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Para ser o amor do seu amor, primeiro seja amigo - Por Ester Chaves stars

Alguns casais já foram amigos um dia, mas perderam a sobriedade da união quando separaram os sentimentos. Quiseram amar somente com o exagero do amor e acabaram esquecendo que a amizade era o que sustentava todo o relacionamento. Esgarçaram o que tinham de mais sagrado. Destruíram o pacto entre as almas e fundaram um abismo.

Não souberam ampliar o campo de atuação da amizade. Esqueceram que ela funciona como cláusula primeira de qualquer relação. É o termômetro. A bússola. Sem esse recurso, o amor não respira. Mesmo sendo um sentimento vigoroso e múltiplo, o amor só pode demonstrar a sua potência quando aliado à serenidade da amizade.

Porque a amizade é o amor à paisana. O reconhecimento do outro sem menosprezar os detalhes mais simples. Na amizade até a implicância tem valor. Tem charme.

A amizade é o amor legítimo. Amizade no relacionamento amoroso é a coroação sublime de uma incessante busca. Onde é possível compartilhar a calmaria de um domingo no parque e experimentar o vendaval nos lençóis. Harmonia que nasce da compreensão das diferenças. Solidez que não se estilhaça com qualquer ameaça de vento.

O amigo reconhece o outro pelo olhar. Detecta de longe quando tenta disfarçar uma dor contando uma piada. Sabe que o olhar absorto no tempo esconde alguma angústia. Compreende que a falta de palavra não é descaso nem apatia. Às vezes, é apenas cansaço.

Amigo é uma espécie de mãe de aluguel quando a gente se perde na vida. Toda amizade sincera nos ensina sobre as tonalidades do amor. A principal, é a tolerância nos dias difíceis, quando o outro se isola para resolver sozinho as pendências que a vida impõe.

Quando silencia. Quando não quer desabafar porque ainda não sabe nomear o que está sentindo e precisa de um tempo para realinhar as órbitas dos pensamentos. Porque não quer que o outro sofra nem se preocupe à toa. Porque não quer fazer alarde com assuntos passageiros.

Amizade é o amor mais delicado que existe, porque a tolerância está sempre se revezando com o perdão para que não fique nenhuma ponta solta, nenhum mal-entendido. Para que não haja desconfiança.

Amizade é o amor puro, que reconhece na própria pele as cicatrizes do outro. A amizade no relacionamento é um fundamento que deve ser aprimorado no calor das declarações e reforçada num gesto de cuidado, quando o outro está distraído.

Para ser o amor do seu amor, primeiro seja amigo.

Alguns términos são verdadeiras provas de amor - por Ester Chaves stars

 

Algumas situações se repetem em nossa vida por pura teimosia. Às vezes, queremos remediar algo que já excedeu o limite. Na tentativa de consertar o que quebrou, refazemos laços desgastados. Ao tentarmos abrandar a fúria da saudade, repatriamos quem deveria permanecer longe. Assim, o ciclo de sofrimento se reinicia.

Há histórias que só acontecem uma única vez. Dentro delas, as pessoas estão intactas, maravilhosas, vestidas naquele mistério que um dia nos cativou e nos fez amá-las intensamente. É errado lembrar? Não. Mas é angustiante permanecer numa cena que é só memória. Que não vai voltar. Nós mudamos e as pessoas também. Cabe a nós, a lembrança, a saudade sem dor. A recordação sem o desejo de recuperar aquela pessoa tal como era e trazê-la para o convívio que não é mais o mesmo porque já estamos em outra frequência emocional, e mesmo que apenas um lembre e ainda ame, vai adiantar alguma coisa?

O erro é esperar do outro a mesma atitude, a mesma doação, o mesmo amor, a lembrança carinhosa de um sentimento que para ele não existe mais. E aí, surge o questionamento: “Então não era amor? “Sim, era. Foi. Amor também acaba. Acaba por uma sucessão de detalhes. Parar no tempo para replantar numa terra já conhecida, que deu os frutos que tinha que dar, é no mínimo um atentado contra o amor-próprio.

