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Eu seria feliz... Por Daísa Rossetto stars

Fechei a janela quando resolvi contar sobre tudo aquilo que me deixa feliz quando estou aqui ou lá, das escolhas mais fáceis, das manhãs, daquelas tardes...

Num fim de manhã de julho em chuvisco eu cheguei em casa deixando os papéis sobre a mesa – o lugar onde tudo fica largado como seguro - tirando casaco, desenrolando o cachecol do pescoço, empurrando a bota para fora do pé. Tudo parecia certo e toda eu parecia feliz na euforia dos encontros de rua, nas complicações resolvidas, nas conversas sobre o tempo e as próximas eleições. Exatamente ali entre buracos burocráticos a serem tapados no banco, no cartório, no supermercado, no advogado, e no... no... nos compromissos impensados do dia a dia. 

O ponteiro prestes a se transformar nas exatas 12 horas - meio dia -, a comida quase – aquela manhã passou bem rápido. Belisquei um meio punhado de amendoim torrado nas primeiras horas do sol que aparecia desaparecido em nuvens densas e foi quase a tomar nas mãos um chimarrão bem verde com gosto de chá doce misturado a erva que perdi os olhos sobre a mesa quando a atenção interrogativa de mim era chamada para provar o feijão, para pedir se o boleto tinha entrado, para pegar a xícara e encher com o resto de café do bule. Já falei sobre instantes atordoados? É porque foi ali de olhos esparramados no vidro da mesa, da cozinha, da casa, de julho, num dia que chovia fino, que no meu ouvido a palavra sem forma dizia: seria feliz mas não seria. 

É, eu sei, eu seria feliz morando numa cidade no interior do Brasil, num lugar onde todos me chamam pelo nome e dizem boa tarde. Eu seria feliz...

Eu seria feliz acordando sempre as 7:30 e indo deitar as 23:30, sem acordar com o sono extraviado na madrugada para olhar as horas, sem espreitar da janela e nem para brincar com os latidos vindos do outro lado da rua.

Sim eu seria feliz, dando bom dia já cedo, indo abrir o portão de vidro, a porta de entrada, empurrando a cortina e deixando a manhã espreitar pela janela da cozinha. Seria feliz mas não seria.

Eu seria feliz no trabalho repetido em oito horas diárias e ganhando o valor fixo em data certa ao fim do mês. Seria feliz tendo o dinheiro sempre no bolso e no banco poupança, sobrando para comprar mais de cem livros por ano e ir ao cinema toda a semana.

Eu seria feliz com desenho de casa e a escolha da paleta de cores, um pátio grande para plantar um ipê amarelo, a decoração artesanal feita nas mãos com tinta e moldura, trocar a estante por uma maior para os livros comprados no ano anterior, fazer o jantar para as visitas no final de semana com cardápio 100% vegetariano, abrir um vinho todo sábado à noite...

E seria feliz fazendo brincos e pães e dando muda de plantas que foram semeadas anos atrás...

É, até seria feliz com casamento marcado, lua de mel na praia, viagens com passagem de volta comprada, um quarto preparado na espera de um filho futuro.

Eu seria feliz vivendo um amor só, mas...

Eu seria bem feliz vendo as crianças nascendo, buscando os sobrinhos na natação, fazendo-lhes os enfeites de aniversário e as festas na escola e um bolo de chocolate sem coco ralado. Eu seria feliz vendo as crianças crescerem ditando o alfabeto enquanto fazem cocô sentadas no sanitário da casa da vó.

Eu seria feliz, no outro lado do mar, na companha de pai, sendo abraçada com feliz aniversário no dia 31 já cedo da manhã. Reunindo toda família na noite de Natal e os amigos no início do próximo ano.

Eu seria feliz não tendo tempo de ler mais de um livro por mês. E poderia achar feliz pendurar nas paredes brancas os títulos concedidos por estranhos depois de tanto desespero, frustração e drama.

