O Eu de uma mirtácea - por Patrícia Viale

O Eu de uma mirtácea - por Patrícia Viale

Território preservado

Já invejei árvores mais nobres. Certo dia um biólogo puxou-me pelas folhas. “Eis uma mirtácea!”. Era ele um recém-formado, entusiasmado em descobrir novas espécies. Sabia que nós, as mirtáceas, somos a mais rica família em frutos tropicais. São parentes a goiabeira, o araçá, a jabuticabeira, a uvaia e também a guabirobeira. Se ainda não me apresentei, chamo-me pitanga. De folhas em tons verdes e nuances avermelhadas. Sou planta um tanto meiga. Preciso de proteção das árvores mais altas. Não sou como as vassouras, pioneiras, e guerreiras. Elas chegam primeiro e deixam tudo ao redor mais seguro. Depois chegamos nós, as mirtáceas. Dizem que somos o maior número de espécies na ameaçada Mata Atlântica. O que sei é que sou uma mirtácea, que nunca chegará aos pés de uma angustifolia. Não me incomoda ser mais baixa, ter que florescer todo ano e oferecer meus frutos aos animais, inclusive o homem. Estar viva até o presente me consola. Num momento de tantos conflitos por causa de territórios e riquezas foram-se as araucárias e os ipês. Ficaram as mirtáceas, árvores de comunidade.
E depois de mais um beliscão do biólogo posso suspirar e dizer: - Ainda bem que sou uma destas.



Patrícia Viale
É mãe, ativista, jornalista, escritora, colagista e pizzaiola.
Inquieta e persistente, apaixonada pelos Campos de Cima da Serra.

 

• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 26 - Julho de 2015 

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