A gente precisa aprender que alguns términos são maneiras de devolver-nos a nós mesmos. Um relacionamento com diversas idas e vindas não significa que ainda exista amor, às vezes, é apenas carência. A teimosia nesses casos, só inaugura novas etapas de sofrimento, pois as reclamações não mudarão de endereço. Serão as mesmas. Repetições dos velhos hábitos, da falta de atenção e reciprocidade. Tudo que já existia antes. A “nova tentativa” será recheada de cobranças e expectativas — fato que só potencializará os erros conhecidos e abrirá uma possibilidade mais trágica: de duas pessoas que um dia se amaram tanto, começarem a se odiar, por pura insistência, por desejarem “salvar” uma relação que acabou há muito tempo.

Ester Chaves, escritora Brasiliense, graduada em Letras e estudante de Gestão e Produção Cultural.

O frio é o cupido atento que se aproveita da fragilidade dos corpos para aproximar as almas - por Ester Chaves

O frio é um convite para encurtar distâncias. Uma bela desculpa para reconciliação depois de um mal-entendido. Quando o casal briga num dia comum, onde a temperatura não ameaça, o marido já acampa no sofá, voluntariamente, sem cogitar a possibilidade de prolongar a conversa. Sabe que depois do erro, ficará uma lacuna que só será superada após algumas horas de solidão da mulher.

Cabisbaixo, o infrator carrega o travesseiro como uma criança que recolhe da caixa somente o brinquedo que ficará na cama durante à noite. A travessia do quarto para sala é realizada apenas uma vez, sem esticar o olhar para o lado e com extremo cuidado para não esbarrar em algum pertence esquecido por ela no meio do trajeto. Depois disso, não voltará mais ao local do crime, a não ser que seja convocado para matar uma barata.

Passar a noite em outro cômodo da casa sem a companhia da mulher é conhecer o campo minado da ausência. É treinar exaustivamente uma posição menos desconfortável, onde possa acalentar a si mesmo até adormecer. O castigo por ter pisado na bola é proporcional ao tempo de adaptação noturna, onde pensará no delito até que o sono resolva suspender o sofrimento.



Quando a temperatura cai, a tolerância aumenta. Há uma solidariedade espontânea de ambas as partes. Uma disposição heroica para evitar que o outro pegue um resfriado e adoeça. As mãos estão sempre disponíveis, como um cabide automático que oferece casaco. Há o cuidado de alertar o outro sobre a importância do uso das meias e o boletim sobre a evolução das enfermidades que surgem com as baixas temperaturas está sempre atualizado como medida preventiva.

O frio sempre joga a favor da união do casal. Qualquer esbarrão é motivo para oferecer abraço e inaugurar uma nova lua de mel. Qualquer caminhada é pretexto para entrelaçar os dedos. O frio é o cupido atento que se aproveita da fragilidade dos corpos para aproximar as almas.

Ester Chaves, escritora Brasiliense, graduada em Letras e estudante de Gestão e Produção Cultural.

A gente se despede quando percebe que não faz mais sentido ficar - por Ester Chaves

Um dia, a gente, finalmente, se despede. Descobre que ir embora não é mais difícil do que ficar onde não é bem-vindo. A gente se veste de coragem, cata os verbos soltos pelo chão, as juras de amor e as promessas de ocasião.

Um dia, a gente compreende que, estar por estar onde quer que seja, não leva a lugar nenhum. É como ser qualquer coisa num cenário abandonado. E ser qualquer coisa em qualquer lugar não é ser nada.

Um dia, a gente descobre que se despedir é olhar de relance para tudo o que fica, para todas as coisas nascidas da comunhão de um instante que já foi eterno. Mesmo com essa lembrança, a gente não quer ficar porque não se sente mais em casa. O coração está adormecido e não se emociona com a risada do outro que antes era sol e abrigo.

Um dia, a gente, simplesmente, cansa de tentar arrumar a casa, ajeitar a mobília quebrada. A gente cansa de doer sozinho e sofrer por tantas ausências premeditadas. No fundo, a gente quer que tenha reciprocidade, a gente quer ser lar em beira de estrada, mas também quer ser luz acesa no coração do outro.

