Sem água, luz ou wi-fi - por Franco Vasconcellos

Sem água, luz ou wi-fi - por Franco Vasconcellos

Abrir a torneira. Acender uma lâmpada. Tão automático quanto piscar os olhos. E tão comum quanto eu estar aqui te falando disso. Não é assim para todo mundo.

(Quem é assíduo da coluna deve pensar que eu morei em tanta casa diferente que já devo ter perdido a conta. E é verdade. Mas nem sempre o que te digo é. Uso de uma licença poética comum a qual, humildemente já me permito).
A casinha ficava há apenas alguns metros do mar. A estrada mais próxima há quase meio quilômetro. Para chegar ali apenas duas opções: a praia e uma picada aberta em meio à capoeira. Não havia sequer um poste de luz. Lá também não havia água encanada. Um poço garantia o abastecimento com água pura e fresca a qualquer hora do dia, que nos garantia o banho, na mesma temperatura. Anoitecer era sempre um espetáculo. Nossos olhos sempre procuravam a luz e não deixavam de perceber os tons de violeta e laranja que o pôr do sol nos oferecia até que restasse apenas o luar.

Mantínhamos as janelas abertas para que os sons da noite e do mar preenchessem o ambiente. No alto do armário de fórmica vermelha, um lampião a gás, coisa muito chique, era aceso e sua chama verde azulada nos iluminava. Dos ambientes, era o único fora da escuridão.
O vistoso lampião nos reunia e nos obrigava a conversar. Sabíamos dos nossos filhos e irmãos, contávamos dos nossos feitos diários. Ríamos juntos de nossas histórias. Dividíamos canecas de café com leite, comíamos peixe frito ou qualquer coisa que nos alimentasse. Quando a mãe decidia que era hora de irmos para a cama, apagava o lampião, e pronto. A noite passava num estalar de dedos. Nosso sono se interrompia com nossa mãe chamando para irmos ao colégio. E um novo dia se iniciava.
Nunca senti falta de nada. Hoje, quando falta energia elétrica, ficamos, em casa, feito estátuas mudas e comemoramos a volta com grande torcida (como disse o Renato).

Alguém aí tem um lampião para vender?

 


Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores. Envie e-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..


• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 24 - Maio de 2015

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