.

Esta nossa crescente desconexão com a Natureza, e excessiva preocupação em obter lucros a qualquer custo, só mantém e agravará o problema.

Somos responsáveis por criar, manter e perpetuar um sistema econômico falho, excludente e perverso, que visa sempre e apenas o lucro e crescimento ilimitado.

Mas o que não é divulgado é que vivemos em um espaço finito, onde não é possível um crescimento sem fim. O que existe, desde que busquemos a informação, é uma perspectiva de quantos planetas são necessários para manter nosso atual padrão de consumo, conhecida como pegada ecológica. O que também nada tem de animador.

A financeirização da Natureza (ou colocar uma “etiqueta de preço” em cada animal, vegetal, pedaço de rocha, etc.) tem única e exclusivamente a intenção de dar um valor econômico para que possa ser negociada como uma mercadoria.

Em 2017, na média mundial, precisamos de 1,5 planetas para sustentar nosso padrão de consumo. E, de acordo com o WWF (World Wildlife Fund), em 2050 precisaremos de mais de 2 planetas!!! Mas, se temos apenas um planeta, como estamos conseguindo manter este padrão? Estamos acelerando o processo de esgotamento dos recursos. E os resultados já estão batendo à nossa porta, como alterações climáticas, extinção de espécies em um ritmo muito acima dos registros históricos, erosão e empobrecimento do solo, escassez de água em algumas regiões, entre outras. Por ano, milhões de pessoas precisam se mudar para outras regiões, à procura de água. São os que a ONU já chama de Refugiados do clima.

Já no final dos anos 1970, o Banco Mundial deu um alerta para os possíveis danos ao nosso ambiente se não mudássemos nosso comportamento de consumo.

Mais recentemente, o biólogo estadunidense Jared Diamond, no livro “Colapso”, aborda sobre o destino das civilizações a partir de sua relação com seu ambiente. A maioria teve ou está demostrando um final nada feliz.... Em cada capítulo ele trata de uma civilização, desde os Vikings até a China de hoje. É uma leitura que recomendo!

Concluindo, uma constatação apresentada pelo filme, e de fácil comprovação ao nosso redor, é que precisamos resgatar nosso envolvimento/conexão com a Natureza, pois o nosso afastamento dela não está dando certo... e tem um resultado previsível.

Fontes:
Charles Darwin – A Origem das Espécies
Jared Diamond – Colapso
José Lutzemberger – Fim do Futuro
Peter Russell - O Buraco Branco no Tempo
http://www.administradores.com.br/producao-academica/o-buraco-branco-no-tempo-uma-analise-sobre-o-gerenciamento-de-mudancas/1746/
http://arte.folha.uol.com.br/ambiente/2014/09/15/crise-da-agua/gente-demais.html
http://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/especiais/pegada_ecologica/pegada_ecologica_global/

Telmo Focht, biólogo, com doutorado em espécies exóticas invasoras. Também atua na área de licenciamentos ambientais.

Antes de iniciar, e para esclarecer, um paradigma é um modelo, um padrão, em qualquer área ou ramo do conhecimento que considerarmos.

Esta nova, e bastante recente, abordagem da ecologia envolve uma radical mudança em nossa visão de mundo, o atual paradigma. Mas, afinal, o que esta nova abordagem tem, ou traz, de novo?

No início do século XX, os físicos ficaram dolorosamente conscientes de que suas concepções básicas, sua linguagem e todo o seu modo de pensar eram inadequados para descrever os fenômenos atômicos. Muito além de novos problemas intelectuais, eles alcançavam proporções até de crise emocional, dadas a intensidade da nova realidade, uma vez que lhes faltava vocabulário para entender, e até descrever, o que estava sendo observado.

Mais recentemente, já no final do século XX, nos deparamos com uma crise cultural semelhante, porém muito mais ampla, que se estende para além das ciências, abrangendo também o tecido social, e seu modo de pensar. O que estamos testemunhando hoje é uma mudança de paradigma, na qual o domínio de um ponto de vista secular está sendo não apenas desafiado, como revisado. E quais seriam estas ideias e estes valores colocados em cheque?

Não há uma ordem cronológica ou de importância, mas eles são a visão do universo como um sistema mecânico composto de blocos de construção elementares, a visão do corpo humano como uma máquina, a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência, a crença no progresso material ilimitado, a ser obtido por intermédio de crescimento econômico e tecnológico, e – por fim, mas não menos importante – a crença em que uma sociedade na qual a mulher é, por toda a parte, classificada em posição inferior à do homem é uma sociedade que segue uma lei básica da natureza. 

