Musicoterapia no Hospital Maternidade Oswaldo Nazareth (Rio de Janeiro) - por Alexandre Almeida

Musicoterapia no Hospital Maternidade Oswaldo Nazareth (Rio de Janeiro) - por Alexandre Almeida

Durante minha graduação em Musicoterapia, eu e alguns colegas não conseguíamos perceber a magnitude da utilização de música e seus recursos. Devido a esta inquietação, desenvolvemos por iniciativa própria um projeto de atendimento e aplicação musicoterápica em ambiente hospitalar. Este projeto levou o nome de MUSIAFETO E foi desenvolvido no Hospital Maternidade Oswaldo Nazareth (HMON) localizado no Rio de Janeiro - RJ.  As atividades foram 15 meses contínuos, de 07 de agosto de 2002 até 07 de novembro de 2003, com atendimento duas vezes por semana, na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e na Unidade do Setor Mãe Canguru, totalizando aproximadamente em 270 sessões.

Cabe ressaltar que a ideia inicial do projeto era fornecer atendimento musicoterápico as gestantes adolescentes. Entretanto por diversas razões não houve demanda dessa população embora nossa oferta permanecesse presente e regular. Por solicitação verbal do Serviço Social já realizávamos encontros musicoterápicos com as mães do alojamento que aguardavam na própria Instituição a estabilização do quadro clínico de seu filho de nascimento prematuro. Originou-se então, uma série de discussões em torno do que poderia acontecer em um trabalho musicoterápico entre a mãe e seu bebê em unidades neonatais. A partir daí o Musiafeto, se dispôs a colocar essa discussão teórica como experiência prática. 

Segundo Federico (2001), criador do método Mamisounds, seu trabalho foi iniciado por observação casual de uma mãe interagindo com o bebê. Ela cantava e seu filho prematuro a acompanhava com o olhar. Daí o surgimento de perguntas semelhantes às nossas elucubrações teóricas.

Descrição de atividades

Nosso contato inicial com o Centro de Estudos, em março de 2001, foi através da Divisão Administrativa do Hospital Maternidade Oswaldo Nazareth (HMON), com a entrega de carta – apresentação apontando os interesses comuns entre o grupo e a Maternidade. Quando obtivemos a sua concordância, iniciamos a redação do projeto em si, passando a chamar MUSIAFETO. Este foi entregue em outubro do mesmo ano. E em dezembro, tivemos o aval verbal da então presidente deste Centro, junto a Secretaria Municipal de Saúde. Em 2003, tivemos o conhecimento da necessidade de registro escrito do projeto junto a esta referida Secretaria. Fato que foi devidamente operacionalizado com a atual Presidência deste núcleo acadêmico. 

A organização das sessões, os relatórios e outras atividades burocráticas ocorriam sistematicamente, tanto no HMON, como fora dele. As reuniões internas do MUSIAFETO somaram número de 76. As com os profissionais da Maternidade foram em 15.

O repertório básico utilizado é de acalantos e canções, principalmente as que estão fazendo sucesso nas rádios e novelas. As mães foram muito receptivas, mesmo quando composições foram criadas no transcorrer das sessões.

A primeira clientela atendida foi a de gestantes. Mas por razões burocráticas hospitalares, houve mudança nessas clientes. A população então atendida passou a ser de mães em puerpério e seus filhos internados em unidades neonatais. A intenção no atendimento não mudou: somar sempre ações de saúde, trabalhando em conjunto com as demais equipes.

A literatura musicoterápica aponta a música mecânica propiciando a audição musical e a música viva (violão e voz, por exemplo) como sendo catalisadora da re-criação. As nossas clientes apresentaram comportamento justamente oposto. Ouviam quando era música viva e cantavam quando eram os CDs.

Não foi apenas essa mudança de comportamento que observamos. A primeira proposta: de aumento do vínculo mãe-bebê através de acalantos, aconteceu com variações de leve a intensas. No Canguru ainda fazíamos sessões nesta direção. Mas com as mães do alojamento, geralmente, suas necessidades internas eram de tal monta que permanecíamos com o aquecimento inicial, com canções de suas identidades sonoras.

O grupo sempre teve aspecto de ser aberto, era frequentado apenas pelas clientes que desejavam estar conosco. A sua permanência na Instituição era correlacionada à do bebe. A alta clínica do filho levava a “alta” musicoterápica. Optou-se sempre por sessões de início-meio-fim, nelas próprias, como proposto desde o projeto inicial. Embora tenhamos inúmeras outras dúvidas, esta conduta nos parece adequada, pelo que foi recém- exposto. 

Também houve confirmação de dados de literatura. A relação mãe-bebê estabelecida pela voz materna, ainda na vida intra-uterina (Cyrulnik, 1994), foi por nós presenciada inúmeras vezes (mudança de comportamento do bebê quando sua mãe começava a cantar).

Não se sabe se houve aumento na colocação do bebe em canguru, embora isso fosse objetivo nosso. Existiam sempre razões para o não posicionamento, e sim a permanência no berço ou incubadora. Como trabalhávamos com suas demandas, quando aceitavam a sugestão de posicionar o bebê em canguru, colocavam. Quando não a sessão transcorria com o filho no leito.

Esses relatos parciais alicerçam o nosso discurso primeiro: é uma área nova de atuação em Musicoterapia, buscamos fundamentação teórica, fizemos proposta teorizada de uma prática clínica, e essa mesma prática nos leva a transformações para melhor assistir ao duo mãe-bebê, com potencial de gerar novas condutas musicoterápicas. 

Todos esses encontros forneceram vivências de extrema importância, tanto para as pacientes, como para os integrantes do MUSIAFETO. 

Bibliografia: Barcelos, L. R. M. (1992) Caderno de Musicoterapia I. Rio de Janeiro: Enelivros.
Bruscia, K. E. (2000) Definindo Musicoterapia. Rio de Janeiro: Enelivros.
Cyrulnik, B. (1994). Los Alimientos Afectivos. Buenos Aires: Nueva Visión.
Federico, G. (2001) La Evaluación Diagnóstica en la Musicoterapia Focal Obstétrica. Buenos Aires.

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