Por mais terras que percorra - por Rosana Martins

Por mais terras que percorra - por Rosana Martins

Aos setenta anos de idade ele chorava. Sentado, na sala, em frente a TV. Era oito de maio, dia da vitória. Seus companheiros de guerra desfilavam pela tela. Boinas azuis, braçadeiras com a cobra fumando, orgulho no peito, ao som da canção do expediciório “... por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra…”.

Ele não morreu. Com seus vinte e dois anos, voltou para o Brasil, para o seio da família. Seu pai estava na roça quando o avistou ainda longe, todo fardado, na estrada de chão. “Meu filho, por que tu fez isso?”, disse o homem chorando, com alívio. Suas mãos, no alto da cabeça, pareciam agradecer aos céus. O filho havia se alistado voluntariamente na Força Expedicionária Brasileira, contra sua vontade. Homem rude do campo, não entendia outra lida senão aquela. Plantar para ter o que comer. Que coisa louca era aquela de se meter numa guerra. Nunca entendeu seu filho.

O menino sempre foi sonhador, visionário. Definitivamente, não havia nascido para aquela vida. Enxada, calos na mão, suor no corpo... dificuldades. Tudo isso estava fora de seu propósito. Desde pequeno fugia disso. Enquanto os irmãos acompanhavam o pai no trabalho com a terra, ele se escamoteava. Acompanhava a avó, sua “Dindinha”, benzedeira da região, que saía a curar o povo do lugar, tão ermo.  Sabia escrever, então auxiliava nas andanças da velhinha. Anotando receitas para o tratamento dos enfermos.

Seu pai o chamava de vadio. Não entendia a ambição do menino, com aquele pensamento.  Acreditava  que a vida lhe reservava mais. Tinha facilidade na aprendizagem de qualquer outro ofício. Concertava penicos, panelas, fazia sapatos...até de alfaiate se virou. Sempre se virou. Sua expectativa era as cidades grandes, as novidades, as tecnologias sempre em avanço. Muitas terras o separavam disso tudo.

Na casa grande da fazenda, onde a família era agregada, fez amizade com o patrão. Sentava nos finais de tarde com o velho senhor para ouvir o rádio. Uma novidade que o encantava. De lá ele ouvia, mais que isso, enxergava o mundo que queria para ele. Escutando as notícias do Repórter Esso, as belas vozes das cantoras do rádio. Entendia o que se passava na capital, no país, no mundo. O rádio e o velho senhor bem sucedido eram seus elos com tudo que sonhava.

E foi pelo rádio que soube da convocação de voluntários para ir ao outro lado do oceano defender a pátria. Era a sua oportunidade. O jeito de lançar-se ao voo. Tornou-se soldado da FEB. Combateu na Itália, terra que se apaixonou. Nos lugarejos de Monte Castelo, logo aprendeu a parlar a língua estrangeira. O povo local recebia amavelmente aqueles bambinos. Valentes bambinos. Meses se passaram, quase um ano. Quanta terra já havia percorrido na vida até ali.

A guerra terminou.  O soldado voluntário fez seu pé de meia. Economizou o dinheiro que ganhou se arriscando em meio a bombas e tiroteios. No lugarejo onde viviam os pais, montou negócio. Fez curso de radiotécnico. Consertou muitos rádios até chegarem os aparelhos de TV. Nessas estradas trilhadas por ele, já era comerciante. Reconhecido comerciante. Além de consertar, já vendia modernos aparelhos de rádio, e a maior das novidades: a TV. Levou uma para casa. A vizinhança reunia-se em sua casa para assistir aquele espetáculo.

 Agora era ele o senhor. Tinha orgulho de si mesmo.  Negou-se a enxada, por mais terras que tivesse há percorrer. 




 • Publicado na Revista Usina da Cultura - número 14 - Junho de 2014

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