O guri do nariz azul - por Franco Vasconcellos

O guri do nariz azul - por Franco Vasconcellos

Muitos mistérios assolam nossa existência terrena. A mente humana dá lugar aos mais variados questionamentos, sobre os mais diversos assuntos. Há quem procure chupacabras. Há quem sofra com medo do escuro. Há quem elabore teorias sobre corujas “sorteras” - pergunte à Eda, aí de São Chico, ou quem sabe, um dia eu conte aqui mesmo essa outra história. O meu medo da adolescência era mais assustador e envolto em mistérios que qualquer coisa que você, leitor, tenha visto ou duvidado. Eu já morava sozinho. Mas ainda era um guri. Fazia o segundo grau – hoje chamam de ensino médio – em Passo Fundo, em turno integral. Naquele tempo, houve um mistério que me tirava o sono, pois como escrevi ali em cima, eu morava sozinho. Acordava com o nariz pintado de azul.

Na primeira vez, não dei muita bola. Passei uma água, tomei um Nescau, escovei os dentes e fui para a aula. Esqueci do assunto. No outro dia, acordei, me levantei... mesmo ritual de todos os dias. Ao me olhar no espelho do banheiro, lá estava ele, outra vez, me encarando... o guri de nariz azul. Pense num susto. A partir desse dia, acordava, às vezes em plena madrugada, só para dar uma conferida e sempre, invariavelmente, avistava o palhaço gremista do outro lado do espelho. Perdia o sono e divagava... mil teorias sobre o que vinha acontecendo... coisas de outro mundo... Um belo dia, assistindo a um jogo de futebol no meu pequeno televisor Telefunken preto e branco e com bombril na antena, sozinho, acordado, precisei ir ao banheiro e, para meu espanto, lá estava ele outra vez, azulão. Num estalo, encabulado, desvendei o famigerado enigma. Fiquei tão abismado que nem sei como terminou o jogo, sequer me lembro quem jogava. Revelo agora, somente a ti: na frente do meu apartamento, tinha a bodega do Seu Aquiles. Ali, eu, viciado em leite condensado, comprava muitas latas da preciosa iguaria. Bebia, na lata, durante a noite. Fazia um furinho e saciava a minha gula. Acontece que o Seu Aquiles carimbava a tampa da lata com o preço do produto... e o mistério virou piada. Até hoje, mesmo agora, enquanto te conto essa historinha, dou boas risadas. Engordei e parei com o leite condensado.

Franco Vasconcellos e Souza
Gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores.
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• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 20 - Janeiro de 2015

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