Cores e estações - por Will Nath

Cores e estações - por Will Nath

Ao longe, ecoa o som de uma máquina de cortar gramas qualquer. Ainda é inverno, mas os ares são de primavera. Algumas árvores têm florescido outras seguem secas. Um contraste duro, que visto de longe forma uma beleza ímpar. Cores neutras bailam com tons vermelhos e exalam verde por entre seus pares. Amarelos e rosas ainda tímidos. Tamanha mescla de tons tão distintos e únicos, só pode ser fruto da natureza. Mesma mãe que nos criou. Que traz nela a prova de nossas semelhanças. Temos todos estações, carregamos todos todas as cores. Florescemos sentimentos. Secamos lembranças.

Intrínseco em nosso ser, vivências e experiências seguem no mesmo ritmo. Dentro de cada um as cores dançam, sempre em mudança, sempre em transformação. Ora brilham cores de um verão escaldante; ora o cinza de troncos despidos de qualquer nuance de vida. Ora somos frios como inverno; ora a esperança da primavera vindoura. Cremos saber o tempo exato de cada estação, mas contamos dias, meses e anos, buscamos ao abstrato perfeito da natureza uma forma racional de prever seus verões. Fracassamos. As estações desmerecem calendários. Possuem o seu próprio ciclo, seu próprio equilíbrio.



Plantas florescem e secam como lembranças. Suas cores são intensidades, desde vívidas e quentes a neutras, imóveis, incolores. Invernos tornam plantas pouco vívidas. Cada esforço, cada energia é usada para sobreviver. Temos todos invernos. Frios, incolores, desses que necessitamos de toda energia disponível para o simples ato da sobrevivência. Nesta estação, nossa história adquiri um filtro cinza. Nossos sentimentos parecem ser frios. Cada lembrança que temos nos parece escura, tão gélida quanto a frigidez da própria estação.

A natureza distoa do calendário. Cada dia se faz necessário olhar, sentir, contemplar o que há a nossa volta para então definir com clareza qual a estação em que tudo está. Qual estação em que nós mesmos estamos. Filhos da mãe natureza, somos seu espelho. Possuímos sua forma, sua vida, sua força. Assim como ela, que transgride qualquer ciclo, qualquer rótulo, que dia a dia se adapta, se transforma, nós também podemos nos adaptar, nos reconstruir, reinventar. Nós somos quem ditamos as estações que queremos ser. Que queremos estar. Que queremos viver.

Will Nath
Bem humorado, não dispensa uma boa cerveja e uma roda de amigos. Tem a escrita como forma de meditação. Mochileiro de alma, viaja pelo mundo e pelo pensamento.

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