Vida pra contar - Mateus Barcelos

Vida pra contar - Mateus Barcelos

Nascia eu depois de trinta e oito semanas inflando a barriga de mamãe... vim ao mundo pequenino... não lembro muito pra contar... sei que nasci... e ninguém mais dormiu. Não lembro bem do exato momento em que comecei a lembrar... mas sei que aconteceu. De repente, me dei por conta que eu era eu. “Ninguém mais me segura”, pensei. “Segura sim”, disse mamãe, chinelo na mão. Aprender a não botar o chinelo trocado, abotoar o casaco, amarrar o sapato, “se limpar”, ler, escrever, respeitar os mais velhos, não falar com a boca cheia, tomar banho,... Nossa! Tanta coisa pra aprender. Bem melhor atirar pedra, jogar bola, brincar de “pega”, de “se escondê”, correr pra lá, correr pra cá, pular, pular, pular. E lá se vão quatro, cinco, seis, sete anos... tão rápido que já nem me lembro. Mamãe lembra bem!

Aos dez, doze, não tenho certeza, tudo eram sonhos, vontades, desejos, viagens... Achava que seria bom demais viver como criança uma vida de adulto. Queria ter carros em miniatura, ter um emprego, como o dos adultos, só que não “sério”, como o deles. Queria ser o responsável por coisas boas que aconteciam com as pessoas... queria ser, e achava que era, realmente especial!
Logo depois, vieram as primeiras crises... paixõezinhas, momentos em que achava que nunca ficaria velho... ser maior de idade parecia tudo, mas nunca chegava, e era só o que interessava... a vida prometia! Só que não era como eu “jurava” que era... um sentimento de “posso tudo” enchia o peito, e quando não podia nada, frustrava. Ah! Como frustrava... Finalmente dezoito! Agora sim, todos aqueles sonhos e devaneios, vontades, desejos, viagens, tudo poderia ser feito. Poderia, não fosse a economia ou a falta dela. Dinheiro não parava na mão. Preciso de ajuda... Cadê Você Deus? Eu preciso fazer tudo isso... só tenho essa vida pra fazer e já tenho dezoito! Vamos lá Deus, me ajuda aí... Você me disse que eu era especial! Ao menos foi o que eu entendi enquanto orava e Você me respondia no pé do ouvido.

Caindo na real... vinte e seis... vinte e poucos... quase vinte e todos. Conhecendo aquela que vai passar o resto da vida comigo... espero... trinta e trinta e dois! Parece que passei direto pelo trinta e um... Trabalho, trabalho, trabalho e ainda não fiz nem a metade do que podia... nem se fala então do que eu queria! E aquela conversa de ser especial?

Pela primeira vez, então, Deus não aparece como Alguém a ser chamado na necessidade... mas como Quem faz de mim alguém especial. Uma menininha na minha vida... todo o resto não importa! Agora sei o que é ser especial... Maressa é o nome dela! Trinta e oito semanas inflando a barriga de mamãe... e ela nasce... pequenina... não lembra muito o que acontece... ninguém mais dorme... ninguém segura ela... “segura sim”, eu penso... mas essa história vou deixar pra ela contar... um dia!
E, tudo que eu queria de especial pra mim... hoje quero pra ela. Obrigado Deus!



Mateus Barcelos 

• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 16 - Agosto de 2014

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