Sobre mudanças de paradigmas, em seu livro “A Estrutura das Revoluções Científicas”, o filósofo Thomas Kuhn teorizou que toda mudança de paradigma passa por três fases: a primeira, quando a nova ideia enfrenta muita resistência, às vezes até com violência; na segunda, ela passa a ser tolerada, e na terceira ela passa a ser o novo paradigma. E assim, o ciclo recomeça....

Albert Einstein também afirmou que um problema só pode realmente ser resolvido se sua solução for concebida em um paradigma diferente daquele que o criou.

O próprio Charles Darwin, no século XIX, afirmou que “estamos todos interligados”, mas muito provavelmente ele não imaginava que esta afirmação teria tanta abrangência e profundidade quanto percebemos, e experimentamos, hoje.

O novo paradigma pode ser chamado de uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também ser denominado visão ecológica, se o termo “ecológica” for empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedade estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos).

Os dois termos, “holístico” e “ecológico”, diferem ligeiramente em seus significados, e parece que “holístico” é um pouco mais apropriado para descrever o novo paradigma. Uma visão holística de uma bicicleta, digamos, significa ver a bicicleta como um todo funcional e compreender, em conformidade com isso, as interdependências de suas partes. Uma visão ecológica da bicicleta inclui isso, mas acrescenta-lhe a percepção de como a bicicleta está encaixada no seu ambiente natural e social – de onde vêm as matérias-primas que entram nela, como foi fabricada, como o seu uso afeta o meio ambiente natural e a comunidade pela qual ela é usada, e assim por diante. Essa distinção entre “holístico” e “ecológico” é ainda mais importante quando falamos sobre sistemas vivos, para os quais as conexões com o meio ambiente são muito mais vitais.

Fritiof Capra usa o termo “ecológico” no sentido de estar associado com uma escola filosófica específica e, além disso, com um movimento popular global, conhecido como “ecologia profunda”, que está, rapidamente, adquirindo proeminência. A escola filosófica foi fundada pelo filósofo norueguês Arne Naess, no início da década de 70, e distingue “ecologia rasa” de “ecologia profunda”. Esta distinção é hoje amplamente aceita e muito útil para se referir a uma das principais divisões dentro do pensamento ambientalista contemporâneo.

A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ele vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de “uso”, à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo, não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados, interdependentes e intimamente encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos).

Se olharmos para a nossa cultura industrial ocidental, veremos que enfatizamos em excesso as tendências auto-afirmativas e negligenciamos as integrativas. Isso é evidente tanto no nosso pensamento como nos nossos valores, e é muito instrutivo colocar essas tendências opostas lado a lado.

Pensamento

Valores

Auto-afirmativo

Integrativo

Auto-afirmativo

Integrativo

Racional

Intuitivo

Expansão

Conservação

Análise

Síntese

Competição

Cooperação

Reducionista

Holístico

Quantidade

Qualidade

Linear

Não-linear

Dominação

Parceria

Uma das coisas que notamos quando examinamos esta tabela é que os valores auto-afirmativos – competição, expansão, dominação – estão geralmente associados ao sexo masculino. De fato, na sociedade patriarcal, eles não apenas são favorecidos como também recebem recompensas e poder político. Essa é uma das razões pelas quais a mudança para um sistema de valores mais equilibrados é tão difícil para a maioria das pessoas, especialmente para os homens.

Toda a questão dos valores é fundamental para a ecologia profunda; é, de fato, sua característica definidora central. Enquanto que o velho paradigma está baseado em valores antropocêntricos (centralizados no ser humano), a ecologia profunda está alicerçada em valores ecocêntricos (centralizados na Terra). É uma visão de mundo que reconhece o valor inerente da vida não-humana.

Chamando a nova visão emergente da realidade de “ecológica” no sentido da ecologia profunda, enfatizamos que a vida se encontra em seu próprio cerne. Este é um ponto importante para a ciência, pois, no velho paradigma, a física foi o modelo e a fonte de metáfora para todas as outras ciências. Hoje, a mudança de paradigma na ciência, em seu nível mais profundo, implica uma mudança da física para as ciências da vida.

Fontes:
Fritjof Capra – As Conexões Ocultas; A Teia da Vida
Thomas Kuhn – A Estrutura das Revoluções Científicas

Telmo Focht, biólogo, com doutorado em espécies exóticas invasoras. Também atua na área de licenciamentos ambientais.

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