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Nota - por Daísa Rossetto

Procuro num caderninho as ranhuras, não rasura…

Não falo pelas beiradas, escancaro… A janela às 8 da manhã, é manhã de outono. Quero ver o dia nascido e ouvir o violão que tocado escondido na porta dos fundo do restaurante do largo.

Procuro o caderninho, releio o traço, o caminho fazendo letra.

Escrevo para não ter medo.

Entre os meus dedos o papel desmancha, manchado de mim, pintado ao contrário, fora da regra.

Tenho um caderno, o resguardo das minha ranhuras, sinais das rasuras que trago. Não sei se é do corpo disforme, ou da alma que perambula sem forma. Tenho um caderno de aspirante, um bloco das notas que me faltam diante da avaliação, notas que não encontro perdidas pelas ruas.

Notas, somente… Somente o andar em manhã de domingo, a vida que dança, que canta, que voa em bando, que pousa na mesa do café da praça, que late e que corre o carrinho de criança sem condutor.

Nem tudo é preciso anotar. Mas nota! Nota… Nota a vida acontecendo em tom maior, em letra maiúscula, nome próprio, verbo no infinitivo. Nota a vida a dar seu espetáculo enquanto foge fingindo amor entre viagens…

Denota a demora que não cabe, dê nota ao que não pode ser explicado, respondido em prova objetiva…

Nota, hoje é domingo, prevalece o silêncio entre os bares. E eu escrevo para não ter medo e não sentir fome, não ter o peso no pulmão.

Seja como for, guardo fora do segredo o universo onde o papel é ilimitado, não cabe entre o número de páginas sem linhas. O universo se expande, cresce, quando se empunha a caneta da mão, o lápis, talvez até um pedaço de carvão ou batom.

Nota, notas, anoto esse universo que se abre entre meus olhos, que pinta, risca, rasura e arranha este pedaço de mim…

Nota a vida, tomo noto para dentro, aqui, assim…

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

A janela da existência - por Daísa Rossetto

Não escrevo, logo, (des)existo.

Desisto.

Então me perco entre o cantar do feijão na panela de longas horas e o ritmo compassado da cebola cortada aos cubos.

E vou evaporando num chimarrão repetido em vezes sem fim, chupo da erva lavada com a consciência esquecida de onde (dever) estar – uma escritura interminável.

Inconsciente, em coma, tomo-me frente à janela da existência: A vida corre, a poesia cresce, ninguém percebe. E nos telhados o gato anda e dorme e senta-se de frente, temente a lua, deusa da noite dos gatos dos telhados, do cachorro que uiva o cio.  A existência soa sorrateiramente na madrugada quando à cidade dorme e eu sonâmbula - sem gênero, face ou formas - em frente à janela, ligo uma televisão sem fios ou botões, num puxar de cortinas presas com prendedor de roupa. É o que me detém numa programação não programada.

A janela é porta (para certo mundo), a novela que roda na tela é feita sem roteiro. Atores e autores desconhecidos. Sou eu que faço à narrativa, relendo a história vou para depois da linha do horizonte, fim do asfalto. E depois do gato em cima do telhado, por de sol sem sol, as nuvens dançam tortas em direções opostas.

Volto sopro nostálgico, janela indiferente à brutalidade da parede, a casa descuidada em uma cidadezinha desconhecida no mapa nacional, num fim de mundo que eu gosto de estar.

Na dúvida existência do mundo, no resto dos dias, na linha final, num infinito horizonte que só o ninguém vê, estou – lá estou - submergindo o desfalecimento, o fim do coma, a sobrevida. Um desenho de letra acode, como janela que se abre em sol de semanas de chuvas corridas a fio, linha de papel…

A janela…

E então, sem desenho de letras amontoadas tortas na escrita errada, - eu não conheço o idioma - (outra vez então) não existo.

Desistência parcial.

Mas prestando atenção: é a janela entre os sons de pratos, talheres e panelas, o horizonte de carros indo e vindo num movimento idêntico ao das árvores do canteiro central. São os telhados dos gatos e os ônibus e as pessoas sob guarda-chuvas e o canto da chuva no vidro da janela. E a janela desenhada em cores de céu. E a janela inventando um acúmulo qualquer de palavras quando eu des(existia), desistida em mim. Um sopro que corre por dentro, poética para fora da moldura. Insiste, como criança puxando a manga da blusa da mãe.

A janela me assenta de frente a vida, é socorro pronto em noites de sono finito.

Na janela o horizonte, daqui o aceite para estar perdida em voltas no mundo, para deixar-se calada, desentendida entre as rodas de vozes desencontradas.

Eu volto a ser através da janela que fantasia em mim qualquer coisa sobre ser.

Eu existo numa qualquer coisa que não é coisa que cobra palavra sobre palavra, não concretas, não pedras. Singularmente soltas num vento imperceptível aos olhos.

Daísa Rizzotto Rossetto
Aspirante à escritora, desbravadora do mundo. Idealizadora do blog Café, Conversas e Livros e redatora web.

Em agonia - por Evanise Gonçalves Bossle

A literatura agoniza quando um texto é adaptado para facilitar a compreensão, esmagando assim a arte e a técnica do escritor. A literatura agoniza quando notamos que os pequenos e médios leitores querem apenas o humor efêmero, as tiras cômicas e a ilustração. A literatura tirita de frio, de tédio e espirra em meio à poeira das estantes abarrotadas de clássicos que já ninguém folha nem pega, porque acha sua linguagem difícil e prefere ficar a distância de dicionários.

A literatura agoniza quando preferimos as novelas, os filmes, o tempo gasto em conversas fúteis e superficiais nas redes sociais a ficar lendo um bom livro. A literatura treme de febre, já moribunda quando ouve que já não sabemos o que de fato significa um bom livro. A literatura morre em nós, quando dissemos que não nos interessamos por ela, que não simpatizamos com ela, que não gostamos dela e que só nos aproximamos se formos obrigados para fins de provas de vestibular por pedagogos e professores de literatura “utópicos e ultrapassados”.

Precisamos salvar a literatura!      

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