Seria feliz se não tivesse que dizer adeus, se não precisasse passar nas casas me despedindo, dizendo que volto no ano que vem, que o tempo passou rápido, que é difícil mas é a vida, não é?

Seria feliz se não aspirasse abraçar o mundo e andar por todos os lugares abrindo risos em bocas alheias, se não quisesse me lançar por outros idiomas que desconheço, se não quisesse tocar o desconhecido...

Eu seria feliz se não houvessem os minutos em que puxo sozinha a mala, em que olho para trás, abano os dedos tortos e faço um coração no desenho das mãos. Eu seria feliz se não sentisse a bola que pesa na garganta. E sendo assim, seria feliz se não chorasse em soluços no banheiro do aeroporto num domingo nublado enquanto espero pelo voo, se não houvesse a mala para arrumar, desarrumar e voltar a arrumar e a desarrumar... Eu seria feliz sem dizer adeus.

Eu seria feliz se os medos me embalassem acomodando-me num cotidiano aceito em felicidades alheias, que eu as tomasse como minhas e as reproduzisse. Mas esse medo é tão dono de si que me empurra para longe, me nega o direito pobre de tomar-me em vida alheia tornando-me.

Porque, falando sério, eu seria feliz se parasse, agora, nesta linha, de escrever e deixasse para lá essa bobagem de viver o sonho, o próprio mundo, a mais pura e cristalina verdade (de ser)...

Porque sim, eu seria feliz se não entendesse o que é a existência (tão) rara que acabei por conhecer.

É verdade, eu admito, eu assim seria bastante feliz, mas não seria eu.

O primeiro cigarro - Por Daísa Rossetto stars

Naquela manhã fumou seu primeiro cigarro. 

Disfarçada observou prazerosa a desenvoltura com a qual a amiga enrolava papel, tabaco e filtro entre os dedos. Lambendo as pontas fazia os arremates finais, um embrulho de artifícios pintando as unhas.

Na cidade desacordada era ainda cedo para pensar na saúde dos pulmões, nos índices nacionais, nas notícias dos telejornais, no relato do vizinho. Salivou pedindo um trago. A amiga curvou as sobrancelhas estranhando a curiosa atitude imprevisível. Mas deliberada esticou o braço alcançando-o pinçado.

Tomou entre os dedos trêmulos tontos o embrulho marrom como papel pardo fino. Desajeitada tentou errada endireita-los para reproduzir cena de filme. Segurou insegura a matéria que logo se fragmentaria em cinza.

Como a manhã era ainda fria a ponta titubeando foi pega contra o vento que a apagou. O cheiro do tabaco se desfez logo num realce de tempo em que lançou os olhos a amiga que de pronto buscou o isqueiro e riscou adiante. E um fogo de vela alcançou a ponta que voltava a queimar sem fazer som de brasa. 

Então de cotovelo repousado sobre a mesa ao lado da xícara suja aos restos do café bebido em um gole solitário e a cena recomeçou. Não pensou e antes que a amiga pudesse instruir-lhe o ar. Tragou.

Tossiu de leve e direto, faltou tempo para uma palavra qualquer. Marejaram incorrigíveis os olhos iluminados de lágrimas salgadas. Receou pela maquiagem desenhada nas pálpebras quando como um pranto queixoso denunciou a posse primogênita prematura que levava aos lábios. O primeiro cigarro fumado as margens de uma manhã de sábado. 

Tragou. Outra vez. E outro trago a mais entrando aos tubos escarlates do seu ser. Outra vez o vento apagou. E outra vez a amiga o reacendeu. E outra vez ela tragou como uma adolescente inconsistente. Inocente criança pedindo vida ao sol que ia e vinha incerto sobre a tarde do futuro.

E outra vez outra vez tragou e não possuiu o controle das voltas de cordas que descansavam no pescoço. Fechou os olhos e acompanhou a fumaça que corria em desenhos abstratos na periferia de seu corpo contaminando com o gosto as células. E o paladar da língua borbulhada na volição que batia contra os dentes manchados de café.

