Displaying items by tag: Falando Francamente - Revista Usina

O que te identifica? - por Franco Vasconcellos

Num dos trechos de “O Homem do princípio ao fim” - seguidamente falo desse texto, pois o acho incrível, e não são raras as vezes que o releio... assim mesmo, picadinho, pois é construído de retalhos de textos e poemas, Millôr – que retrata o medo do ser humano, há uma frase curiosa: “E aquele menino muito pobre e abandonado, filho de uma família numerosa, quando alguém lhe perguntava quem ele era, respondia tristemente: “Eu? Eu sou aquele, de óculos.””

Há alguns dias, numa dinâmica de grupo, participei de um exercício em que deveríamos escolher seis pessoas para morar conosco em um bunker, pois a cidade estaria para sofrer um ataque terrorista. Os que ficassem de fora, inevitavelmente, morreriam.

A lista trazia um violinista, com 40 anos, narcótico viciado, um advogado, com 25 anos, HIV+, uma prostituta, com 34 anos, uma menina de 12 anos, e baixo Q.I, um homossexual, com 47 anos, ente outros.

Imediatamente, começaram os julgamentos. Enquanto bancávamos os verdugos e nossos concorrentes se aproximavam do cadafalso psicológico, levantaram a questão: Ninguém é somente aquela definição que o exercício propôs, a menina de 12 anos e baixo QI, ou o homossexual de 47 anos, ou qualquer outro personagem poderia ser qualquer um de nós.

O “de óculos”, do Millôr, ou o “gordinho do balcão”, como alguns costumam se referir a mim, apontam para o primeiro em primeira instância... o primeiro rótulo.

Perigoso. Nem sempre o rótulo descreve exatamente o conteúdo da embalagem. Nada como conhecer alguém mais demoradamente para se formar uma opinião.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

O negro espelho, o primeiro-ministro e a porca - por Franco Vasconcellos

Não sou do tipo de assiste séries episódio por episódio, de cada temporada... tenho amigos que dedicam finais de semana inteiros a “The Walking Dead”, ou “Game of Thrones”. Assisto alguns episódios, até para poder formalizar uma opinião. Ontem, assiti o 1º episódio da 1ª temporada de “Black Mirror”. Desde Dogville – Lars Von Trier – que eu não ficava tão incomodado por uma obra.

A série não apresenta uma história sequencial. Cada episódio tem início, meio e fim e não se comunica com o seguinte, ou seja, não tem uma história que perdura por uma temporada inteira. Pode continuar lendo... não vou dar spoiler.

O episódio começa com uma ligação ao primeiro ministro britânico. Ele recebe uma ligação urgente no meio da noite, e para sua surpresa, trata-se do sequestro da princesa mais querida do Reino Unido. Até então vemos um episódio com uma temática normal, que já tínhamos visto em outras séries. O surpreendente é o conteúdo do vídeo publicado no Youtube, contendo imagens da Princesa Susannah em cativeiro e lendo uma lista de requisitos do sequestrador para que ela possa continuar viva.

É aqui que a série te surpreende e mostra muita ousadia. Um dos requisitos do sequestrador é que o Primeiro Ministro faça sexo com um porco ao vivo na televisão britânica às 4 horas da tarde. É com base nesse pedido que o restante do episódio se desenvolve. Vemos um governo abalado, tentando recuperar sua princesa e falhando, o que só piora a situação e mostra até onde uma pessoa sob pressão – neste caso, o ministro – pode chegar, demonstrando vários sentimentos: medo, desespero e etc. O que chama atenção também é o modo que a série demonstra a reação do público e da mídia.

O britânico, sempre tão “por dentro” das coisas da realeza, fica totalmente vidrado no assunto, comentando a todo o momento nas redes sociais a repercussão de todo o caso no mundo.

Assista. Nem que seja para me xingar depois.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

Somos pó - por Franco Vasconcellos

Escrevo isso um dia depois de o avião do time do Chapecoense cair na Colômbia. E escrevo triste. Não torcia pelo Chapecoense. Apesar de haver, no avião, um erechinense, não o conhecia. Mas escrevo triste. Triste não por serem atletas, ou conhecidos, ou bem sucedidos.