A gente não quer ser só passagem, travessia e meio pelo qual alguém faz alguma coisa. A gente quer ser o desfecho daquela história bonita, sonhada com laços e arranjos de fita. Mas, a gente se dá conta que era só rascunho e sombra no caminho do outro. A gente percebe que era só um nome avulso numa folha qualquer, um ancoradouro para abrigar alguns cansaços. Um estepe. Um talvez.

A gente se despede quando percebe que não faz mais sentido ficar se o coração do outro só se ressente, não perdoa e não ama mais. A gente se resgata indo embora sem olhar para trás, sem tentar lembrar que partir pode ser um erro imperdoável, mas que ficar não pode ser mais nada.

Ester Chaves, escritora Brasiliense, graduada em Letras e estudante de Gestão e Produção Cultural.

De uns tempos pra cá, mudei. Foi a melhor coisa que fiz - por Ester Chaves

De uns tempos pra cá, mudei. Comecei a dar a importância que as coisas têm e parei de sofrer por bobagens. Se antes, ponderava muito antes de sair das relações e ficava como porteiro desequilibrado tentando controlar o fluxo e as despedidas, hoje ajudo a fazer as malas e fecho a porta sem arrependimento.

Não, não me tornei uma pedreira. Não sou insensível. O meu coração continua bobo por sutilezas, tem predileção por exageros bonitos, bate na frequência mais forte, e às vezes, fica descompassado e louco quando se depara com alguma beleza extravagante. O que acontece é que não faz sentido colocar intensidade nas coisas que não vibram. Despejar amor em corações baldios e improdutivos. Se dedicar a quem não sabe o que é ter alguém que se preocupa com a qualidade do seu dia e que espera ansiosamente pelo carinho do seu abraço. Alguém que cuida e se doa nos mínimos detalhes só pra ver a dança da felicidade se exibindo no seu rosto.

Toda mudança requer um olhar demorado sobre as coisas, e ainda me pego pensando nos penduricalhos inúteis que guardei ao longo dos anos; amizades de ocasião, que duraram apenas o quanto pude dar a elas a minha melhor versão. Pseudoamores que despejaram uma carga de insegurança na minha vida e me fizeram duvidar de que o pré-requisito pra ter o amor genuíno é cultivar o próprio. A vida virou uma extensa passarela, onde vi tudo se exibir com pressa e se desmanchar, sem nenhum entusiasmo, sem nenhuma verdade, sem compromisso algum com a reciprocidade. Pessoas que chegaram, interpretaram suas cenas com calculada frieza e desapareceram.

Hoje cuido dos meus afetos com demorada alegria. Sem deixar os meus desejos pra depois. Sem estocar os sentimentos porque coração intenso é órgão que vive exposto. Mas, compreendi que é preciso domesticar os ímpetos e fazer triagem do que fica, de quem fica nestas terras sagradas, neste coração que não precisa sofrer quedas desnecessárias pra descobrir o quanto é importante. Hoje, sei me despedir sem achar que é o fim do mundo, sem imaginar que viver sem uma pessoa vai comprometer a minha vida inteira. Hoje, compreendo que quem não fica é porque não quer. Aprendi que a primeira cláusula de um sentimento verdadeiro se chama “liberdade”.

De uns tempos pra cá, mudei. Foi a melhor coisa que fiz.

Ester Chaves, escritora Brasiliense, graduada em Letras e estudante de Gestão e Produção Cultural.

A fruição do instante na música de Joana Bentes - por Ester Chaves

"Libra com ascendente em violão//muito céu pra pouco chão//".

Com essa descrição poética, é que a cantora, compositora e multi-instrumentista capixaba, JOANA BENTES, se apresenta em uma de suas redes sociais.

 A relação dos contrários, alto/baixo, o céu e a terra, não é vista apenas como extremos limítrofes, mas como medidas de expansão do próprio ser. Soa como um convite para o rompimento dos horizontes possíveis que, por vezes, atuam como prisões. 

A proposta é ser além do que se é. De dentro para fora, mesmo conscientes do quão pequenos e finitos somos, como expõe os versos da canção Instante, parceria dela com o produtor musical Xuxa Levy: “sou pequena aqui/mesmo olhando de cima/ você me vê cantante/ sem medo de mudar”. 

