São Luiz do Paraitinga, encantadora e renascida das águas.
Foto: Andéa Dórea

São Luiz do Paraitinga, encantadora e renascida das águas.

Sigo pela estrada sinuosa circundada de montanhas verdes, araucárias, pastos repletos de gado e casinhas pitorescas, com telhados de quatro águas e varandas com muretas para sentar. Saindo de Paraty em direção a São Paulo, meu destino é uma charmosa cidade localizada no Vale do Paraíba, distante 170 Km da capital paulista e 348 Km da capital fluminense.

São Luiz do Paraitinga é uma cidade encantadora que desperta em quem a conhece uma admiração profunda por seu povo simpático e uma vontade de participar das festas populares que agitam o calendário local durante o ano todo.

Caminhar por suas ruas é como passear pelo cenário de algum livro onde a fantasia e a realidade se misturam e deleitar-se com o casario colorido do Centro Histórico, tombado como Patrimônio Cultural Nacional. Eu tive a sorte de chegar durante os preparativos para a Festa do Divino. Bandeirolas, adereços e uma certa euforia tomavam conta do lugar, graças ao evento que envolve manifestações folclóricas como Congada, Moçambique, Folia de Reis e Cavalhada.

Percebo o olhar perdido dos moradores ao relatarem sobre aqueles dias, no principio de 2010, quando as águas invadiram impiedosamente a cidade. Ao que parece, o desastre resultou de uma soma de fatores: um longo período de chuvas fora de época com a consequente cheia dos rios que atravessam a região, entre eles o Rio Paraitinga; além da força da tromba d’água que desceu as montanhas e passou derrubando prédios históricos e casas. Meses depois a população participou da reconstrução da cidade, decidindo cada passo em audiências públicas. O olhar destes mesmos moradores se enche de brilho quando passam a falar sobre a São Luiz de hoje, reconstruída e efervescente de cultura.

São Luiz do Paraitinga tem filhos ilustres, entre eles o médico sanitarista Oswaldo Cruz e o compositor Elpídio dos Santos, autor de trilhas dos filmes de Amácio Mazzaropi e de composições gravadas por Sergio Reis e Renato Teixeira.

Tive o privilégio de conhecer Maria Cinira dos Santos; a Nena, filha do Sr. Elpídio; no casarão da família, uma construção do século XIX onde funciona o Instituto Elpídio dos Santos. Esta família de músicos propaga a cultura da cidade e o legado de seu pai através da banda Paranga, em atividades artísticas dentro e fora do Instituto.

 

Fui recebida pelo jovem diretor de cultura da cidade, Neto Campos, cujo trabalho procura estabelecer um diálogo entre as tradições tão arraigadas na cultura local e os manifestos contemporâneos, pois como ele mesmo diz: “a tradição é importante, mas é necessário olhar para a frente”.

Neto me fala sobre a intensa programação cultural da cidade, que proporciona aos visitantes e moradores festejos tradicionais como a Festa do Divino e a Festa do Saci, além de programas educativos voltados para as artes como o Projeto Guri e o Paraitinga em Cena. Ele diz em tom de brincadeira que a cidade é naturalmente musical graças à posição geográfica, construída em um vale cercado por montanhas, o que faz com que a música reverbere para todos os lados: “a geografia favorece a acústica”. A natureza exuberante da região também oferece atrativos para os adeptos dos esportes radicais, trilhas e passeios ciclísticos, destacando-se o Núcleo Santa Virgínia do Parque Estadual da Serra do Mar.

Um dos pontos altos do calendário de eventos da cidade é o Carnaval. O próprio Neto, também músico e compositor, integra a banda Estrambelhados, que interpreta as marchinhas criadas por autores locais. Durante os dias de festa, grupos como o Bloco do Juca Teles, Bloco do Barbosa e o Bloco da Maricota desfilam alegremente arrastando multidões pelas ruas. São mais de vinte blocos, todos com marchinhas próprias.

Na casa onde nasceu Oswaldo Cruz, hoje funciona um museu que abriga diversas exposições sobre a cultura local e serve de espaço para eventos variados. Ali conheci um importante artista da cidade, Benito Campos, artesão, poeta, oficineiro e contador de histórias. No ateliê do artista me deparei com a beleza criativa de suas esculturas e adereços, ouvi algumas marchinhas e conheci poemas de sua autoria. Este encontro encerrou minha visita com chave de ouro. A sensibilidade e a forma envolvente com que ele declamava os poemas me comoveu e me fez ver que em lugares como este o tempo parece passar de maneira diferente e que conversas filosóficas sobre a vida são mais enriquecedoras que qualquer ambição material, porque estas experiências não tem preço.

Me despeço da encantadora São Luiz do Paraitinga, com as palavras do poeta Benito Campos e seu personagem Caipira Filosófico ecoando em minha mente:

“Aqui a gente tem tempo para ver o tempo”.

 

SERVIÇO

Site oficial da cidade: http://www.saoluizdoparaitinga.sp.gov.br/site/

Grupo Paranga: https://www.facebook.com/GrupoParanga/

Banda Estrambelhados: https://www.bandaestrambelhados.com.br/

 

BIOGRAFIA

Andrea Dórea é artista plástica, fotógrafa, graduada em Letras Espanhol e Literaturas. Nascida no Rio de Janeiro, viveu em São Paulo, Rio Grande do Sul e atualmente em Paraty, RJ. Desde os anos 90 produz peças artísticas traduzidas em pinturas, desenhos, esculturas e objetos; além de fotografias feitas nas ruas, em grandes eventos ou em apresentações artísticas de dança, música ou teatro. Sua paixão pela literatura a levou a estudar Letras e a produzir textos em forma de contos, crônicas, poemas e relatos. Seu trabalho reflete um interesse profundo pelas questões humanas, as artes e a cultura. A versatilidade da artista lhe permite mesclar técnicas e linguagens, algo recorrente em suas obras.

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