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10 Anos e Uma Morte stars

Já não tenho sono, na madruga desperto. Uma frase solta se agarra a mim num pedido de que dela eu diga. Egoísta que só sabe ser.

Eu me preparo como rei em frente à espelho de ouro para frases em pedaços de anos. O dia exato em que lhe escrevo. Precisei de 10 anos para dizer da morte prematura que chegou sem respeito aos meus recém feitos 17 anos.

E o que de tudo eu poderia dizer, deveria dizer, merecia dizer, quero fazer sem ranhuras, mágoas ou tentativa de ferir meus pulsos. Quero dizer desdizendo, sem amargo gosto de nada na boca, sem lamentosos impulsos ou dramas novelescos, sem depressões de remédios, sem inquietações do que a vida teria feito por mim se aquele sábado corresse provável ao cotidiano.

Plena serenidade da manhã de sol o registro que datilografo em cela sem grade. Corro dedos de silêncio: Eles estavam enganados. Eles. Estavam todos eles enganados ao professar o falso futuro: Logo esquece, vida que segue.

Logo... Logo esquece... Logo são todos os outros de todos os tantos dias que vem e vieram. Logo, tantos deles agora se engasgam. Minha garganta. Passaram-se 10 anos e logo a vida seguiu. 

Estavam todos enganados ao dizer que haveria de esquecer aquilo que fez de mim outra por todos os outros dias de 10 anos que correram às margens do rio.

Interrogo a afirmação contra parede sem vingança aparente, sem dores latentes. Mas no mas sem mas, de fato as marcas - e digo marcas porque falar em cicatriz seria infamar os desenhos feitos – continuam acesas como luzes de um dia, a manhã de sábado quente. Eu sou a dor que curei em noites silenciosamente solitárias, quando debruçada à tarefa de recortar a voz pousada em meus ouvidos de memória. É de memória que reconstituo os olhos imateriais que pousavam no meu sono. Meia noites em inícios da semanas de glórias.

Dedico minha palavra, há de saber desde aquele tão próximo início de década.

10 anos se passaram. E eu não me importo com aqueles de discursos aos quais me arremessaram sem respeito.

10 anos. Restou eu e restou você ainda jovem, ainda em bermuda xadrez e camisa de time. Ainda ficou firme a certeza do que somos agora.

10 anos correram e eu ainda não entendo, lenta que sou, como pode ser 10 anos o tempo tão recente, tão presente. Tão proeminente constante para mil vezes 10 anos que virão. Dali e adiante.

Sem revirar memórias – vou fazê-lo em segredo quando o texto ser ponto em ponto de fim sem fim – há anos celebro em silêncio datas: nascimento e morte. Já não é sempre que choro, já não é sempre que lembram que eu também existi. Já são tênues as cores que me vestiram aos pedaços. Sozinha passei a me pôr em vestes. E por agora não choro o pranto. 10 anos ou uma década. Um marco de tempo. A morte que não morre. A vida diluída confundida ao ar.

10 anos passaram como aros de bicicleta entre as corredores cortando o trigo. Eu aqui, sobrevivi. Viva, ando destecendo a tela pintada por quem não conhece meu desenho do mundo. Daqui eu sigo, como um vento que leva as formas já desfeitas. De mundo. Eu ando, ando e ando sem rasgar as velhas máximas perguntas postas em senso. Eu ando sabendo que depois de tantos anos o tempo de qualquer coisa ainda me reconhece.

Temporalidade: quem define? 

Por hora de segundos escuto o silêncio sem fala. Uma palavra sem parada. Leve sensação de tempo parado: O que restou sem ser sobra, o que ficou (im)permanente no permanente é o que verdadeiramente fui no exato momento. Cravado de pedra. O instante pedra inalterado no que se altera logo depois de ser infinitivo.

Tocamos o infinito: instante preciso. O tempo do risco da luz não ser luz... Anos... Depois se apagou...