Triste por serem filhos, pais, esposos que partiram e deixaram no ar uma vida incompleta. Lhes faltou um último abraço, uma última macarronada de domingo, um último beijo na boca, uma última canção de ninar desafinada na beira de um berço cor-de-rosa.

Mas a vida é assim e tem dessas coisas, não é mesmo?

Aproveite o tempo. Aproveite as oportunidades. Utilize o seu tempo, que não volta mais, com o que é precioso. Numa dessas idas, pode não haver volta.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

Mea-culpa/ O deficiente sou eu - por Franco Vasconcellos

Sempre bati no peito, orgulhoso, por ser livre de preconceitos, por não ser como as outras pessoas. Hoje, me envergonho disso. Talvez eu te choque, leitor, mas é impressionante o quão despreparados para lidar com as diferenças nós somos. Excluímos, muitas vezes, pelo fato de não querermos/sabermos como lidar com as pessoas que trazem deficiências diferentes das nossas.

Agradeço à Gabriela. Naquele semestre eu cursava uma disciplina em uma turma que não era a minha “de sempre”, na faculdade de Direito. É anã. A cumprimentava de longe... Deus me livre de apertar aquelas mãozinhas com dedinhos curtos... Era incrível, raciocínio rápido e inteligente, boa amiga. Aos poucos, fui me distraindo, até que fui me libertando da marra e deixando a admiração tomar lugar.

Hoje, cada vez que me deparo com situação semelhante, eu, tão comunicativo e tão perspicaz (sqn), ainda dou aquela travada básica. Noutro dia, durante a eleição para prefeito, estava trabalhando e um cego chegou à seção. O encaminhei até a urna, votou em seu candidato... o aviso sonoro “FIM”, não vinha... Eu, na minha habilidade: “Clica no verde, senhor!”. Ele, doce: “Meu filho, não sei o que é verde!”. “Toma!”, pensei. Me envergonhei, me desculpei... fiquei chateado comigo mesmo.

A saia justa, é justa mesmo, com a maioria das pessoas, tanto que chegam haver algumas cartilhas de como se portar nesses casos.

Eis alguns “toques” interessantes:
- Os termos ”cego” e “surdo” podem ser utilizados;
- Ao conversar por mais tempo que alguns minutos com uma pessoa que usa cadeira de rodas, se for possível, lembre-se de sentar, para que você e ela fiquem com os olhos no mesmo nível.
- A cadeira de rodas (assim como as bengalas e muletas) é parte do espaço corporal da pessoa, quase uma extensão do seu corpo.
- Pergunte e saberá como agir e não se ofenda se a ajuda for recusada.
- Não se acanhe em usar termos como “andar” e “correr”. As pessoas com deficiência física empregam naturalmente essas mesmas palavras.
- Algumas pessoas, sem perceber, falam em tom de voz mais alto quando conversam com pessoas cegas. A menos que ela tenha, também, uma deficiência auditiva que justifique isso, não faz nenhum sentido gritar. Fale em tom de voz normal.
- Não se deve brincar com um cão-guia, pois ele tem a responsabilidade de guiar o dono que não enxerga e não deve ser distraído dessa função.
- Ao falar com uma pessoa surda, acene para ela ou toque levemente em seu braço, para que ela volte sua atenção para você. Posicione-se de frente para ela, deixando a boca visível de forma a possibilitar a leitura labial. Evite fazer gestos bruscos ou segurar objetos em frente à boca. Fale de maneira clara, pronunciando bem as palavras, mas sem exagero.
- Enquanto estiver conversando, mantenha sempre contato visual. Se você desviar o olhar, a pessoa surda pode achar que a conversa terminou.

A minha dica: tente se colocar no lugar do outro.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

E os anjos fumam seus charutos - por Franco Vasconcellos

"... Jamais voltaremos a ser que éramos antes da morte de um ente querido. Morremos também e em nosso lugar surge um outro de nós, meio Highlander."

