Mais uma de mistério - por Franco Vasconcellos

Mais uma de mistério - por Franco Vasconcellos

Essa, conto a pedido da Eda.

Era uma tarde nublada e abafada na cidadezinha do interior. As ruas de chão batido e os terrenos baldios davam um aspecto de abandono e impunham outro ritmo, um tanto mais desacelerado, que permitia a nós, longe dessa nossa rotina frenética, vermos a vida com um pouco mais de poesia. 

Cruzando o estacionamento do prédio do Fórum, em Santa Rosa do Sul, em Santa Catarina, coberto apenas por uma camada de brita solta e barulhenta, pudemos ouvir o estridente e agressivo pio de uma coruja. 

Lá estava ela, pousada sobre a moldura da porta de entrada. Empaquei. Ao qualquer sinal de aproximação, nova reação da coruja. Os colegas foram chegando para o trabalho e esboçavam a mesma reação: uma mistura de medo com asco. Ninguém se atrevia a enfrentar a ave imponente. 

Talvez por ser uma ave de rapina, talvez pelo timbre do pio, sei lá, coruja, por si só já causa uma certa estranheza. Imagine uma gritona, agressiva e agourenta. 

As corujas sempre despertaram a nossa curiosidade e imaginação. Creio que devido aos hábitos noturnos, a vocalização lúgubre, morfologia e suas incríveis habilidades de caça, sua presença foi diversas vezes vinculada ao misterioso, desconhecido, associando-as a sinais de azar, morte e infortúnio e o consequente elo com entidades amaldiçoadas, como bruxas, magos e demônios. 

Gosto mais da ideia grega: a visão de uma coruja era previsão de vitória para seus exércitos. Hoje em dia, muitos colégios e professores fizeram delas seu símbolo, popularizando as figuras de corujinha de toga, capelo e com diploma em baixo das asas, sinal de sabedoria. Elas, hoje, estão na moda. 

Fecho o parênteses – acho que sequer abri – e volto à minha história.

Cada colega que chegava para trabalhar lançava as mais variadas teorias para justificar a visita da ave, até que chega a Dona Leoberina. Já com uma certa idade, cuidava de nós como filhos, nos servindo chá, café e nos encantando com suas histórias de simplicidade e sabedoria. 

Questionada sobre a atitude da coruja, foi definitiva: “tá braba assim porque deve estar ‘sorteira’”, abriu o guarda-chuva, assustando o bicho, abriu a porta e foi trabalhar. Nós a seguimos. Saudade da Dona ‘Beta’.  

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores. Envie e-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 22 - Março de 2015

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