O teto - por Daísa Rossetto

O teto - por Daísa Rossetto

Quando eu era criança e ficava deitada por horas de barriga pra cima, o teto até poderia ser branco, mas no fundo era como se eu estivesse deitada na grama contemplando a intensidade luminosa de um céu sem fios. Não eram só estrelas, a lua, ou Vênus. Aquele teto branco era qualquer coisa que eu queria ser, que eu almeja sentir, ver de perto, ter por perto: o futuro, a vida adulta, faculdade, livros, música, amores, sonhos, mais sonhos, o mundo disponível, a vida sendo peça de teatro, musical, trilha sonora, cinema ao ar livre, história escrita…

Aquela parede branca acima de mim, mesmo na madrugada, luz apagada e escuridão, não era o alerta da densidade do concreto. Era tela levando para o depois, era o além de um quadro branco. A parede era uma brincadeira que tinha como regra expandir a construção para os outros andares ainda não levantados. O teto, sem detalhes nem cor, era os sonhos não concretos que tive e que, no fundo, possuíam a solidez de degraus encaminhando-me para aqueles que eram verdadeiramente mais próximos de mim.

Porque diante da parede branca, interrogada pela luz e a sombra em concreto eu insistia em responder em silêncio, jamais me esquivando das edificações que viriam, as que nem naqueles momentos eu imaginei que viriam.

Nesta espera do tempo, nesta brincadeira de fazer e de inventar o tempo, eu era parte da luz projetada pelos carros que passavam pela rua, eu era a luz do poste e o desenho das árvores andando entre teto e parede.



No instante do agora, outra vez o teto é tela. Entre ranhuras e rachaduras, desenho marcado em flores brancas, duras e densas, entre a referência grega, o teto faz alusões. Com ar aristocrático, é esse teto rebaixado, completamente feito de detalhes e talhes, que me leva para um salão de baile, roupas de época, máscaras, ostentações majestosas.

E após a moldura do espetaculoso teto vem o azul celeste das paredes, silenciosamente posto para não perturbar a magnitude do branco que se faz na altura dos céus, em flores, formas clássicas. E a luz amarela que o lustre moderno emite no centro do universo transforma tudo em ouro, luz de ouro.

Quando eu era criança eu sonhava olhando para o texto, atravessando-o, fazendo dissipar o concreto como nuvem leve. Crescida, avanço dissipando o cimento das paredes, transformando tetos, telhados e mundos. Eu posso dissipar o concreto armado…

Na infância o teto era simplesmente branco e me levava para outro lugar, eu o vencia, atravessando-o. No presente impublicável, na real presença do tempo o teto é pretensioso, majestoso em seus detalhes. Mas eu permanentemente insisto em atravessar este também. E depois deste os dos andares superiores.

O teto é só tela, é só nuvem prestes a se dissipar, prestes a levar para outro lugar.

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

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