Gente que vive chorando de barriga cheia - por Franco Vasconcellos

Gente que vive chorando de barriga cheia - por Franco Vasconcellos

Como é bom um banho quente! Como é bom encontrar, por acaso, um amigo do qual se tem saudade! Como é bom o cheiro do café passando pelo coador! Como são boas as possibilidades!

Andamos tão preocupados com o que há de vir e com “as vacas magras”, que esquecemos do que já veio e de alimentá-las. A crise mundial, a falta d’água, a intolerância religiosa e cada novo grande problema que salta, nos impede de nos maravilharmos com os pequenos milagres cotidianos.

Morei, por dez anos, numa pequena vila de pescadores, chamada Santa Fé, numa cidadezinha no sul de Santa Catarina. Todos os dias, rotineiramente, acordava, ficava na cama mais uns minutinhos, levantava atrasado, me aprontava e ia para o trabalho.

Não tinha carro e caminhava pela beira-mar, até a parada de ônibus. Meu vira-latas, o Bóris, me acompanhava pelo trajeto. Sempre assim. Muitas vezes, a pressa era tanta, que nem olhava para o mar. Ele ali, abundante de belezas e despercebido por mim, até que, um dia, já estávamos, eu e o cusco, no trajeto, quando recebi uma ligação. O patrão avisava que poderia chegar mais tarde, por um motivo que nem me lembro.

Parei. Olhei para o Bóris que corria pela praia, na beira do mar, certo de que conseguiria pegar uma das gaivotas. Indesistível, a cada uma que voava ele mudava de alvo.

Vi o mar, a praia, o cão, os pássaros, os pescadores puxando a rede do dia e suas mulheres, ainda na areia, esviscerando a pesca para vender. Nesse dia, alguma coisa mudou dentro de mim e, desde então procuro me maravilhar com as pequenas coisas. Passei a me comover com qualquer coisa à toa, peço conselhos à crianças, descarto o excesso e acho o pouco bastante, visto rosa e ando descabelado, ando de barriga cheia e parei de reclamar.



Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores. Envie e-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 23 - Abril de 2015

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