O descrito instante de tempo: tragar o ar fumaça de neblina matinal fluida e de olhos fechados ver a resenha conclusiva do ato ação da primeira vez que soprou pra dentro o tabaco de ocasião.

  Naquela manhã fumou o primeiro cigarro em tragadas tossidas, quando o pulso gelado levava o ar viciado de fábrica enquanto pensava nas penas dos frangos (assim a indústria os chamam) que eram incineradas e dadas ao mundo fumar nas beiras da maior cidade da região oeste. O fôlego pacífico contorcido a porta do bar as cinco da madrugada.

Abra os olhos amiga! Então, o que achou? Gostou?  

 

02/06/2018 

O corpo decepado - Por Daísa Rossetto stars

Alguém bate à porta da consciência.

Não é alguém... Não sei se é algo.

Rejeitei o corpo. Foram decepando-me membro por membro. Fui grata.

Eu pedi para que me excluíssem da matéria. Até restar unicamente a essência. E ali (re)existir tudo, ser tudo, perdurar às masmorras do tempo, dos tempos, das épocas da guerra.

Um corpo decepado, feito em partes espalhadas por praças, exposto em caixas de vidro de museus. Um resto de carne decomposto, revirado à terra mansa com gosto de planta. De mato.

Um gosto de mato.

Fora do corpo não há dimensões suficientes que impeçam de ser. Desfragmentada das partes sangrentas, restou denso um sol inconsistente rompedor da parede de concreto. Janelas de vidro ao horizonte... Então lavaram as partes enganadas em cheiros. Levaram os pedaços. E o que ficou foi um todo de resto existencial, substancialmente existencial...

Ficou essa tal essência de gotas poucas correndo sem margens entre pescoço e roupa. Que, ao toque numerado do conta-gotas escreve entre o desconhecido sentido de corpos quentes, em luzes que se apagam a meia-noite, depois do cheiro de mofo ardente e chuvisco.

Levaram para as fronteiras do corpo para ser livre a tal curva subtraída de matéria... Esse quê de letra que foge ao toque da mão que escreve corrente como água que não cabe nas mãos fechadas de sangue e carne dos dias contados.

Não aprendi nada de vida (ainda). Silenciei a hipócrita vista admitida em frente a um balcão de cozinha. Escondi em avessas vestimentas de época um corpo em forma, cor, pelos e brancas cicatrizes, olheiras e unhas cortadas rentes à pele que sangra. Sangra excessos fingidos...

É vivo – vivo mesmo - quando o corpo para e já não restam linhas divisórias, nem documentos comprovatórios. Os pés sem peso correm sem perceber as fronteiras. As mãos almejam toda a palavra feita da matéria que o tempo não corrói. Não é corpo que apodrece.

E existir é depois. Existir é um papel branco desenhado em pontos negros indiferente a forma molhada do risco. Um resto pequeno que sobra do depois do corpo feito de margem e limite.

E sem a justificativa que caiba num porquê eu uni as pontas dos meus dedos da mão direita, assoprei meu vento e estiquei meu braço em direção ao sopro de mundo. E abrindo a mão deixei-me ir...

11/01/2018

Eu Van Gogh de orelhas decepadas stars

Sinto-me um Van Gogh de orelhas decepadas pelos ruídos de cobranças que chegam com juros.

Eles empurram garganta abaixo - como um pato de indústria de patê – o mundo que eu deveria ver. Eu não vejo.

E o dinheiro é sujo e eu sou podre.

E nesse tal mundo onde vivi pintando riscos ao ar livre nenhuma arte é vendida. Se morre infeliz, porque - seja racional - nestas bandas a realidade sabe ser cruel e sabe como cobrar.

Sabe cobrar a própria existência.

Então, como Van Gogh eu poderia distribuir as minhas partes entre caixas concretas que não suportam minha ideia viajante sem moedas em bolsos de pano. Morro pobre apenas nos bolsos. Apenas nos bolsos.

