A fruição do instante na música de Joana Bentes - por Ester Chaves

A fruição do instante na música de Joana Bentes - por Ester Chaves

"Libra com ascendente em violão//muito céu pra pouco chão//".

Com essa descrição poética, é que a cantora, compositora e multi-instrumentista capixaba, JOANA BENTES, se apresenta em uma de suas redes sociais.

 A relação dos contrários, alto/baixo, o céu e a terra, não é vista apenas como extremos limítrofes, mas como medidas de expansão do próprio ser. Soa como um convite para o rompimento dos horizontes possíveis que, por vezes, atuam como prisões. 

A proposta é ser além do que se é. De dentro para fora, mesmo conscientes do quão pequenos e finitos somos, como expõe os versos da canção Instante, parceria dela com o produtor musical Xuxa Levy: “sou pequena aqui/mesmo olhando de cima/ você me vê cantante/ sem medo de mudar”. 

A mudança é um dos temas-chaves do EP Entre (2016), o primeiro disco da carreira de Joana. “Entre”, que já é o “meio”, o “intervalo”, “o interior”, o modo de ser ou estar, em vias de, em trânsito, é também um passeio pela poesia das coisas ─ a captação das belezas cotidianas que levam à contemplação e ao questionamento sobre o que se é/está – um lugar de alternâncias – o espaço/tempo entre o agora e o devir: “você vê o céu todos os dias/e ele é sempre igual/cheio daquilo que você é”. 

O céu, cuja potência transformadora explode em matizes e contamina a nuvem “bomba atômica”, relaciona-se diretamente com os estados anímicos do ser. Os elementos naturais que condicionam a passagem do tempo, refletem nesse “eu-lírico” cantante, que não se apavora com as mudanças.  Na faixa Entre, que dá título ao minidisco, o ‘eu’ se reconhece no ‘outro’ a ponto de perder-se, e vive, portanto, uma aporia. Se despedaça na metáfora pungente: “entrou em mim como um raio/o que ficou no meio?”

O ‘meio’, a ‘lacuna’, o ‘entre’ é o desconhecido. O vão. O que não se revela. O que escapa. O ‘breu’. Reconhecer-se no outro pressupõe um jogo de desvelamento e mistério. “Porque perceber é olhar, e captar um olhar não é apreender um objeto no mundo, mas tomar consciência de ser visto [...]” (SARTRE, 2003, P.333)

--- ASSISTA AO VÍDEO ABAIXO ---

Na canção Ceca, que significa lugar indefinido, distante, há uma consonância entre o ser e as coisas ─ o interior e o exterior dialogam, se fundem e entram em sintonia, formando o todo harmônico, a unidade geopoética. O tempo reúne todas as condições para a chegada do amor: “tô com você/tempo solar/sol que acerta”. Povoar o lugar distante, a ‘ceca’ (pode remeter ao próprio corpo do objeto amoroso), incompleto, deserto, que aguarda, ansiosamente, ser habitado por aquele que ama: “tenho um amor/sei que terá/deixe a porta aberta”. 



A provável receptividade do anfitrião não garante permanência. A passagem pode ser veloz como uma seta. Porém, há o desdobramento do ‘eu’ que veio para ficar e que, em algum momento, se transforma em seta no alvo: “seu beijo ouviu/simples soar/sal veia seca/". A explosão de sensações, inicia uma dança sinuosa de corpos. O beijo provoca e escuta as vibrações da pele; o sal, suor, a veia seca que se dilata e torna a pulsar com o calor do toque. O trocadilho: “sal veia seca”, dá margem ao “salvei a seca”. O lugar distante ─ o corpo árido salvo pela enxurrada de carícias. 

Em Chuva, o descortínio das memórias fortalece a expectativa do reencontro: “e essa chuva que não para/podia te trazer pra mim/eu também posso ir”. Esse mesmo tempo chuvoso, que se abre para dentro de uma paisagem nostálgica, potencializa os sentimentos e resgata as vivências do passado, funciona também como elemento de projeção, onde há uma expectativa em jogo: “o tempo é bom/dá pra pensar em tudo que importa”. “O que importa?” O ‘eu’ que se pergunta em voz alta, já sabe a resposta: “a gente desliza fácil” / “(já falei que dá certo)”. 

A relação amorosa é perpassada pela dúvida. Há uma desconfiança sobre o ato da entrega, que culmina na afirmação da existência de um sentimento intenso, soberano e resistente: “você nem esperava que eu fosse me molhar assim”. “A gente desliza fácil” /” (já falei que dá certo”). Os sentimentos vão se intensificando no decorrer da canção. A chuva que respingava memórias, como uma transparente onda de afagos nas vidraças, agora irrompe numa incontrolável tempestade de emoções, que é a própria reverberação da ausência do objeto de amor: “você também é tempestade em mim”. 

Quantos nomes pode ter a saudade? Quantas cores? Fisionomias? Gestos? Vozes? Saudade é amor, é uma canção que passeia pelos recônditos espaços da falta. A saudade que dói. Que é vazio. Memória. A saudade que é uma pessoa. Um lugar. Melancolia. Apreço. Amor. Ausência. Nuances que vão acentuando os rumores em torno desse sentimento que pode evocar sentidos totalmente contraditórios: “saudade que não dorme é amor”. “Evocar é trazer de volta, é presentificar o que se enuncia.  É tornar próximo o objeto que está longe, com todas as vivências, percepções e sentidos que suscita, como destaca o filósofo Heidegger, no livro A Caminho da Linguagem (2011): “Nomear é evocar para a palavra. Nomear evoca. Nomear aproxima o que se evoca. (...) A evocação convoca. Desse modo, traz para uma proximidade a vigência do que antes não havia sido convocado”. (HEIDEGGER, 2011, p. 16)

Convocar a saudade é senti-la outra vez, em toda sua efervescência e plenitude. Resgatar o que ficou perdido no espaço/tempo, mas que está sempre em vigência na memória do coração. Nomear a saudade é eternizar as experiências, realçando as categorias da afetividade, tornando-as inesquecíveis: “saudade tem um nome/saudade tem a cor/saudade que se forme é amor”.

Joana é artista das palavras, texturas, cores e sons. Em seu canto, evidencia e explora todas as possibilidades de enaltecer o que vibra, brota e toca fundo. Canta a potência do ser e os seus desdobramentos ─ o inaudito, a fruição do instante, o que é/será. A natureza e o cotidiano com todos os seus arranjos, suavidade e graça estão presentes nessa música movente, que representa de forma sublime todos os fascínios da poesia.

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Fotografia: Vicente de Mello

REFERÊNCIAS 
MARTIN, Heidegger. A linguagem. IN A caminho da linguagem. Trad. Márcia de Sá Cavalcante Schuback. 5ª edição. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista SP: Editora Universitária São Francisco, 2011.
SARTRE, J. P. O ser e o nada – Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Trad. de Paulo Perdigão. Petrópolis, Editora Vozes, 2003

Ester Chaves, escritora Brasiliense, graduada em Letras e estudante de Gestão e Produção Cultural.

 

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