Ao Redor - por Daísa Rossetto

Ao Redor - por Daísa Rossetto

Outra vez, como ontem, nada faz sentido, tudo não faz.

Eu quero parir um mundo novo (desconhecida da falta de aptidão para a maternidade): Que nada mais se prenda as minhas entranhas, além de um único sentido de existência. Nada além, nada além do que já está.

Já está.

Atenta: apenas ontem, se fosse-me possível ser deusa, eu aceitaria dar à luz a um mundo novo, sem castas ou casas de concreto ou cercas construídas de vidros de garrafas. Existiria unicamente a mais pura singularidade de cada lado de um oceano. E eu nutriria este filho com meu próprio corpo cortado por contos indefinidos. Mas isso foi ontem, quando esqueci que era deusa, quando fingi o desejo de ter preso em mim a inocência vida, a doçura mundo.

Hoje acordei sabendo das minhas repulsas, de estar coabitada pelo vômito doce que não volta… Não volta, o avião volta e vai… Eu vou.

Eu vou indo neste excesso de reticências, exclamações, choro e gozo dolorido. Eu vou, depois de tantos táxis batendo a porta e partindo com o bagageiro carregados de memórias e saudades nascendo.

É chegada a minha vez, mesmo sabendo… Mesmo sabendo que por pouco tempo: É teste de resistência, treinamento militar, é realidade irreal, é olhar para trás e deixar o rosto secar ao sol, é pôr do sol. Eu sou um vento que vai em direção oposta, sentido múltiplo, transposta a épocas, o movimento do pincel de Van Gogh.

Engole o choro que se derrama com o toque suave do avião em solo. A terra que me pariu me manda para longe, lugar que não existe. Eu invento, fingindo seguir os mecanismos de pesquisa empírica.



Outra vez, mesmo sabendo que por pouco tempo, eu parto batendo a porta do táxi, constatando estar ali as malas carregadas de coisas que não sei o que são, nada disso é meu. Nada é meu, eu não tenho nada, eu não quero ter, eu quero ser nada.

Decido num instante que vou ficar por ali, em partes me divido, traduzida: pelas ruas, pelos restos dos cantos, dos copos e da serenata da noite anterior. Eu fico, entre as paredes frias que me apertam e eu fico entre o sol denso e a proximidade da África. Eu fico entre a possibilidade de paixão e um desconhecido, eu fico entre um discurso fora da teoria, particularidade de uma vida. Eu fico aos pedaços, aos desenhos das ruas, eu fico entre mundos, entre sotaques, entre braços…

Ao meu redor, personagens. Feitos de realidade, tijolos empilhados. Estou sozinha diante do vômito decifrável da comida, personagem das angústias fingidas de delicadeza leve.

Eu fico e vou…

Eu fico entre todo o rastro do mundo em que sou desconhecida em mim:

Rompa minhas formas, minha cor.

Rompa e rasga as curvas do meu cabelo, a estranheza dos meus olhos dissimétricos.

Rasga a camisa de botão, os rosas todos, os saltos. Eu uso tênis all star.

Me desfaça, me desconheça, me rasga e me veja para além desta forma: métrica, contagem silábica, matemática, concreta… Me olha como licença, poética… Apenas um signo poético, astros desconhecidos, sem órbita.

Me desconheço, é tudo. O que quero ser: Umas palavras pintadas em papel, num quarto escuro. Um vento sem face, dançando. A chuva sem corpo, cantando… Eis tudo o nada que me cabe, que me inventa, ser…

Isso é tudo para aqui e para além.

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

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