A mudança é um dos temas-chaves do EP Entre (2016), o primeiro disco da carreira de Joana. “Entre”, que já é o “meio”, o “intervalo”, “o interior”, o modo de ser ou estar, em vias de, em trânsito, é também um passeio pela poesia das coisas ─ a captação das belezas cotidianas que levam à contemplação e ao questionamento sobre o que se é/está – um lugar de alternâncias – o espaço/tempo entre o agora e o devir: “você vê o céu todos os dias/e ele é sempre igual/cheio daquilo que você é”. 

O céu, cuja potência transformadora explode em matizes e contamina a nuvem “bomba atômica”, relaciona-se diretamente com os estados anímicos do ser. Os elementos naturais que condicionam a passagem do tempo, refletem nesse “eu-lírico” cantante, que não se apavora com as mudanças.  Na faixa Entre, que dá título ao minidisco, o ‘eu’ se reconhece no ‘outro’ a ponto de perder-se, e vive, portanto, uma aporia. Se despedaça na metáfora pungente: “entrou em mim como um raio/o que ficou no meio?”

O ‘meio’, a ‘lacuna’, o ‘entre’ é o desconhecido. O vão. O que não se revela. O que escapa. O ‘breu’. Reconhecer-se no outro pressupõe um jogo de desvelamento e mistério. “Porque perceber é olhar, e captar um olhar não é apreender um objeto no mundo, mas tomar consciência de ser visto [...]” (SARTRE, 2003, P.333)

--- ASSISTA AO VÍDEO ABAIXO ---

Na canção Ceca, que significa lugar indefinido, distante, há uma consonância entre o ser e as coisas ─ o interior e o exterior dialogam, se fundem e entram em sintonia, formando o todo harmônico, a unidade geopoética. O tempo reúne todas as condições para a chegada do amor: “tô com você/tempo solar/sol que acerta”. Povoar o lugar distante, a ‘ceca’ (pode remeter ao próprio corpo do objeto amoroso), incompleto, deserto, que aguarda, ansiosamente, ser habitado por aquele que ama: “tenho um amor/sei que terá/deixe a porta aberta”. 

A provável receptividade do anfitrião não garante permanência. A passagem pode ser veloz como uma seta. Porém, há o desdobramento do ‘eu’ que veio para ficar e que, em algum momento, se transforma em seta no alvo: “seu beijo ouviu/simples soar/sal veia seca/". A explosão de sensações, inicia uma dança sinuosa de corpos. O beijo provoca e escuta as vibrações da pele; o sal, suor, a veia seca que se dilata e torna a pulsar com o calor do toque. O trocadilho: “sal veia seca”, dá margem ao “salvei a seca”. O lugar distante ─ o corpo árido salvo pela enxurrada de carícias. 

Em Chuva, o descortínio das memórias fortalece a expectativa do reencontro: “e essa chuva que não para/podia te trazer pra mim/eu também posso ir”. Esse mesmo tempo chuvoso, que se abre para dentro de uma paisagem nostálgica, potencializa os sentimentos e resgata as vivências do passado, funciona também como elemento de projeção, onde há uma expectativa em jogo: “o tempo é bom/dá pra pensar em tudo que importa”. “O que importa?” O ‘eu’ que se pergunta em voz alta, já sabe a resposta: “a gente desliza fácil” / “(já falei que dá certo)”. 

A relação amorosa é perpassada pela dúvida. Há uma desconfiança sobre o ato da entrega, que culmina na afirmação da existência de um sentimento intenso, soberano e resistente: “você nem esperava que eu fosse me molhar assim”. “A gente desliza fácil” /” (já falei que dá certo”). Os sentimentos vão se intensificando no decorrer da canção. A chuva que respingava memórias, como uma transparente onda de afagos nas vidraças, agora irrompe numa incontrolável tempestade de emoções, que é a própria reverberação da ausência do objeto de amor: “você também é tempestade em mim”. 