E depois?

Depois alguém estampa numa parede de iluminação em projeção especial não a pintura da alma livre, desenho do próprio mundo, infinito particular de mãos correndo soltas, não. São quantias demasiadas representadas em poucas cores na tela. São tantas mais que milhões de pães roubados... Do mundo. Do mundo que me pariu... E nas calçadas migalhas contadas.

E quem abriu mão de papéis coloridos na carteira agora é visto pelos ricos de carteiras cheias.

Prepotente que não anseio ser – mas a realidade ensina. Fora de mim, sem arte nem cor, vou dizer que sou um Van Gogh de orelhas decepadas prestes a correr do precipício ao manicômio.

Eles obrigam-me a abrir os olhos ao mundo que cobra mensalidade para sonhar.

E eu então em pés descalços por aí, rodo em quatro paredes de desenho em nuvens.

No topo das nuvens as orelhas estão intactas.

Não Sinto - por Daísa Rossetto stars

O corpo para de dar sinais. Não reage. Silencia cansado.

Emoção sumiu. Insisto em riscar uma linha e por cima dela trançar o traço. Acabo num ponto sem frase.

O corpo não dá indícios de si. Não sente frio, fome, calor ou felicidade ao descobrir os olhos num pássaro raro em manhã de chuva lenta.

Ninguém ainda voltou... A porta se partiu.  Não há quem consiga abrir aos empurrões de fome. Mas eu não sinto fome. Tenho sede de água fresca de rio doce.

Ninguém voltou: Não tranquei a porta. Não fechei os livros. Não acendi a luz.

Sente-se aqui. Porque não sinto o anseio do novo dia, o aconchego da noite entre cobertores. O gosto do sal. O banho aos cubos de gelo em manhã ainda madrugada.

Instante: Poria em leilão tudo a perder. Quem dá mais para sentir? A chuva...

Em casa de penhores eu coloco na mesa todo nada que tenho sentido e lanço a sorte por moedas que não mostram face.

Vendi sem ter lucro.

Foi necessário menos dias que cabem em uma semana para estar diante do resultado do cálculo que não resultou. Não sinto nada. Nada tenho para sentir. Agarro-me a falta. 

As mãos caídas sobre letras desencontradas tentam em desespero colar os fragmentos do sentido desfalecido.

Não tenho sono há muito tempo, durmo para fugir. E correr em busca de uma – uma - frase submersa em madrugada.

Eu vejo lá longe, sob a luz, as lombas grossas do passado. 

Até aqui pode ser um jogo de palavras sem poder. Mas delas sou minha. E sentir elas sabem. Delas, posso aprender...

Palavras são tudo o que preciso ter...

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

Para escrever... agora... Por Daísa Rossetto

Fale-me de literatura quando o feriado acabar. Entregue-me em Lisboa antes que o dia termine. Deixe a casa por desmoronar.  Deixe estar quem espera se desmanchar em amargas saudações passadas.
Deixe tudo como está. Repara bem onde está...
Demora, na biblioteca vazia... E demora no espirro que não sai.
Demora...
Demora...
Demora o prazo que não está para respeitar. Entrega a tua – tua – palavra como está. Como é ela para estar. (Eu quero dizer tua)
E então deixa a música tocar apenas... Unicamente nos ouvidos vermelhos de frio. O inverno começou sem ninguém avisar.
E a música continua... a tocar.
E de repente, toca o silêncio da sala o livro batendo na mesa e meus dedos apressados dedilhando teclas. A letra que escrevo. E depois o sino marcando hora cheia: 10:00.
Dizem que na próxima semana será outro ano. E há os que vestem branco.
E haverá talvez um novo livro, um nome errado. E um anseio latente de ser vento no mundo... No mundo...
Depois já é outro ano, outro livro, outra palavra riscando o silêncio da sala quase vazia. E o sol aparecido depois da madrugada em chuva e uma tal amargura por não deixar descansar os anos acumulados nas costas, um girar de cabeça que não descobre a verdadeira história. Um tempo fora das horas que se esgota sem uso, um tal tempo perdido de um livro que não foi lido até o fim. Então a demora é pressa. E a vida está presa num porão abandonado. E o amanhã não chega, demora e o ontem não tem permissão para voltar.  
Então eu me demoro. Neste tal do agora, na palavra agora, nas letras do agora. Numa versão errada do agora...
Escrevo pois não sei se o amanhã se demora, e eu não quero esparramar do meu tempo nesse palco de tribunal que martela sobre passado que poderia ter sido e futuro acumulado em banco e em dias sem uso. Eu não tenho pressa, já não...
Repara bem outra vez. Presta atenção no que digo: Agora. Em letra. Vou escrever... Agora...