Precisei fazer empréstimo ao tempo, 10 anos de conta sem dívidas. 10 anos para conhecer a graça dos momentos que fomos, um diante do outro. O melhor que poderíamos ser e fomos.

Te amo, sem dizer que gosto da palavra amor. Já não gosto. Mas hoje, em olhos triste que possuo como constituição pura do que sou e sem lastimável a forma visual, também sou eu esse momento regido na face transbordada ao espelho. Esse pedaço do tempo esparramando há já 10 anos, um retorno em vestes de palavras que me ensinaram a escrever.

Foram 10 anos necessário para escrever, ainda prematura, meu medo perdido da morte. Uma década para o reconhecimento, 10 anos que se multiplicam ao que vem. Sem lamento, sem drogas ou pranto recolhido. Há 10 anos tenho a ideia da imprecisão do tempo: 10 dias, 10 horas, 10 segundos, 10 mil anos, 10 semanas.

Uma década foi o fim da tarde de ontem. Eu sei. E me repito. E até mesmo para a morte uma década precisa ser celebrada.

Na relatividade não científica do tempo o que contou o registro foram as frações dele – momento – onde fui e fomos o melhor que dava pra ser. O melhor que poderia ser.

Um acúmulo de momentos vividos indiferentes ao desconhecido futuro, animais que somos. O momento no plural. O momento que nos levou ao infinito.

Dizem que ser notado é existir. E eu não quero ser notada... Visito cada instante que tantas décadas não apagam.

Você existe, eu noto...

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

Rasga - por Daísa Rosetto

Sobrou um pedaço de silêncio em fins de noite. É domingo quieto entre músicas de bar. É pouco o que tenho.
Oscilo como vento que muda conforme muda a intensidade da maré.
Estou cansada. Então escrevo e vou escorrendo. Chuva na janela. Manhã cinza...
Anseio por dizer. Não digo. Silêncio.
Quero gritar. Não grito. O tom baixa. Cada vez mais...
Quero ser. Não sou. Não sei...
Quero escrever. Como um escritor. Que não perde o fio da história. Mas história eu não escrevo. E escritora não sou. Escrevo.
Não encontro a música. Nem o filme. Nem livro encorajo-me a abrir sem cogitar deixar estar de lado.
Não há obrigações, nem direções.
Silêncio.
Luz de olhos. Sem câmera. Sem ação.
Não posso falar. O que se escreve hoje em tela de computar é um baboseira só. Deixa pra lá.
Eu não posso.
Eu quero rasgar. E queimar. E jogar pela janela em dia de chuva. E então me desfazer na rua. E escorrendo correr ladeira abaixo. Ser perdida. Rolar entre as pedras. E por elas penetrar.
Um segundo. Eu me transformei no caos.

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

On the road… - por Daísa Rossetto

Presta atenção! Do lado de fora são os barulhos de carros freando desatentos e buzinas acordando os distraídos, polícia girando sirenes que dão medo. Do lado de fora tem a notícia da política todos os dias, bolsa cai, bolsa sobe. Cinco dias por semana o mesmo trajeto, o mesmo horário o mesmo cardápio pontualmente posto.

É do lado de dentro que o filme é feito, com cortes, tomadas e foco. Sem horário marcado para terminar e fechar a sala de exibição. Não aqui…

Na maioria das vezes, a caminhada pelas ruas da cidade durante o início do sol da manhã acontece sem a música perfeita, baixo e violino, sem jeans descolado, óculos escuros moda retrô.

A fotografia é de qualidade nenhuma, perco a densa tonalidade do sol quando dorme, qualquer coisa desbotada de uma cena única do mundo, ninguém se deu conta, tornou-se segredo. E as cenas de um filme visto no cinema, ficam lá, hipoteticamente reproduzíveis. Um engano que proíbe até os minutos de um curta, um clip estilo vintage.

