Alegria e purpurina em Paraty
Foto: Andrea Dórea

Alegria e purpurina em Paraty

texto e fotos: Andrea Dórea

Pelas ruas da cidade os foliões desfilam sua alegria. Um boneco gigante com a cara engraçada avança em minha direção e do meio de sua barriga sai um grito aterrorizante. Eu grito também.

Na rua paralela o bloco passa colorindo a paisagem e arrastando a multidão. Eu não resisto, engulo em seco o meu medo de multidões e vou atrás da música, o coração disparado e um arrepio que desce pela espinha e se expande pelos braços. Viro criança, misturada na massa que grita de euforia.

Suor e purpurina pelas ruas de Paraty, a alegria é legitima durante os quatro dias de folia, quando o povo esquece a dureza da lida e sai pulando atrás da música. Crianças nas ruas, famílias inteiras, amigos, conhecidos e desconhecidos, não importa, é carnaval. Somos uma massa colorida e cintilante, em fantasias bem humoradas e com a boca escancarada. Carnaval na beira do mar tem gosto de brisa, relax na areia e água do mar para tirar o suor.

Foi no bloco da lama que me deparei com feras e soltei as minhas também. O povo mergulha no mar de lama na ponta da praia da Jabaquara e ali mesmo prepara sua fantasia. Uns usam galhos e folhas como adereços, outros fazem desenhos pelo corpo coberto de lama. O carro desfila em meio a uma fumaça laranja e a multidão sai em marcha bradando um grito de guerra e distribuindo abraços. É impactante, mas quem quer ser abraçado por alguém coberto de lama?

Eu queria uma foto e foi então que notei um grupo de estátuas vivas de lama que gritava, olhando em minha direção. Uma delas se aproxima enquanto preparo o clique, parando perto de mim. Após uma breve hesitação diante do alerta em meu olhar: “não se atreva a me abraçar!”, ganho um abraço de lama com gritos de “uga-uga-ha-ha” e entendo que carnaval é tempo de brincadeiras, deixo a câmera com uma amiga e corro atrás do caminhão de água, que dá banho frio na gente e lava a lama do mangue.

Carnaval em Paraty é sair pelas ruas cantando atrás dos blocos, abraçar os amigos, a roupa grudada no suor do corpo e os pelos arrepiados com a música e a beleza das ruas de pedra. É a cerveja na carrocinha e o sanduba da madrugada. É sair no bairro da Jabaquara seguindo o Bloco do Arrastão e ver que a alegria está disponível para todas as idades, raças, crenças e classes, basta vestir a fantasia do amor e dançar com a multidão.

 

Andrea Dórea é artista plástica, fotógrafa, graduada em Letras Espanhol e Literaturas. Nascida no Rio de Janeiro, viveu em São Paulo, Rio Grande do Sul e atualmente em Paraty, RJ. Desde os anos 90 produz peças artísticas traduzidas em pinturas, desenhos, esculturas e objetos; além de fotografias feitas nas ruas, em grandes eventos ou em apresentações artísticas de dança, música ou teatro. Sua paixão pela literatura a levou a estudar Letras e a produzir textos em forma de contos, crônicas, poemas e relatos. Seu trabalho reflete um interesse profundo pelas questões humanas, as artes e a cultura. A versatilidade da artista lhe permite mesclar técnicas e linguagens, algo recorrente em suas obras.

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