Doroty Gale tem razão - por Franco Vasconcellos

Doroty Gale tem razão - por Franco Vasconcellos

Quando pensei em escrever essa crônica, terminava de organizar as coisas no apartamento onde passei a morar. Pensei seriamente em contar das mudanças que fiz durante a vida. Mentalmente, passei a listá-las e concluí que precisaria dessa e da página ao lado, só para fazer a relação e, com certeza, acabaria por esquecer algum endereço, deixando magoadas algumas construções. Foram mais de quarenta. Só de cidades foram treze. Estados, dois. Países, dois também.
Os mais chegados, seguidamente me dizem que devo gostar muito de mudar. Eu respondo: “Mentira!”. Tenho verdadeiro pavor. A cada uma, reluto mais. Não sei se é consequência do avanço da idade, que vai me deixando mais acomodado, ou se é saco cheio, mesmo.
A busca inicial pelo novo imóvel, já tem causado desânimo... são cada vez menores e mais caros. Depois vem a procura pelas caixas de papelão, mil documentos, alterações na luz, água, telefone, TV, internet... uma mão-de-obra... o vaso de comigo-ninguém-pode que não cabe mais em lugar nenhum, o ventilador que quebrou o pé... pendura quadros, trilhos de cortina, instala chuveiro, pia...

Quando as coisas vão para o lugar, vem a hora da faxina e depois, do júbilo. É hora de curtir. Concordo com Doroty Gale, de “O Mágico de Oz” - Não existe lugar como o nosso lar – e acredito que isso seja um sentimento coletivo. Como é gostoso viajar e conhecer lugares novos. Como são confortáveis as camas dos hotéis. Como são quentes e fortes as suas duchas. Como são fartos os cafés da manhã... Como é melhor ainda a nossa cama, com nosso chuveiro de contagotas e nosso café com pão servido na mesa da cozinha de nossa casa, ô delícia!
Tá lá na Bíblia, no livro de Provérbios: “Com a sabedoria edifica-se a casa, e com a inteligência ela se firma, pelo conhecimento se encherão as câmaras de toda a sorte de bens preciosos e deleitáveis” (24.3-4).
Acho que vem daí a minha facilidade em mudar de local. Levo comigo as coisas que me são preciosas e a eterna certeza de que sempre podemos recomeçar. É isso que faz da casa um lar e é no lar, e isso independe de onde ele seja, que a família se reúne e tudo o que realmente é de valor acontece.

 

Franco Vasconcellos e Souza,
gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores.
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• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 27 - Agosto de 2015

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