Sem trocos bastantes nos bolsos da calça, eu não tenho um carro antigo para sair por aí, pelas rodovias de linha reta… On the road…

A máquina de escrever ficou abandonada num canto da casa durante a viagem e no fim das contas - prós e contras - restaram uma caneta e um pedaço de papel, uma folha para usar o inverso.

E tudo bastou, e o por do sol continuou sendo confiado a mim, e o nascer foi o presente quando visto. E a trilha sonora que as ruas da cidade não tocam quando transgrido a calçada e vou pela via dos carros, canto eu mesma enquanto vem passo depois de passo. Meus olhos diante do mundo são as melhores lentes que tenho, mesmo quando, sem óculos de grau, vislumbro tudo como pintura impressionista, obra-prima em museu aberto e gratuito.

On the road, eu estou. Eu estou no lugar, eu estou para dentro de um filme inatamente criado para agora e para depois. Eu estou fazendo o caminho para mim. E preste atenção! Não se trata de eu, eu, eu, numa síndrome narcísica, - mas talvez se trate - porque eu só existo em mim e numa tal realidade que apenas esses dois olhos tortos e assimétricos podem tocar com a ponta de um lápis sem ponta.

Presta atenção! Eu estou na estrada sem carro, cômoda, tenho a direção nas mãos.

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

Nota - por Daísa Rossetto

Procuro num caderninho as ranhuras, não rasura…

Não falo pelas beiradas, escancaro… A janela às 8 da manhã, é manhã de outono. Quero ver o dia nascido e ouvir o violão que tocado escondido na porta dos fundo do restaurante do largo.

Procuro o caderninho, releio o traço, o caminho fazendo letra.

Escrevo para não ter medo.

Entre os meus dedos o papel desmancha, manchado de mim, pintado ao contrário, fora da regra.

Tenho um caderno, o resguardo das minha ranhuras, sinais das rasuras que trago. Não sei se é do corpo disforme, ou da alma que perambula sem forma. Tenho um caderno de aspirante, um bloco das notas que me faltam diante da avaliação, notas que não encontro perdidas pelas ruas.

Notas, somente… Somente o andar em manhã de domingo, a vida que dança, que canta, que voa em bando, que pousa na mesa do café da praça, que late e que corre o carrinho de criança sem condutor.

Nem tudo é preciso anotar. Mas nota! Nota… Nota a vida acontecendo em tom maior, em letra maiúscula, nome próprio, verbo no infinitivo. Nota a vida a dar seu espetáculo enquanto foge fingindo amor entre viagens…

Denota a demora que não cabe, dê nota ao que não pode ser explicado, respondido em prova objetiva…

Nota, hoje é domingo, prevalece o silêncio entre os bares. E eu escrevo para não ter medo e não sentir fome, não ter o peso no pulmão.

Seja como for, guardo fora do segredo o universo onde o papel é ilimitado, não cabe entre o número de páginas sem linhas. O universo se expande, cresce, quando se empunha a caneta da mão, o lápis, talvez até um pedaço de carvão ou batom.

Nota, notas, anoto esse universo que se abre entre meus olhos, que pinta, risca, rasura e arranha este pedaço de mim…

Nota a vida, tomo noto para dentro, aqui, assim…

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

A janela da existência - por Daísa Rossetto

Não escrevo, logo, (des)existo.

Desisto.

Então me perco entre o cantar do feijão na panela de longas horas e o ritmo compassado da cebola cortada aos cubos.

E vou evaporando num chimarrão repetido em vezes sem fim, chupo da erva lavada com a consciência esquecida de onde (dever) estar – uma escritura interminável.

Inconsciente, em coma, tomo-me frente à janela da existência: A vida corre, a poesia cresce, ninguém percebe. E nos telhados o gato anda e dorme e senta-se de frente, temente a lua, deusa da noite dos gatos dos telhados, do cachorro que uiva o cio.  A existência soa sorrateiramente na madrugada quando à cidade dorme e eu sonâmbula - sem gênero, face ou formas - em frente à janela, ligo uma televisão sem fios ou botões, num puxar de cortinas presas com prendedor de roupa. É o que me detém numa programação não programada.

