DROGAS: um problema meu, teu ou nosso? - por Claudia Simone Dalanholi

DROGAS: um problema meu, teu ou nosso? - por Claudia Simone Dalanholi

O uso de substâncias que produzem efeitos sobre o sistema nervoso central sempre existiu em todas as sociedades e acompanha o ser humano na busca de sensações prazerosas, para atenuar sentimentos de tensão e angústia, além do uso ritualístico em práticas religiosas e festividades.

Nas últimas décadas houve um aumento no consumo não só das substâncias lícitas (álcool e tabaco), mas também das ilícitas (cocaína, crack, ecstasy...) e com experimentação em idades cada vez mais precoces, tornando o uso potencialmente mais danoso física e psiquicamente, com elevadas taxas de comorbidades clínicas e psiquiátricas.

Na atualidade se compreendem melhor os mecanismos de ação das drogas e sabe-se que compartilham um mecanismo biológico comum e ativam o sistema de recompensa cerebral. A demora para iniciar tratamento e a terapêutica inadequada pioram o prognóstico e reforçam a ideia de que esses pacientes têm “difícil recuperação”, pois o uso de SPA (substâncias psicoativas = drogas) pode evoluir para a dependência química, que se define como doença crônica biopsicossocial resultante da interação com substâncias psicoativas que inclui a compulsão repetitiva e intensa de consumo com a finalidade de experimentar efeitos psíquicos e físicos ou evitar o desconforto que sua falta ocasiona.

Cerca de 40% dos leitos hospitalares em enfermarias gerais são ocupados por pacientes com problemas direta ou indiretamente relacionados ao uso de drogas. E, mais de 50% das internações psiquiátricas estão relacionadas ao uso nocivo/abusivo de álcool e drogas.

Possibilidades de tratamento:

• Pacientes motivados em regime aberto:

Ambulatórios de saúde mental e/ou CAPS (Centros de atenção psicossocial); Consultórios públicos e privados; Grupos de Mútua Ajuda; Hospitais – dia;

• Pacientes motivados (ou não) em regime fechado: Hospitais gerais; Hospitais psiquiátricos; Clínicas de tratamento; Comunidades terapêuticas;

• Farmacologia: Dentre os principais objetivos da intervenção farmacológica destacam-se: o auxílio na aquisição da abstinência; controle dos estados de intoxicação; tratamento de comorbidades psiquiátricas; controle sobre a fissura ou “craving”; auxílio na recuperação do controle sobre os impulsos (ou compulsão) , os quais muitas vezes leva o indivíduo a recaí- das frequentes.

As principais dificuldades do tratamento:

As expectativas irreais do paciente, que acredita ser o processo mais fácil do que parece; a manutenção do consumo da droga; as recaídas; e o próprio efeito químico da SPA que provoca intensa fissura (desejo imediato de consumo acompanhado por forte ansiedade), que ocorrem ao longo do primeiro ano de abstinência total. A taxa de recaída é alta, principalmente em pacientes internados, que sentem uma falsa sensação de segurança após um programa de prevenção bem estruturado. A recaída não é um sinal de pouca motivação e não anula os ganhos já conquistados pelo tratamento; faz parte dos altos e baixos do processo terapêutico e da própria vida, não é previsível, nem inevitável, mas os profissionais de saúde ensinam os dependentes a enfrentar os estímulos, detectando as situações de risco (bar, cansado, triste ou nervoso).

A dependência química, por se tratar de uma doença multifatorial, requer ações e intervenções multiprofissionais e apoio familiar. Vemos, além do constante surgimento de novos medicamentos para o tratamento, avanços no entendimento e no manejo, bem como nas condutas terapêuticas com a consequente diminuição de preconceitos e tabus. Enquanto cidadãos, precisamos cobrar ações que incrementem as políticas públicas relativas a este tema, pois o enfrentamento da epidemia das substâncias psicoativas está na prevenção: educação, tratamento e repressão ao tráfico. Sejamos agentes de mudança e evitemos que amanhã um de nossos familiares seja mais uma “vítima” da drogadição.

Psicóloga Claudia Simone Dalanholi, Psicologia clínica - Clínica Médica Jane - SFP Coord. Adm. do Setor de Saúde Mental do Hospital São Fco de Paula

 

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