Essa semana, aqui em Erechim, morreu um rapaz de 18 anos. Fiquei sabendo no grupo de Whatsapp da minha família (o nome do grupo é uma homenagem póstuma - :D Vovó Miroca). Nem conhecia o guri. Mas a comoção era percebida em cada post. Estavam chocados. Não é normal nem esperado que pais enterrem filhos. Essa era a dor da qual falavam. Mesmo que a única certeza seja a morte, quando vem fora da ordem natural, provoca espanto e dor.

Dentre as mensagens recebidas estava uma em particular, atribuída à Danilo Sousa,que me trouxe admiração, não pelo texto, mas pelas imagens: “O céu se alegra com uma reação de maternidade a funerais. Os anjos vêem os enterros dos corpos do mesmo jeito que os avós monitoram as portas das salas de parto. ‘Ele sairá a qualquer minuto!’ Eles mal podem esperar para ver a pessoa que está chegando. Enquanto nós dirigimos carros funerários e vestimos preto, eles estão pendurando fitas rosas e azuis e distribuindo charutos.”.

A esse sentimento, complicado e particular, chamamos de luto. O luto nos concede uma certa carta branca, aleluia, e nos dá, por alguns instantes, o direito de sermos irracionais sem passarmos por julgamentos. Poucos são capazes de condenar a atitude de alguém que acabou de passar por uma perda dolorosa, ao contrário, solidarizam-se e dividem a dor.

O luto é importante e deve ser vivido. É um tempo que permite o “cair da ficha” e faz com que a mente trabalhe para aprender a viver sem a pessoa que partiu. E essa perda implica em uma mudança pessoal. Jamais voltaremos a ser que éramos antes da morte de um ente querido. Morremos também e em nosso lugar surge um outro de nós, meio Highlander.

E além disso, há a vida, que segue em frente.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

A Xerife de Getúlio - por Franco Vasconcellos

Brilhante e dourada, habitava certa lapela que passeava pelos corredores do colégio, impondo-se como símbolo de autoridade - e olha que naquele tempo, meus colegas e eu nem sabíamos, como sabem os alunos de hoje, que poderíamos nos insurgir contra as autoridades. A estrela metálica ratificava o respeito que tínhamos pela Irmã Gelma. Quem foi aluno dela sabe do que estou falando. A professora era uma figuraça.

Fazíamos macarrão. Centenas de quilos de macarrão. Passávamos tardes e tardes no salão paroquial, em meio a ovos e sacos de farinha. Algumas mães faziam a massa, outras limpavam, outras colocavam no cilindro. A gente entregava as encomendas. O objetivo era angariar fundos para a excursão do final de ano do Santa Clara. No mesmo ano iniciei meu curso de datilografia – precisava investir no meu futuro profissional.

O ano que morei em Getúlio Vargas (1989 – o ano em que nossos pais elegeram o Collor), me fez crer pelas últimas duas décadas que esta seria a cidade ideal para criar meus filhos. Retornei. Ainda conserva a pecha de cidadezinha pacata do interior. O que mudaram foram as pessoas. No meu imaginário adolescente, conservava a imagem que levei comigo. 

Voltei para lá e ficava chocado ao encontrar um antigo colega fazedor de macarrão e perceber que o tempo passou também para ele. Também o comportamento agressivo e 'nem aí pra nada' do jovem de hoje, me choca. Éramos inofensivos. 

Algum tempo depois (1992), durante o segundo grau, pintamos a cara e formos para as ruas. Acreditávamos que poderíamos derrubar o presidente. Aprendemos a escrever 'impeachment'. Foi a última vez que vi a juventude se unir em torno de algum objetivo. Derrubamos o Collor e nos acomodamos.

Sem acesso ao Google e às coisas que aconteciam além do que víamos no Jornal Nacional, participávamos mais ativamente e com responsabilidade. Éramos mais responsáveis e interessados em fazer o que devia ser feito.  

Quando passo por lá, tento reconhecer as ruas da minha adolescência. Sinto vontade de escrever. Mas escrever alguma coisa que gostasses de ler, que te fizesse feliz e te devolvesse as alegrias da tua infância. Por isso lembrei de tanta coisa. Porque sempre que me lembro de coisas boas do passado, me lembro de Getúlio. Gostaria de saber por onde anda a Irmã Gelma e sua estrela. 