A janela é porta (para certo mundo), a novela que roda na tela é feita sem roteiro. Atores e autores desconhecidos. Sou eu que faço à narrativa, relendo a história vou para depois da linha do horizonte, fim do asfalto. E depois do gato em cima do telhado, por de sol sem sol, as nuvens dançam tortas em direções opostas.

Volto sopro nostálgico, janela indiferente à brutalidade da parede, a casa descuidada em uma cidadezinha desconhecida no mapa nacional, num fim de mundo que eu gosto de estar.

Na dúvida existência do mundo, no resto dos dias, na linha final, num infinito horizonte que só o ninguém vê, estou – lá estou - submergindo o desfalecimento, o fim do coma, a sobrevida. Um desenho de letra acode, como janela que se abre em sol de semanas de chuvas corridas a fio, linha de papel…



A janela…

E então, sem desenho de letras amontoadas tortas na escrita errada, - eu não conheço o idioma - (outra vez então) não existo.

Desistência parcial.

Mas prestando atenção: é a janela entre os sons de pratos, talheres e panelas, o horizonte de carros indo e vindo num movimento idêntico ao das árvores do canteiro central. São os telhados dos gatos e os ônibus e as pessoas sob guarda-chuvas e o canto da chuva no vidro da janela. E a janela desenhada em cores de céu. E a janela inventando um acúmulo qualquer de palavras quando eu des(existia), desistida em mim. Um sopro que corre por dentro, poética para fora da moldura. Insiste, como criança puxando a manga da blusa da mãe.

A janela me assenta de frente a vida, é socorro pronto em noites de sono finito.

Na janela o horizonte, daqui o aceite para estar perdida em voltas no mundo, para deixar-se calada, desentendida entre as rodas de vozes desencontradas.

Eu volto a ser através da janela que fantasia em mim qualquer coisa sobre ser.

Eu existo numa qualquer coisa que não é coisa que cobra palavra sobre palavra, não concretas, não pedras. Singularmente soltas num vento imperceptível aos olhos.

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

Ao Redor - por Daísa Rossetto

Outra vez, como ontem, nada faz sentido, tudo não faz.

Eu quero parir um mundo novo (desconhecida da falta de aptidão para a maternidade): Que nada mais se prenda as minhas entranhas, além de um único sentido de existência. Nada além, nada além do que já está.

Já está.

Atenta: apenas ontem, se fosse-me possível ser deusa, eu aceitaria dar à luz a um mundo novo, sem castas ou casas de concreto ou cercas construídas de vidros de garrafas. Existiria unicamente a mais pura singularidade de cada lado de um oceano. E eu nutriria este filho com meu próprio corpo cortado por contos indefinidos. Mas isso foi ontem, quando esqueci que era deusa, quando fingi o desejo de ter preso em mim a inocência vida, a doçura mundo.

Hoje acordei sabendo das minhas repulsas, de estar coabitada pelo vômito doce que não volta… Não volta, o avião volta e vai… Eu vou.

Eu vou indo neste excesso de reticências, exclamações, choro e gozo dolorido. Eu vou, depois de tantos táxis batendo a porta e partindo com o bagageiro carregados de memórias e saudades nascendo.

É chegada a minha vez, mesmo sabendo… Mesmo sabendo que por pouco tempo: É teste de resistência, treinamento militar, é realidade irreal, é olhar para trás e deixar o rosto secar ao sol, é pôr do sol. Eu sou um vento que vai em direção oposta, sentido múltiplo, transposta a épocas, o movimento do pincel de Van Gogh.

Engole o choro que se derrama com o toque suave do avião em solo. A terra que me pariu me manda para longe, lugar que não existe. Eu invento, fingindo seguir os mecanismos de pesquisa empírica.



