A janela da existência - por Daísa Rossetto

A janela da existência - por Daísa Rossetto

Não escrevo, logo, (des)existo.

Desisto.

Então me perco entre o cantar do feijão na panela de longas horas e o ritmo compassado da cebola cortada aos cubos.

E vou evaporando num chimarrão repetido em vezes sem fim, chupo da erva lavada com a consciência esquecida de onde (dever) estar – uma escritura interminável.

Inconsciente, em coma, tomo-me frente à janela da existência: A vida corre, a poesia cresce, ninguém percebe. E nos telhados o gato anda e dorme e senta-se de frente, temente a lua, deusa da noite dos gatos dos telhados, do cachorro que uiva o cio.  A existência soa sorrateiramente na madrugada quando à cidade dorme e eu sonâmbula - sem gênero, face ou formas - em frente à janela, ligo uma televisão sem fios ou botões, num puxar de cortinas presas com prendedor de roupa. É o que me detém numa programação não programada.

A janela é porta (para certo mundo), a novela que roda na tela é feita sem roteiro. Atores e autores desconhecidos. Sou eu que faço à narrativa, relendo a história vou para depois da linha do horizonte, fim do asfalto. E depois do gato em cima do telhado, por de sol sem sol, as nuvens dançam tortas em direções opostas.

Volto sopro nostálgico, janela indiferente à brutalidade da parede, a casa descuidada em uma cidadezinha desconhecida no mapa nacional, num fim de mundo que eu gosto de estar.

Na dúvida existência do mundo, no resto dos dias, na linha final, num infinito horizonte que só o ninguém vê, estou – lá estou - submergindo o desfalecimento, o fim do coma, a sobrevida. Um desenho de letra acode, como janela que se abre em sol de semanas de chuvas corridas a fio, linha de papel…



A janela…

E então, sem desenho de letras amontoadas tortas na escrita errada, - eu não conheço o idioma - (outra vez então) não existo.

Desistência parcial.

Mas prestando atenção: é a janela entre os sons de pratos, talheres e panelas, o horizonte de carros indo e vindo num movimento idêntico ao das árvores do canteiro central. São os telhados dos gatos e os ônibus e as pessoas sob guarda-chuvas e o canto da chuva no vidro da janela. E a janela desenhada em cores de céu. E a janela inventando um acúmulo qualquer de palavras quando eu des(existia), desistida em mim. Um sopro que corre por dentro, poética para fora da moldura. Insiste, como criança puxando a manga da blusa da mãe.

A janela me assenta de frente a vida, é socorro pronto em noites de sono finito.

Na janela o horizonte, daqui o aceite para estar perdida em voltas no mundo, para deixar-se calada, desentendida entre as rodas de vozes desencontradas.

Eu volto a ser através da janela que fantasia em mim qualquer coisa sobre ser.

Eu existo numa qualquer coisa que não é coisa que cobra palavra sobre palavra, não concretas, não pedras. Singularmente soltas num vento imperceptível aos olhos.

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

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