27/12/2017

10 Anos e Uma Morte

Já não tenho sono, na madruga desperto. Uma frase solta se agarra a mim num pedido de que dela eu diga. Egoísta que só sabe ser.

Eu me preparo como rei em frente à espelho de ouro para frases em pedaços de anos. O dia exato em que lhe escrevo. Precisei de 10 anos para dizer da morte prematura que chegou sem respeito aos meus recém feitos 17 anos.

E o que de tudo eu poderia dizer, deveria dizer, merecia dizer, quero fazer sem ranhuras, mágoas ou tentativa de ferir meus pulsos. Quero dizer desdizendo, sem amargo gosto de nada na boca, sem lamentosos impulsos ou dramas novelescos, sem depressões de remédios, sem inquietações do que a vida teria feito por mim se aquele sábado corresse provável ao cotidiano.

Plena serenidade da manhã de sol o registro que datilografo em cela sem grade. Corro dedos de silêncio: Eles estavam enganados. Eles. Estavam todos eles enganados ao professar o falso futuro: Logo esquece, vida que segue.

Logo... Logo esquece... Logo são todos os outros de todos os tantos dias que vem e vieram. Logo, tantos deles agora se engasgam. Minha garganta. Passaram-se 10 anos e logo a vida seguiu. 

Estavam todos enganados ao dizer que haveria de esquecer aquilo que fez de mim outra por todos os outros dias de 10 anos que correram às margens do rio.

Interrogo a afirmação contra parede sem vingança aparente, sem dores latentes. Mas no mas sem mas, de fato as marcas - e digo marcas porque falar em cicatriz seria infamar os desenhos feitos – continuam acesas como luzes de um dia, a manhã de sábado quente. Eu sou a dor que curei em noites silenciosamente solitárias, quando debruçada à tarefa de recortar a voz pousada em meus ouvidos de memória. É de memória que reconstituo os olhos imateriais que pousavam no meu sono. Meia noites em inícios da semanas de glórias.

Dedico minha palavra, há de saber desde aquele tão próximo início de década.

10 anos se passaram. E eu não me importo com aqueles de discursos aos quais me arremessaram sem respeito.

10 anos. Restou eu e restou você ainda jovem, ainda em bermuda xadrez e camisa de time. Ainda ficou firme a certeza do que somos agora.

10 anos correram e eu ainda não entendo, lenta que sou, como pode ser 10 anos o tempo tão recente, tão presente. Tão proeminente constante para mil vezes 10 anos que virão. Dali e adiante.

Sem revirar memórias – vou fazê-lo em segredo quando o texto ser ponto em ponto de fim sem fim – há anos celebro em silêncio datas: nascimento e morte. Já não é sempre que choro, já não é sempre que lembram que eu também existi. Já são tênues as cores que me vestiram aos pedaços. Sozinha passei a me pôr em vestes. E por agora não choro o pranto. 10 anos ou uma década. Um marco de tempo. A morte que não morre. A vida diluída confundida ao ar.