Outra vez, mesmo sabendo que por pouco tempo, eu parto batendo a porta do táxi, constatando estar ali as malas carregadas de coisas que não sei o que são, nada disso é meu. Nada é meu, eu não tenho nada, eu não quero ter, eu quero ser nada.

Decido num instante que vou ficar por ali, em partes me divido, traduzida: pelas ruas, pelos restos dos cantos, dos copos e da serenata da noite anterior. Eu fico, entre as paredes frias que me apertam e eu fico entre o sol denso e a proximidade da África. Eu fico entre a possibilidade de paixão e um desconhecido, eu fico entre um discurso fora da teoria, particularidade de uma vida. Eu fico aos pedaços, aos desenhos das ruas, eu fico entre mundos, entre sotaques, entre braços…

Ao meu redor, personagens. Feitos de realidade, tijolos empilhados. Estou sozinha diante do vômito decifrável da comida, personagem das angústias fingidas de delicadeza leve.

Eu fico e vou…

Eu fico entre todo o rastro do mundo em que sou desconhecida em mim:

Rompa minhas formas, minha cor.

Rompa e rasga as curvas do meu cabelo, a estranheza dos meus olhos dissimétricos.

Rasga a camisa de botão, os rosas todos, os saltos. Eu uso tênis all star.

Me desfaça, me desconheça, me rasga e me veja para além desta forma: métrica, contagem silábica, matemática, concreta… Me olha como licença, poética… Apenas um signo poético, astros desconhecidos, sem órbita.

Me desconheço, é tudo. O que quero ser: Umas palavras pintadas em papel, num quarto escuro. Um vento sem face, dançando. A chuva sem corpo, cantando… Eis tudo o nada que me cabe, que me inventa, ser…

Isso é tudo para aqui e para além.

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

Nada e reticências - por Daísa Rossetto

Sufoco outra vez mergulhada em papel que não diz. Justificando o injustificável, conceituando tudo que ultrapassa conceitos e normas e regras e teorias, sufoco.

Sufoco no sono que não durmo, na bebida que não bebo, não ânsia que não seguro e vomito. Meu estômago não segura nem digere palavras que não são feitas de essências e sentidos.

As teorias não me entendem. Eu não caibo na sala, na cadeira, na mesa feita sob medida. Eu não caibo nas compreensões de sempre, nas horas teorizando, em horas teorizadas, nas horas todas de estudo em que não se abre a janela nem se deixa o sol entrar.

Eu sou incompreensões, banalidades ficcionais, ócio e horas vagas…

Outra vez a narrativa sobre o futuro. Outra vez é o carro por caminho feito… Outra vez é não isso…

Não é isso…

O tempo que me leva, o tempo que me traz quando já não posso ficar para trás. Outra vez abandonada entre os livros, narrativas sem fim daquilo tudo que não sou eu…

Falta a história… Era uma vez…

Veja bem o que não vivo dentro dos prédios em que o meu nome se inscreve em listas de presença que não me seguram ali. Eu vago, divago para qualquer outro lugar inventado…



Veja bem: Eu gosto de sentar no chão e gosto de dormir no chão.

Eu estou na rua onde os pássaros pousam e os turistas passam exaustos pela subida íngreme. Eu gosto de sentir as pedras velhas da rua antes de abrir a porta.

Eu estou no mapa, mas não num lugar circulado em lápis: não é raiz, é vento…  Vento que sopra, que vai, que vem sem ser nome em grade de notas, sem hora fixa para lições e ditados.

Qualquer coisa de arte sem forma, é o espaço que peço. Qualquer coisa que toca na praça sem banda ou público. Qualquer coisa de instantâneo que não ouse perceber as formas que não me definem.

Veja bem: Mais uma vez deito fora o vômito teórico, essa voz que não fala, esse comida parada que não nutre a terra. Congestão.

