Primavera em Paraty - por Andrea Dórea

Primavera em Paraty - por Andrea Dórea

A carruagem cruzou a esquina lentamente. A voz do condutor bradava informações sobre a cidade para os passageiros que olhavam curiosos o casario do período colonial, enquanto tentavam se manter equilibrados em meio ao sacolejar da carruagem, pelas ruas de Paraty.

Há mais de vinte anos gosto de  me perder pelas ruas estreitas de pedra desta cidade do litoral sul do Rio de Janeiro,  com seus casarões cujas janelas e portas ficam tão próximas da rua, que eventualmente uma esticadinha de pescoço permite adentrar a intimidade de um morador distraído.

Paraty tem um encanto inexplicável, que só quem a conhece pessoalmente pode entender. Logo ao entrar na cidade começa uma viagem no tempo, os olhos se deliciam com a fotogenia do Centro Histórico e os sentidos se aguçam com a efervescência cultural oferecida durante todo o ano, em um calendário diversificado e muito atraente.

Bom mesmo é chegar à cidade pelo mar e avistar a famosa faixa de terra com a Igreja Santa Rita de Cássia, o casario e o cais se aproximando lentamente, enquanto a brisa acaricia a pele.

Os dias de sol convidam a passear de barco pelas ilhas e praias da região, mergulhar nas águas cristalinas de um azul turquesa escandaloso, ou renovar as energias em um banho de cachoeira.

Durante as noites movimentadas, onde quase tudo acontece ali pelas redondezas do Centro Histórico, é possível escolher um dos muitos bares, restaurantes, quiosques e carrocinhas para satisfazer os apetites, desde o mais exigente até o imediatista adepto do fast food. Para quem gosta de programas inusitados fora do Centro Histórico, é só ficar de olho na divulgação que acontece pelas ruas, com dicas interessantes como por exemplo, um churrasco com samba no quintal de uma pitoresca casa na praia da Jabaquara, aberto ao público.

Depois de apreciar uma dose de Gabriela (cachaça local com cravo, canela e acúcar), a dica é sair sem destino pelas ruas da cidade; caminhando devagar porque as pedras fazem cambalear; e fazer uma Via Sacra pelas janelas do Centro Histórico, isso mesmo, as janelas. Algumas delas são bares com ótimos artistas, o que permite apreciar diversos tipos de música de pertinho antes de escolher onde parar.

Para uma esticadinha no final da noite ali por perto do Centro Histórico, é só ficar de olho nos quiosques da praia do Pontal, normalmente tem música ao vivo combinada com o barulho do mar. Com sorte, vai ser noite de lua cheia e haverá um convite para alguma festa incrível com muita música boa.

Eu estava perdida nestes pensamentos, fotografando discretamente, quando ouvi uma voz chamar meu nome em tom de surpresa. Era uma amiga que eu não via há tempos. Paraty tem disso: nos faz reencontrar pessoas de outros lugares. Também sempre faço novos amigos por aqui e posso assegurar, vem muita gente interessante, de várias partes do mundo. O que me trouxe desta vez foi o Festival Internacional de Fotografia Paraty em Foco; que aconteceu em setembro, pouco antes do início da primavera; a cidade foi invadida em todos os recantos possíveis por exposições fotográficas,  atividades e até um Jardim de Fotos, com trabalhos feitos por mulheres.

O final de semana acabou e não fui embora, me chamaram para o Samba da Benção, que acontece toda segunda-feira à noite no Centro Histórico. A alegria do samba, o sorriso contagiante dos músicos, o ar divertido do público e o samba no pé dos dançarinos literalmente abençoaram minha semana.

Decidi ficar por aqui e no final de semana de 06 a 08 de outubro, aconteceu o MIMO Festival. Foi erguido um grande palco na Praça da Matriz para as apresentações da banda As Bahias e a Cozinha Mineira; Liniker e os Caramelows; Baby do Brasil; a africana Oumou Sangaré e a portuguesa Teresa Salgueiro; enquanto aconteciam diálogos, workshops e apresentações com músicos de várias nacionalidades nos diversos espaços culturais e na Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty. O ponto culminante da festa foi a apresentação de Baby do Brasil, na noite de sábado, mas os shows que aconteceram na noite de sexta-feira, com a banda As Bahias e a Cozinha Mineira e Liniker e os Caramelows roubaram a cena, sacudiram a Praça da Matriz, e levaram o público ao delírio.

A noite começou com As Bahias e a Cozinha Mineira, banda criada por duas cantoras trans, Raquel Virgínia e Assucena Assucena, e Rafael Acerbi, instrumentista e arranjador. O grupo se conheceu no curso de História da Universidade de São Paulo alguns anos atrás. Elas  tem influência de grandes cantoras como Gal Costa e Amy Winehouse; já Rafael, como bom mineiro, trouxe para a banda as influências do Clube da Esquina. No palco, o entrosamento da banda, as letras inteligentes, a mistura eclética de boa música brasileira e algumas pegadas de rock, tudo muito bem representado pela performance das vocalistas, prenderam a atenção do princípio ao fim; especialmente porque o grupo apresentava o show de lançamento de seu álbum Bixa.

Liniker fechou a noite de sexta, subiu ao palco e deu seu recado com vigor,  sensibilidade e uma voz forte e intensa, tão intensa quanto as letras de sua autoria. Algo realmente mágico aconteceu naquela noite, assim que Liniker deixou o palco, com o público ainda atordoado pela fúria de sua música, uma forte ventania soprou sobre a cidade, como se a natureza quisesse endossar a força da cantora, que sacudiu a noite como um furacão.

Enquanto os bons ventos da primavera vem soprando por aqui, eu vou ficando. Paraty me abraçou com a cultura, a natureza exuberante, o povo simpático, a brisa do mar, e a Gabriela, é claro.
 
INFORMAÇÕES
Prefeitura Municipal de Paraty
http://pmparaty.rj.gov.br/page/index.aspx

Festival Internacional de Fotografia Paraty em Foco
https://www.pefparatyemfoco.com.br/

MIMO Festival Paraty
https://mimofestival.com/brasil/paraty/
https://mimofestival.com/brasil/revista-de-programacao/

Samba da Benção
https://www.facebook.com/Sambadabencaoparaty/

 

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