Nunca concluí o curso de datilografia.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

Qual seria a sua idade se você não soubesse a idade que tem? - por Franco Vasconcellos

Quando o sábio chinês Confúcio, lá em 500 e poucos a.C. fez o questionamento que intitula essa crônica, nem meus ttravós eram sequer um projeto. Faz tempo.

Agora, no dia 30, completo trinta e oito anos. Estou longe de ser gagá, mas quando era mais novo achava que seria quando fosse um velho de 40. Estou perto então. 

Lá nos idos de 1970, o grande Millôr Fernandes escreveu uma crônica que tratava, em sua essência, da passagem dos anos, intitulada “Ser Gagá”. Uma das frases que trago na memória diz exatamente o seguinte: “(Ser gagá) É dobrar o jornal encabulado, quando chega alguém jovem da família, mas ficar olhando, de soslaio, para os íntimos da coluna funerária”. Íntimos na coluna funerária? Deus não permita!

O espelho é implacável e me mostra o passar dos anos. É certo que tenho andado cansado e que não tenho mais a energia da adolescência. Só não consigo me achar o "tão velho" que minhas filhas acham.

Constantemente dizemos que devemos valorizar o tempo, valorizar os minutos, porque a vida é uma oportunidade a ser aproveitada. No tempo de Confúcio, a velhice era o auge da glória humana, hoje tornou-se um processo contínuo de perdas e de dependência. Creio que o que importe seja aquilo que os estudiosos chamam de idade funcional, ou seja o significado que damos à nossa idade.

Esse significado do qual falei acima, tem se transformado numa velocidade de videoclipe. Em conversas mais informais já utilizo, seguidamente, a expressão "no meu tempo era assim", "no meu tempo era assado"... Noutro dia, na faculdade, onde sou rodeado por guris e gurias recém saídos no Ensino Médio, um professor me veio com um elogio: "Bonita camisa, Fernandinho...". Só eu e ele entendemos a piada. Você mesmo, leitor,se tiver menos de 35 não vai entender... procure no Google... tá lá.

Divagações à parte, o que percebo é que hoje, as menininhas de 11 e 12 anos tem mais peito que as de 16 "do meu tempo"... e que os velhos já não envelhecem tão cedo... Amadurecemos mais cedo... e envelhecemos mais tarde. Me parece que nossa vida útil está cada vez maior. Vamos aproveitá-la, então. Sempre é tempo de restaurar e corrigir, começar e recomeçar... Quanto a estar bonito ou feio... bonito é gostar da vida.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

Humanidade baixa - por Franco Vasconcellos

Sou servidor público. Em meu trabalho, entre outras funções, está a de atender o público. O público é o mais diversificado. Nesses oito anos atendi gente de todos os tipos. Antes disso, trabalhava como repórter – acho que foi durante esse tempo que me fascinei com gente. Das milhares, fiquei encantado com uma senhorinha.

Já pela vidraça avistei a figura. Parecia um personagem recém saído de um filme de Lars von Trier. “Uma velhinha fofa!”, diria minha filha Alice. Os cabelos muito brancos ostentavam um coque desalinhado no alto da cabeça. Chegou até mim e, com muita dificuldade, sentou-se à minha frente, soltando um suspiro dolorido.

Como a maioria dos que chegam, mesmo antes de se apresentar, já metralhou sua história: “Minha humanidade anda meio baixa, meu filho!”. (“Quê?!”, pensei, mas segui ouvindo). “Eu tenho um problema na coluna, mas quando minha humanidade baixa, piora muito... essa dor conversa com essa perna aqui e eu não consigo nem tirar leite das vacas... mal consigo levantar da cama”. Aquela doçura de mulher... aquela vozinha de todos nós, no alto de seus 70 e tantos anos, reclamava mais de não poder trabalhar do que da própria dor. E dor dói mesmo. É um saco.