E deito fora água seca dos olhos, água do mar morto que vai abrindo nascentes por entre as ranhuras do rosto.

Vou dizer outra vez para convencer-me: Sou qualquer coisa que ultrapassa o nome na lista, a cadeira da sala, a voz que falo sem nada a dizer…

Sou qualquer coisa sobre um voo sem passagem comprada…

E sou qualquer coisa que hoje quero romper para apenas… Apenas seguir na minha própria direção, quando então procuro uma palavra melhor (para direção), uma palavra que consiga incluir tudo o que quero ter como significado para meu próprio sinônimo…

Porque, então e ao fim, eu existo em qualquer coisa de nada que faça sentido e num excesso de reticências onde cabe toda interpretação…

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

Nós, as cores… - por Daísa Rossetto

Não limitemos as cores.

Que as cores não me limitem!

Sou todas elas, sou a mistura, a pintura fora da margem, fora da tela, depois da moldura.

Não limitam-me as cores que visto numa noite, como uma sentença anual. Sou todas elas, misturas dentro de mim, um arco-íris infinito, em expansão… Infinito.

Porque hoje a noite é fria, é sexta-feira, é inverno. E eu pinto todas as cores na dança dos dedos quando rabisco palavras.

Eu peço, aos céus, entre palavras escritas erradas, entre a (in)concordância e o sentido desfeito, que para os próximos tempos eu possa continuar inventando minhas próprias cores, entre a tinta da caneta e o amarelado do papel.

Porque para todos os princípios eu quero ser o início, a tela branca, todas as cores, todas as falas que vibram sem volume, no som calado.

Não limitemos as cores de uma noite. Deixa ser o tom do calor ou o tom do frio, deixa ser a cor do abraço apertado, da taça borbulhando, das frutas doces, dos beijos estalados, dos beijos demorados, dos beijos todos…

Deixa ser a cor que dança em mim e dança em você, quando a música toca sem sabermos de onde vem…

Deixa ser a cor do passado, do ontem. Das paixões que não chegaram a ser e daquelas que ficaram pela metade na cidade dos estudantes. Deixa ser a cor do amor como for, como quiser ser, como tiver de ser.

Deixa ver a cor do voo da gaivota sobre mim e da pomba caminhando entre as crianças e os cães…

Deixemos ver o mundo em mil faces de luz, de branco que é a união de todas as cores. Apaguemos com a borracha da ponta do lápis, os tons infelizes da guerra, da violência, do mal sem face, sem cor…

Pintemos outra vez a rua, a praça, a igreja, o mar, os prédios desfeitos por bombas e tapas opressores.

Pintemos a cara com os tons que no mundo nos apetecem! E gritemos à vida que ela já não precisa nos esperar. Estamos vivendo, estamos pintando a rua, o dia, a noite e não precisamos nos limitar a cor da virada, não somos a sentença. Somos as cores que pintamos em nós. Pra dentro, ato feito, refeito, outra vez feito. Somos as cores. Nós, as cores…

O teto - por Daísa Rossetto

Quando eu era criança e ficava deitada por horas de barriga pra cima, o teto até poderia ser branco, mas no fundo era como se eu estivesse deitada na grama contemplando a intensidade luminosa de um céu sem fios. Não eram só estrelas, a lua, ou Vênus. Aquele teto branco era qualquer coisa que eu queria ser, que eu almeja sentir, ver de perto, ter por perto: o futuro, a vida adulta, faculdade, livros, música, amores, sonhos, mais sonhos, o mundo disponível, a vida sendo peça de teatro, musical, trilha sonora, cinema ao ar livre, história escrita…

Aquela parede branca acima de mim, mesmo na madrugada, luz apagada e escuridão, não era o alerta da densidade do concreto. Era tela levando para o depois, era o além de um quadro branco. A parede era uma brincadeira que tinha como regra expandir a construção para os outros andares ainda não levantados. O teto, sem detalhes nem cor, era os sonhos não concretos que tive e que, no fundo, possuíam a solidez de degraus encaminhando-me para aqueles que eram verdadeiramente mais próximos de mim.