Quantos nomes pode ter a saudade? Quantas cores? Fisionomias? Gestos? Vozes? Saudade é amor, é uma canção que passeia pelos recônditos espaços da falta. A saudade que dói. Que é vazio. Memória. A saudade que é uma pessoa. Um lugar. Melancolia. Apreço. Amor. Ausência. Nuances que vão acentuando os rumores em torno desse sentimento que pode evocar sentidos totalmente contraditórios: “saudade que não dorme é amor”. “Evocar é trazer de volta, é presentificar o que se enuncia.  É tornar próximo o objeto que está longe, com todas as vivências, percepções e sentidos que suscita, como destaca o filósofo Heidegger, no livro A Caminho da Linguagem (2011): “Nomear é evocar para a palavra. Nomear evoca. Nomear aproxima o que se evoca. (...) A evocação convoca. Desse modo, traz para uma proximidade a vigência do que antes não havia sido convocado”. (HEIDEGGER, 2011, p. 16)

Convocar a saudade é senti-la outra vez, em toda sua efervescência e plenitude. Resgatar o que ficou perdido no espaço/tempo, mas que está sempre em vigência na memória do coração. Nomear a saudade é eternizar as experiências, realçando as categorias da afetividade, tornando-as inesquecíveis: “saudade tem um nome/saudade tem a cor/saudade que se forme é amor”.

Joana é artista das palavras, texturas, cores e sons. Em seu canto, evidencia e explora todas as possibilidades de enaltecer o que vibra, brota e toca fundo. Canta a potência do ser e os seus desdobramentos ─ o inaudito, a fruição do instante, o que é/será. A natureza e o cotidiano com todos os seus arranjos, suavidade e graça estão presentes nessa música movente, que representa de forma sublime todos os fascínios da poesia.

Site: www.joanabentes.com.br
Facebook: www.facebook.com/joanabentes
Instagram: www.instagram.com/joanabentes
Soundcloud: soundcloud.com/joanabentes
Youtube: www.youtube.com/c/joanabentes
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Fotografia: Vicente de Mello

REFERÊNCIAS 
MARTIN, Heidegger. A linguagem. IN A caminho da linguagem. Trad. Márcia de Sá Cavalcante Schuback. 5ª edição. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista SP: Editora Universitária São Francisco, 2011.
SARTRE, J. P. O ser e o nada – Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Trad. de Paulo Perdigão. Petrópolis, Editora Vozes, 2003

Ester Chaves, escritora Brasiliense, graduada em Letras e estudante de Gestão e Produção Cultural.

 

Precisamos falar sobre o seu amor: o próprio - por Ester Chaves

Quando alguém diz “se cuida” é porque sabe que em algum momento você pode se distrair e cuidar mais dos outros do que de si mesmo. Cuidar do outro não é pecado nem crime, desde que você esteja em dia com o seu amor-próprio.

Amar a si mesmo é um exercício diário que nos coloca em consonância com o ser que nos habita. Mas, antes de se amar, você deve se conhecer, e se amar pelo que descobrir. Não importa o quê.

O amor-próprio não é autoexplicativo nem vem com bula. O amor-próprio não sente culpa pelo que vê. Não acusa o reflexo no espelho. Não ataca. Aceita o que é, e ama. Apenas ama.

Se há algo a ser transformado, não se ofende. É paciente. Ama com o problema em vigência e ama ainda mais com a resolução, com o avanço, com a vitória.

A descoberta do amor-próprio se dá pelas vias mais improváveis. Às vezes, você o descobre por meio de uma fratura exposta na alma. A fragilidade desperta o amor que deveríamos nos doar todos os dias. Usamos o estoque de amor para estancar o sangramento e descobrimos que não é preciso buscar amor fora de nós para aplacar o que dói.

Quando nos deparamos com os machucados mais doloridos, descobrimos em nós mesmos, o remédio e a cura, e iniciamos o flerte com o amor, o próprio.

O autoconhecimento não oferece todas as certezas, mas abre vias para caminharmos por dentro de nós sem nos ferir com os cacos de outras guerras porque já sabemos quais as estradas que nos conduzem aos abismos, e só iremos lá com o preparo necessário. Sabemos que temos a ferramenta primordial, o amor pelo que somos, e assim, não tememos a queda livre, pois seremos capazes de levantar com classe a cada descida.

