Pery e sua cartilha de conduta - por Adriano Villa

Pery e sua cartilha de conduta - por Adriano Villa

Caro senhor Pery Cartola, 

Devo concordar com alguns funcionários públicos a respeito de suas normas, além de não ter muito sentido, existem outras coisas muito mais importantes do que ficar reparando no decote de alguma funcionária. O senhor me desculpe, mas, para criar uma lista com tantas coisas, provavelmente passa a maior parte de seu tempo reparando nos funcionários e não na forma que trabalham, mas como se portam.

Tudo bem que alguma ou outra é muito difícil não reparar, ainda mais quando estão com aqueles decotes que chamam nossa atenção, sei também daquelas outras que usam decotes extravagantes que são como suas próprias regras: ridículas, por isso, seria melhor o senhor atentar para o funcionamento do mecanismo das repartições e não para como se vestem.

Olha, nem todos os brasileiros tem sorte de se tornarem funcionários públicos e gozar da estabilidade tão sonhada e merecida por todos. Muito menos de ter uma placa sobre a sua cabeça avisando de maneira nada agradável que desacato a funcionário público é crime. Ou seja, nós, seres mortais ao precisarmos de um serviço público, encontramos funcionários mal-humorados que às vezes forçam um desacato.

Por isso, o senhor bem que poderia incluir em sua cartilha o seguinte item: atender o contribuinte de maneira simpática e da melhor maneira possível, lembrando que são eles que fazem nosso salário pagando seus impostos, por isso, deixe o mal humor na gaveta de casa e seja profissional para atender cada um da maneira que merece.

Isso seria algo muito bom, além de mudar o sistema público, deixaria óbvio para a população o respeito, independente de raça, cor, credo ou situação social. Afinal de contas, todos pagam impostos e aqueles que não pagam, particularmente não acho que devam ser punidos por isso, todos têm direito de não pagarem por algo que não funciona direito.



Senhor Cartola, se realmente quer transformar o mundo público de uma vez por todas, não seja uma pessoa superficial que se preocupa apenas com estética, se a meia combina com a calça e o sapato, se a cor do esmalte da dona Everalda está chamando mais atenção do que o prêmio acumulado da Sena e, quanto ao aperto de mão... (Sério? Até isso?) O senhor não precisa de homens que apertem firmes as mãos um dos outros, as mãos de seus funcionários devem ser fortes em suas atividades e não num cumprimento entre amigos de trabalho.

Quanto as três balançadas... O senhor está se referindo a um aperto de mão ou outra coisa? Pergunto isso por ser coisa de mãe: olha filho, quando você for, de três balançadas bem fortes, viu? Depois você pode guardar tranquilo que não vai vasar na cueca. Gostaria de saber o que o senhor tem contra os homens que tem mania de apertar as mãos um dos outros de maneira delicada e com as pontas dos dedos? Será que o senhor também é homofóbico? Ou será que o senhor curte um daqueles belos, fortes e másculos apertos de mão?

Tudo bem quanto o senhor exigir pontualidade e seriedade no trabalho, mas não poder trocar uma ideia ou rir de alguma situação engraçada é muito proibitivo, até mesmo para os antigos donos de engenhos que xingam a mãe da Princesa Isabel até hoje por ter assinado aquela bendita carta. Outra norma que achei completamente no sense, foi o fato de pedir para aqueles que namorassem entre si, que respeitasse o ambiente de trabalho, que não ficassem tagarelando ou de beijinhos pelos corredores. Sério mesmo? Acha que alguns casais trocariam a comodidade de uma bela cama por um armário de vassouras ou um almoxarifado? 

Já parou para pensar que algumas reivindicações podem ser encaradas como abusivas e preconceituosas? Pois é, mandar em uma determinada quantidade de funcionários é uma coisa, agora, força-los a se vestirem e se comportarem como o senhor acha prudente é outra completamente diferente. Tudo bem, nem todas são absurdas, o lance do crachá é importante, ainda mais para nós contribuintes pegarmos o nome e reclamarmos para um SAC que provavelmente não nos dará nenhuma atenção por estarem de mal humor também.

Adriano Villa 
Escritor, cronista & poeta
Vive em São Paulo

 

 

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