Porque diante da parede branca, interrogada pela luz e a sombra em concreto eu insistia em responder em silêncio, jamais me esquivando das edificações que viriam, as que nem naqueles momentos eu imaginei que viriam.

Nesta espera do tempo, nesta brincadeira de fazer e de inventar o tempo, eu era parte da luz projetada pelos carros que passavam pela rua, eu era a luz do poste e o desenho das árvores andando entre teto e parede.



No instante do agora, outra vez o teto é tela. Entre ranhuras e rachaduras, desenho marcado em flores brancas, duras e densas, entre a referência grega, o teto faz alusões. Com ar aristocrático, é esse teto rebaixado, completamente feito de detalhes e talhes, que me leva para um salão de baile, roupas de época, máscaras, ostentações majestosas.

E após a moldura do espetaculoso teto vem o azul celeste das paredes, silenciosamente posto para não perturbar a magnitude do branco que se faz na altura dos céus, em flores, formas clássicas. E a luz amarela que o lustre moderno emite no centro do universo transforma tudo em ouro, luz de ouro.

Quando eu era criança eu sonhava olhando para o texto, atravessando-o, fazendo dissipar o concreto como nuvem leve. Crescida, avanço dissipando o cimento das paredes, transformando tetos, telhados e mundos. Eu posso dissipar o concreto armado…

Na infância o teto era simplesmente branco e me levava para outro lugar, eu o vencia, atravessando-o. No presente impublicável, na real presença do tempo o teto é pretensioso, majestoso em seus detalhes. Mas eu permanentemente insisto em atravessar este também. E depois deste os dos andares superiores.

O teto é só tela, é só nuvem prestes a se dissipar, prestes a levar para outro lugar.

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

O lugar que me habita - por Daísa Rossetto

Não sou daqui, por hora estou. De repente não sou de lugar algum… Nenhum…

Tem dias em que me arisco em admitir a tristeza. Travessa em voltas avessas, deixo de lado o meu lado compreensível e olhando o espelho para dentro me espanto com as formas que aceitei quase que imperceptivelmente. Disfarcei as angústias, negligenciei os sinais, dispersei-me entre as ruas por onde não devia andar.

As vezes o silêncio disfarçado, os fins de tarde ensolarados de janelas trancadas e sono profundo são meros disfarces. São os pratos doces de comida podre que se fingem do abraço de mãe que falta.

As vezes sinto a tristeza e talvez também ela me sinta. Extraviada como peça por entre os próprios caminhos meus. E perdida fora dos becos sem saída eu já não sei se esse lugar um dia me pertenceu. Já, outra vez, não sei se sou daqui. Talvez seja. Talvez eu seja de qualquer lugar ou de lugar nenhum.



Algumas vezes não basta reconhecer o centro no horizonte. Eu escapo os olhos e então, de repente, o tempo vai escorrendo pelas minhas mãos, fluindo foge. E eu gastei seu precioso valor com efemeridades que não são minhas: notas, dinheiro, horário, prazo… (pra mim, efemeridades)… Angústias que vão me roubando melindrosamente de onde é o meu único lugar.

Eu sou daqui, mas as vezes não sou. Sou de lá, mas nem sempre quero voltar. Sou de qualquer lugar, de todo lugar, de lugar nenhum.

Eu sou o lugar.

Eu sou da chuva e do sol alto, do sol poente e da beira do mar. Sou do arco-íris e das tardes cinzas, sou do frio de dezembro e até posso ser do calor de janeiro. Eu devo ser um passeio em plena segunda em horário comercial.

Eu devo ser só da onde sou. Porque mais do que habitar é preciso ser habitada. E eu, outra vez, desperta, só quero levar, seja para onde for, o único lugar que não pode existir sem mim…

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

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