O amor-próprio recupera a íntima carícia, que às vezes, oferecemos aos egos alheios, e esquecemos de nutrir a nossa alma que padece pelos cantos do ser. O amor-próprio não é aquela voz que diz “se cuida”. Ele é o próprio cuidado.

Ester Chaves, escritora Brasiliense, graduada em Letras e estudante de Gestão e Produção Cultural.

Amar, às vezes, significa aprender a aceitar o fim - por Ester Chaves

Há quem não saiba aceitar que o amor acaba.
Recorda o último encontro inúmeras vezes como se pudesse editar as falas, abrandar os gestos e resgatar a companhia.

Vive em prol dessa façanha impossível. Se sente culpado por não conseguir mais despertar no outro a intensidade afetiva que havia antes do rompimento.

A partida se torna um ato inconcebível. Uma ficha que nunca cai. Não consegue dar corda na vida nem cogita a possibilidade de viver outra história. Não sabe mais andar sozinho. Anda com dificuldade, esgueirando-se nas lembranças do outro. Usa os objetos esquecidos como suporte.

Sofre do excesso da falta. A mudança repentina no status do relacionamento atrasa o relógio biológico do lar. Não consegue modificar o ambiente porque tudo serve para resgatar a presença de quem não mora mais ali. Qualquer objeto vira peça decorativa, souvenir, com o cheiro e gosto de saudade. Tudo vira amuleto.

A saudade desencadeia o mesmo ritual de uma homenagem póstuma. A mobília não será trocada para manter a memória do outro sempre ao alcance, como se já não apunhalasse o coração diariamente.

Nada poderá ser alterado até que a ausência prolongada se encarregue de esclarecer os fatos. A teimosia emocional acaba se rendendo à quantidade de provas que vão surgindo.

Quando o relacionamento acaba com uma das partes ainda amando, há um choque de comportamentos, onde um estava a todo momento ensaiando a despedida, como se o parceiro tivesse a obrigação de detectar os sinais, e o outro, distraído, levava a vida como se tudo caminhasse normalmente.

Um relacionamento acaba por diversos motivos, mas o principal é por não haver mais amor. Quem ainda ama, tentará utilizar as juras do primeiro encontro como estratégia de convencimento. Enfeitará o lugar da ausência para forjar compreensão. Perdoará o desinteresse, transformando-o em mera distração. Confundirá a falta de amor com um cansaço qualquer. Justificará o abandono como uma trégua reflexiva. Um retiro espiritual onde um pensará no outro com afeto.

Mas as tentativas de subornar a verdade duram pouco. Quem ama precisará compreender a cronologia do rompimento. Sentirá necessidade de rebobinar os fatos para encontrar evidências de que não é mais amado. Quem ama quer ter certeza que não foi omisso. Que não foi covarde. Que fez tudo para dar certo. Quem ama revisita o passado, incansavelmente, até se dar conta que não dói mais. A lembrança é um mausoléu a céu aberto. Quem visita sem sofrer, sabe que está pronto para amar novamente.

Ester Chaves, escritora Brasiliense, graduada em Letras e estudante de Gestão e Produção Cultural.

O Fantástico Clube dos Intensos - por Ester Chaves

Prazer, nasci com a alma transbordante.

Sinto tudo derramando, e não sei explicar porquê acontece e se há algum remédio para isso.

Se houver cura, dispenso. As coisas normais não me atiçam. Não me aceleram. Não me continuam.

Preciso da sofisticação do que é aparentemente simples. Do abraço da brisa nos poros. Dos respingos do sol adornando a tarde. Da carícia na ponta dos dedos, da massagem demorada nas costas. Preciso sentir que há um outro. Preciso senti-lo existindo, respirando perto, pulsando, trocando ideias e experiências. Preciso dessa vizinhança das almas que conversam até mesmo sem nada dizer.

O ritmo lento da normalidade não me empurra, não me anima. Não me agita. Não me faz querer voar para a voragem dos olhares que troco na rua, para os encontros que fazem com que as almas se encaminhem para dentro de si mesmas e se abracem por dentro.

