O Reflexo Da Nossa Identidade - por Fabiana Souza

O Reflexo Da Nossa Identidade - por Fabiana Souza

Na  busca pela nossa identidade, o espelho emerge da Mitologia Grega banhado pelas águas que hipnotizaram Narciso. O diálogo entre o sujeito e o seu reflexo expressam um universo inconsciente adormecido, disposto a projetar, no outro, as qualidades repudiáveis que o sujeito nega existir em si mesmo. 

A percepção distorcida do sujeito em relação à sua natureza espiritual converge sua consciência a identificar monstruosidades e aberrações como características inerentes à personalidade de outros sujeitos. E é na negação do outro que o sujeito toma consciência de si, individualizando-se por um processo traumático de desvinculação dos demais seres, essencialmente, iguais a ele. 

Como essa individualização recai em falsidade ideológica, o sujeito perde-se na alienação dos sentidos, tomando por realidade um mundo ilusório e impermanente e sofrendo as agruras dos vícios criados para o sustento de suas máscaras.

Narciso morreu apaixonado por si mesmo. Definhou à beira de um lago, absorto do mundo, obcecado pela beleza da sua imagem refletida nas águas. Narciso pode representar a exacerbação do ego, o egoísmo e a vaidade humana sem limites. A Psicanálise aponta o narcisismo como uma etapa da fase oral. A organização psíquica infantil tende a viver o mundo interno de fantasias como realidade, apreendendo a realidade externa objetiva, apenas, parcialmente.

Outras interpretações do mito propõem que essa paixão tenha sido deflagrada por uma visão transcendental. Mirando-se nas águas serenas do lago, Narciso teria distinguido a sua verdadeira natureza, infinitamente mais bela do que a sua constituição física. Perplexo com a perfeição que jazia em si mesmo, ficou impossibilitado de desviar sua atenção da grandiosa imagem que se revelava aos seus olhos como um segredo divino. 

O espelho só mostra as coisas como elas são. Mas as coisas podem ser de muitas maneiras. Depende do olhar. A verdade não é estática, está ora aqui ora ali, bailando aos olhos da subjetividade. Assim como a água, que flui por todos os lugares, mudando a sua coloração, grau de pureza, densidade e temperatura sem, no entanto, deixar de ser água, a realidade imprime a ação do tempo em nossa alma, transmutando a nossa percepção do passado, do presente e do futuro, sem que as coisas deixem, no fundo, de ser o que elas sempre foram e serão.

A realidade objetiva, talvez inacessível em sua completude, traz o narcisismo à tona mais uma vez. Deixando as fantasias da infância de lado, o drama da percepção objetiva fragmentada nos persegue em outras instâncias do nosso processo de amadurecimento. O espelho é o outro eu. O espelho é o marido, o pai, o filho, o patrão, o vizinho. O espelho nos confunde a cada olhadela. Pela óptica do outro, jamais saberemos quem somos na realidade. Mas sem o outro, nem sequer podemos ser.

A família é o primeiro polo de manifestação da desigualdade social. Cada irmão aparece em cena como um personagem diferente, fantasiado aos moldes de seus desejos. Mas o espelho em que se olham para ajeitar a fantasia é sempre o mesmo: o pai e a mãe. Essa primeira delimitação da personalidade dos filhos é chamada de educação. Os pais educam seus filhos para que eles vejam aquilo que eles mesmos conseguem ver, numa projeção bem intencionada de seus próprios desejos. Todavia, essa projeção não se limita somente à infância dos filhos, sendo carregada, inconscientemente, para a fase adulta deles. 

A família, o Governo, a mídia e a religião são apenas alguns dos fatores que influenciam na formação da opinião pública e do "bom-senso" regulador da ética na sociedade, seja através do sugestionamento psíquico seja através da força física. Nós não somos livres. A liberdade é uma ilusão de óptica. Nossas atitudes são condicionadas por padrões mentais e emocionais adquiridos, numa reação automática à diversidade de ideias e emoções de outros indivíduos. A sensação de estarmos sendo manipulados é a causa da frustração interna de cada um. E quanto mais frustração reconhecermos existir em nós mesmos, maior será a nossa tendência de manipularmos, também, a visão dos outros. 

Sim, estamos vivendo em um labirinto de espelhos, onde a única imagem verdadeira é a da nossa ignorância. A violência é a projeção mais simplória da inconsciência espiritual. Mas a ignorância da nossa condição se projeta de múltiplas maneiras. Fica difícil, por exemplo, definir claramente os limites e os objetivos da manipulação quando circulamos em meio à erudição. Na ciência, tudo parece se difundir com muita propriedade, obedecendo aos mais rígidos critérios de validação da lógica. Com o mais impugnável dos argumentos, porém, assumem-se os erros do passado e promulgam-se tantos outros para o futuro. Tudo em nome de um bem maior. Desde que os méritos e os resultados das manobras políticas satisfaçam os interesses particulares de cada membro da sociedade, mantêm-se a roda girando e os bolsos cheios de perjúrio.

Prefiro acreditar que Narciso tenha morrido por flertar com o Absoluto. A flor de lótus que nasce às margens do lago agracia a sua contemplação. Longe das teorias confinantes do "conhecimento humano", o Absoluto tudo abarca, tudo aceita, tudo transmuta. Dessarte, a liberdade conquistada por Narciso não está na morte do corpo físico, mas na aniquilação de qualquer tipo de enquadramento social. Nós vivemos em liberdade condicional. Para se ganhar alforria do mundo criado pelas nossas ilusões, há de se ver no espelho não aquilo que se quer, mas aquilo que deve ser visto. Podemos começar por abrir os olhos e focar no essencial, lembrando que já não somos mais uma criança.

Acesse: www.fengshuidesign.com.br

Professora de Filosofia Oriental, graduada em Filosofia pela UFRGS em 2008. Dedica-se à pesquisa e à prática da Sabedoria Oriental há mais de 20 anos. Especialista nas técnicas do Feng Shui Tradicional e na análise dos sistemas astrológicos chineses Bazi e Zi Wei Dou Shu.

Decoradora, artista gráfica e designer de peças exclusivas de decoração desde 1998. Presta consultoria residencial e comercial de Feng Shui Tradicional Chinês utilizando toda a sua experiência filosófica e estética na construção da identidade visual de empresas e na criação de projetos de harmonização oriental para comércios e residências.

Na área da Educação, oferece os serviços de Orientação Vocacional para crianças e de Orientação de Carreira Profissional para jovens e adultos. Na área da Saúde, trabalha com a Dietoterapia Chinesa baseada na análise dos biótipos constitucionais.

Dá palestras motivacionais direcionadas para os mais diversos segmentos do mercado, cursos profissionalizantes e workshops.

 

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