10 anos passaram como aros de bicicleta entre as corredores cortando o trigo. Eu aqui, sobrevivi. Viva, ando destecendo a tela pintada por quem não conhece meu desenho do mundo. Daqui eu sigo, como um vento que leva as formas já desfeitas. De mundo. Eu ando, ando e ando sem rasgar as velhas máximas perguntas postas em senso. Eu ando sabendo que depois de tantos anos o tempo de qualquer coisa ainda me reconhece.

Temporalidade: quem define? 

Por hora de segundos escuto o silêncio sem fala. Uma palavra sem parada. Leve sensação de tempo parado: O que restou sem ser sobra, o que ficou (im)permanente no permanente é o que verdadeiramente fui no exato momento. Cravado de pedra. O instante pedra inalterado no que se altera logo depois de ser infinitivo.

Tocamos o infinito: instante preciso. O tempo do risco da luz não ser luz... Anos... Depois se apagou...

Precisei fazer empréstimo ao tempo, 10 anos de conta sem dívidas. 10 anos para conhecer a graça dos momentos que fomos, um diante do outro. O melhor que poderíamos ser e fomos.

Te amo, sem dizer que gosto da palavra amor. Já não gosto. Mas hoje, em olhos triste que possuo como constituição pura do que sou e sem lastimável a forma visual, também sou eu esse momento regido na face transbordada ao espelho. Esse pedaço do tempo esparramando há já 10 anos, um retorno em vestes de palavras que me ensinaram a escrever.

Foram 10 anos necessário para escrever, ainda prematura, meu medo perdido da morte. Uma década para o reconhecimento, 10 anos que se multiplicam ao que vem. Sem lamento, sem drogas ou pranto recolhido. Há 10 anos tenho a ideia da imprecisão do tempo: 10 dias, 10 horas, 10 segundos, 10 mil anos, 10 semanas.

Uma década foi o fim da tarde de ontem. Eu sei. E me repito. E até mesmo para a morte uma década precisa ser celebrada.

Na relatividade não científica do tempo o que contou o registro foram as frações dele – momento – onde fui e fomos o melhor que dava pra ser. O melhor que poderia ser.

Um acúmulo de momentos vividos indiferentes ao desconhecido futuro, animais que somos. O momento no plural. O momento que nos levou ao infinito.

Dizem que ser notado é existir. E eu não quero ser notada... Visito cada instante que tantas décadas não apagam.

Você existe, eu noto...

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

Rasga - por Daísa Rosetto

Sobrou um pedaço de silêncio em fins de noite. É domingo quieto entre músicas de bar. É pouco o que tenho.
Oscilo como vento que muda conforme muda a intensidade da maré.
Estou cansada. Então escrevo e vou escorrendo. Chuva na janela. Manhã cinza...
Anseio por dizer. Não digo. Silêncio.
Quero gritar. Não grito. O tom baixa. Cada vez mais...
Quero ser. Não sou. Não sei...
Quero escrever. Como um escritor. Que não perde o fio da história. Mas história eu não escrevo. E escritora não sou. Escrevo.
Não encontro a música. Nem o filme. Nem livro encorajo-me a abrir sem cogitar deixar estar de lado.
Não há obrigações, nem direções.
Silêncio.
Luz de olhos. Sem câmera. Sem ação.
Não posso falar. O que se escreve hoje em tela de computar é um baboseira só. Deixa pra lá.
Eu não posso.
Eu quero rasgar. E queimar. E jogar pela janela em dia de chuva. E então me desfazer na rua. E escorrendo correr ladeira abaixo. Ser perdida. Rolar entre as pedras. E por elas penetrar.
Um segundo. Eu me transformei no caos.

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

On the road… - por Daísa Rossetto

Presta atenção! Do lado de fora são os barulhos de carros freando desatentos e buzinas acordando os distraídos, polícia girando sirenes que dão medo. Do lado de fora tem a notícia da política todos os dias, bolsa cai, bolsa sobe. Cinco dias por semana o mesmo trajeto, o mesmo horário o mesmo cardápio pontualmente posto.