Eu não nasci para o morno. Eu não nasci para a realidade pálida que não se oferece à ousadia. Eu não nasci para os dias parados e sem cores. Eu nasci para pintar. Eu nasci para amar intensamente, de dentro para fora! Por dentro e por fora, sem medo do não e do adeus repentino. O único medo é não avançar quando quero. Não amar quando posso. Quando o coração sinaliza que já não dá para desconversar e mudar a estrada.

Eu nasci para o fogo, para intimidade quente de um cobertor dividido. Para um sorriso que se abre sem procurar motivo. Para o café forte coado no coador de pano. Para o delírio de uma bela canção executada no violino.

Quem é intenso, é delicado, é esvoaçante. Tem renda no pensamento e mania de levitação.

Ser intenso é reconhecer-se em tudo, é colocar borda na alma dos outros. É retirar o tapume dos olhos quando a realidade ameaça a doçura.

Quem é intenso sabe o quanto pode ser considerado estranho por “sentir demais” num mundo de palavras e sentimentos tão mecânicos, onde qualquer demonstração de afeto é confundida com fraqueza.

Fraco é quem não sabe mais sentir. Quem não sabe abraçar com o olhar. Fraco é quem joga a toalha e vive no modo “automático”. Sentindo pouco, guardando emoções para usar depois, estocando sentimento para uma oportunidade especial.
Especial é ser intenso. E quem disse que não tem lágrimas?

O coração do intenso não é blindado. Vez ou outra, uma pancada forte o acerta em cheio, e ele, dolorido, reclama, arde, soluça no travesseiro e pede proteção. A tristeza às vezes bate à porta, maltrata, derruba algumas certezas, revira alguns sonhos, esculacha, mas não é capaz de matar a esperança.

A esperança nos intensos é como um membro primordial do corpo, não é possível arrancar. Não se desfaz à toa. A esperança nunca anda só. Quem tem esperança tem artimanha e carta na manga para reerguer o castelo depois da tragédia e ainda sobra disposição para fazer graça.

O grande trunfo do intenso é, sem dúvida, a sua capacidade de não saber disfarçar o que sente. Os sentimentos estão sempre falando alto, se espalhando pelos gestos, orquestrando as ações. O intenso nunca nega o que é. A alma não deixa…

Ester Chaves, escritora Brasiliense, graduada em Letras e estudante de Gestão e Produção Cultural.

A Louça da Noite Anterior - por Ester Chaves

Não há nada mais horripilante do que acordar de manhã e se deparar com a pia convulsionando louça suja. O caminho até o filtro vira um congestionamento de copos bêbados e insatisfeitos. As vasilhas acotovelam-se no canto da pia. Os pratos treinam o equilíbrio numa gangorra perigosa.

A louça da noite anterior é uma vingança que te dá “bom dia”.

Uma gargalhada estridente que reverbera enquanto você come Sucrilhos.

De dentro do pijama azul-celeste você ensaia uma reclamação. Quer apontar um culpado, mas não adianta. Você mora sozinho.

Louça suja não faz pacto com a meteorologia. Não faz amizade com tempestades ou vulcões. Louça suja esbanja paciência. O arrependimento não tem poderes autolimpantes e o seu erro só será perdoado com água e sabão. A alegação é sempre a mesma, “não tinha tudo isso”. Você exclama dentro de um silêncio sofrido, como se a mágoa fosse capaz de lavar os copos. Uma lágrima quase cai. A sua fisionomia é de quem cometeu um crime, deturpou um mandamento doméstico. “NÃO DEIXARÁS LOUÇA SUJA NA PIA”, você deixou.

Ela se multiplica para rir do seu espanto. Nessas horas, até a panela de pressão comparece ao “Baile dos Pratos Sujos”. Você caminha pensativo, anda de um lado para outro na cozinha, quer decompor a noite anterior. Refaz os passos, ordena a memória em arquivos e nada. Você não deu festa. Não recebeu convidados para o jantar. Não fez estrogonofe. Não fritou ovo. Você só esqueceu que é reincidente nesse crime, e sujeira tem memória visual. As noites anteriores acumularam as infrações e a pia apenas fez o seu papel de caixa registradora. Agora, você está acuado, nem pode dizer “lavo as minhas mãos”.

Ester Chaves, escritora Brasiliense, graduada em Letras e estudante de Gestão e Produção Cultural.

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