A Xerife de Getúlio - por Franco Vasconcellos

A Xerife de Getúlio - por Franco Vasconcellos

Brilhante e dourada, habitava certa lapela que passeava pelos corredores do colégio, impondo-se como símbolo de autoridade - e olha que naquele tempo, meus colegas e eu nem sabíamos, como sabem os alunos de hoje, que poderíamos nos insurgir contra as autoridades. A estrela metálica ratificava o respeito que tínhamos pela Irmã Gelma. Quem foi aluno dela sabe do que estou falando. A professora era uma figuraça.

Fazíamos macarrão. Centenas de quilos de macarrão. Passávamos tardes e tardes no salão paroquial, em meio a ovos e sacos de farinha. Algumas mães faziam a massa, outras limpavam, outras colocavam no cilindro. A gente entregava as encomendas. O objetivo era angariar fundos para a excursão do final de ano do Santa Clara. No mesmo ano iniciei meu curso de datilografia – precisava investir no meu futuro profissional.

O ano que morei em Getúlio Vargas (1989 – o ano em que nossos pais elegeram o Collor), me fez crer pelas últimas duas décadas que esta seria a cidade ideal para criar meus filhos. Retornei. Ainda conserva a pecha de cidadezinha pacata do interior. O que mudaram foram as pessoas. No meu imaginário adolescente, conservava a imagem que levei comigo. 

Voltei para lá e ficava chocado ao encontrar um antigo colega fazedor de macarrão e perceber que o tempo passou também para ele. Também o comportamento agressivo e 'nem aí pra nada' do jovem de hoje, me choca. Éramos inofensivos. 

Algum tempo depois (1992), durante o segundo grau, pintamos a cara e formos para as ruas. Acreditávamos que poderíamos derrubar o presidente. Aprendemos a escrever 'impeachment'. Foi a última vez que vi a juventude se unir em torno de algum objetivo. Derrubamos o Collor e nos acomodamos.

Sem acesso ao Google e às coisas que aconteciam além do que víamos no Jornal Nacional, participávamos mais ativamente e com responsabilidade. Éramos mais responsáveis e interessados em fazer o que devia ser feito.  

Quando passo por lá, tento reconhecer as ruas da minha adolescência. Sinto vontade de escrever. Mas escrever alguma coisa que gostasses de ler, que te fizesse feliz e te devolvesse as alegrias da tua infância. Por isso lembrei de tanta coisa. Porque sempre que me lembro de coisas boas do passado, me lembro de Getúlio. Gostaria de saber por onde anda a Irmã Gelma e sua estrela. 

Nunca concluí o curso de datilografia.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

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