É do lado de dentro que o filme é feito, com cortes, tomadas e foco. Sem horário marcado para terminar e fechar a sala de exibição. Não aqui…

Na maioria das vezes, a caminhada pelas ruas da cidade durante o início do sol da manhã acontece sem a música perfeita, baixo e violino, sem jeans descolado, óculos escuros moda retrô.

A fotografia é de qualidade nenhuma, perco a densa tonalidade do sol quando dorme, qualquer coisa desbotada de uma cena única do mundo, ninguém se deu conta, tornou-se segredo. E as cenas de um filme visto no cinema, ficam lá, hipoteticamente reproduzíveis. Um engano que proíbe até os minutos de um curta, um clip estilo vintage.

Sem trocos bastantes nos bolsos da calça, eu não tenho um carro antigo para sair por aí, pelas rodovias de linha reta… On the road…

A máquina de escrever ficou abandonada num canto da casa durante a viagem e no fim das contas - prós e contras - restaram uma caneta e um pedaço de papel, uma folha para usar o inverso.

E tudo bastou, e o por do sol continuou sendo confiado a mim, e o nascer foi o presente quando visto. E a trilha sonora que as ruas da cidade não tocam quando transgrido a calçada e vou pela via dos carros, canto eu mesma enquanto vem passo depois de passo. Meus olhos diante do mundo são as melhores lentes que tenho, mesmo quando, sem óculos de grau, vislumbro tudo como pintura impressionista, obra-prima em museu aberto e gratuito.

On the road, eu estou. Eu estou no lugar, eu estou para dentro de um filme inatamente criado para agora e para depois. Eu estou fazendo o caminho para mim. E preste atenção! Não se trata de eu, eu, eu, numa síndrome narcísica, - mas talvez se trate - porque eu só existo em mim e numa tal realidade que apenas esses dois olhos tortos e assimétricos podem tocar com a ponta de um lápis sem ponta.

Presta atenção! Eu estou na estrada sem carro, cômoda, tenho a direção nas mãos.

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

Nota - por Daísa Rossetto

Procuro num caderninho as ranhuras, não rasura…

Não falo pelas beiradas, escancaro… A janela às 8 da manhã, é manhã de outono. Quero ver o dia nascido e ouvir o violão que tocado escondido na porta dos fundo do restaurante do largo.

Procuro o caderninho, releio o traço, o caminho fazendo letra.

Escrevo para não ter medo.

Entre os meus dedos o papel desmancha, manchado de mim, pintado ao contrário, fora da regra.

Tenho um caderno, o resguardo das minha ranhuras, sinais das rasuras que trago. Não sei se é do corpo disforme, ou da alma que perambula sem forma. Tenho um caderno de aspirante, um bloco das notas que me faltam diante da avaliação, notas que não encontro perdidas pelas ruas.

Notas, somente… Somente o andar em manhã de domingo, a vida que dança, que canta, que voa em bando, que pousa na mesa do café da praça, que late e que corre o carrinho de criança sem condutor.

Nem tudo é preciso anotar. Mas nota! Nota… Nota a vida acontecendo em tom maior, em letra maiúscula, nome próprio, verbo no infinitivo. Nota a vida a dar seu espetáculo enquanto foge fingindo amor entre viagens…

Denota a demora que não cabe, dê nota ao que não pode ser explicado, respondido em prova objetiva…

Nota, hoje é domingo, prevalece o silêncio entre os bares. E eu escrevo para não ter medo e não sentir fome, não ter o peso no pulmão.

Seja como for, guardo fora do segredo o universo onde o papel é ilimitado, não cabe entre o número de páginas sem linhas. O universo se expande, cresce, quando se empunha a caneta da mão, o lápis, talvez até um pedaço de carvão ou batom.

Nota, notas, anoto esse universo que se abre entre meus olhos, que pinta, risca, rasura e arranha este pedaço de mim…

Nota a vida, tomo noto para dentro, aqui, assim…

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

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