A assustadora língua do português - por Franco Vasconcellos

A assustadora língua do português - por Franco Vasconcellos

Estava eu a tomar uma chávena de chá, quando avistei na montra de sandes, um de fiambre. Peguei a bicha, que ia até perto da casa de banho. Fiquei ali, em pé, a ler uma banda desenhada e a chupar um rebuçado. Nisto, tive que atender o telemóvel. Era meu explicador, a dizer que esqueci a minha sebenta em cima do frigorífico. “Acho que larguei ali, quando fui pegar o agrafador”, pensei. E combinei que assim que desse, tomaria um comboio até lá. Acabou a bicha, escolhi meu sandes, abri minha boceta, peguei algumas moedas e paguei a conta.

Calma, leitor.
Morei em Portugal algum tempo. Muitas vezes tive a mesma reação de estranheza ao ouvir nossa língua no sotaque lusitano. Traduzo o texto acima: Eu estava tomando uma xícara de chá, quando avistei na vitrine de sanduíches, um de presunto. Peguei a fila, que ia até perto do banheiro. Fiquei ali, em pé, lendo um gibi e chupando uma bala. Nisto, tive que atender o celular. Era meu professor particular, dizendo que esqueci a minha apostila em cima da geladeira. “Acho que larguei ali, quando fui pegar o grampeador”, pensei. E combinei que assim que desse, tomaria um trem até lá. Acabou a fila, escolhi meu sanduíche, abri minha niqueleira, peguei algumas moedas e paguei a conta.
Menos assustador, não é?
Lá, trabalhei com muita gente que fala português, numa babel de sotaques e dialetos. Gente daqui do Sul do Brasil, de Minas, da Bahia, de Macau, de Angola, Cabo Verde e, é claro, de Portugal. Lá, mesmo entre os portugueses, há vários sons que se misturam. Isso a nova Reforma Gramatical não vai solucionar. Ainda bem.



Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores.
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• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 17 - Setembro de 2014

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