Fiquei constrangido e me envergonhei das tantas manhãs que, mesmo conseguindo, com minha saúde perfeita, reclamei de levantar para ir ao trabalho (dos principais sintomas de imunidade baixa, que estão relacionados com a diminuição das defesas do organismo contra parasitas, como vírus, bactérias e fungos – infecções recorrentes, como amigdalite ou herpes; doenças que demoram para passar, como gripe; pequenas infecções que agravam facilmente; febre frequente e calafrios; cansaço excessivo; náuseas, vômitos ou diarreia – nenhum me aflige... já o cansaço excessivo!). A expressão “humanidade baixa”, obviamente dita sem intenção, ecoava como um trocadilho em meus pensamentos.

Humanidade, segundo o Houaiss é o mesmo que sentimento de bondade, benevolência em relação aos semelhantes, ou de compaixão, piedade, em relação aos desfavorecidos… acho mesmo que anda em baixa.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

Use boné - por Franco Vasconcellos

Não sou do tipo que reclama à toa. Mas funciono melhor em temperaturas baixas. Esse verão me tirou o couro – literalmente. Numa manhã, bem cedo, de cerração, me enchi de coragem e, branquelo que sou, me besuntei do protetor solar Solar Expertise Invislight Body FPS 50, da L'oréal, peguei uma cadeira de praia verde e amarela MOR, chinelos cinza West Coast, guarda-sol e bermuda ambos em azul e branco e sem marca definida, um boné mofado, me paramentei e rumei ao Atlântico.

Confesso que, logo nos primeiros metros da rua de areia, pensei em desistir. Mas levado pelo oba-oba do resto do povo que insistia, fui. Lá chegando, abri a cadeira debaixo do guarda-sol e me sentei meio torto, porque o guarda-sol era baixo e fiquei ali, torcendo para não ter que correr atrás dele, caso a ventania o arrancasse da areia.

Uns quinze minutos, ou pouco mais do que isso, talvez vinte, já sentia uma leve ardência no peito dos pés que, óbvio, não receberam proteção. Encabulado, me despedi de todos, fiz mil recomendações às minhas filhas, e fui embora para casa.

  

Sentia arrepios. Na ducha para remoção da areia pude ter um aperitivo do que viria pela frente. Cheguei em casa apressado e curioso. Fui até o espelho e me vi, cor de cereja. Meus ombros, que haviam permanecido o tempo todo protegidos estavam cheios de bolhas. Inexplicável. Morei ali por doze anos e nunca havia tomado uma sapecada tão grande. Apenas as costas, pois fiquei sentado na cadeira e o rosto (bendito boné mofado), não se queimaram. Tive que dormir na mesma posição à noite, com uma toalha de banho molhada em cima.

No outro dia, precisei ir ao supermercado. Tive que fazer mil malabarismos para colocar o cinto de segurança sem que ele me arrancasse os pedaços. Improvisei uma ombreira com uma toalha, fechei o cinto e #partiumercado. Esqueci da minha barriga – que não é das menores. O roçar do cinto com a pele beirava o insuportável. Fiquei à sombra o restante dos meus dias de praia.

Ano que vem tem mais. Um conselho? O Bial já te mandou usar filtro solar. Eu te digo: leia o título da crônica.Fran

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

Chutando o pau da barraca - por Franco Vasconcellos

Quando tinha apenas catorze anos, assisti “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante”, rotulado como comédia dramática. Eu o rotulo como “inquietante”, até hoje. Conta de um gângster, que janta todas as noites num restaurante em companhia de seus capangas e sua esposa.

Cansada dos modos violentos e grosseiros do marido, ela flerta com outro frequentador do restaurante. Ao descobrir a traição, o chifrudo mata o amante… o faz engolir um livro, página por página. É o gatilho que dispara uma história cheia de diálogos incríveis. 

(Muitas vezes, ficamos resignados numa condição miserável, acostumados, quietinhos em nossa zona de conforto esperando que a “água bata na bunda”, para, somente aí, descobrirmos o quanto sabemos nadar. E quando essa descoberta acontece, tomamos conhecimento de que nossos limites vão muito além do que podíamos imaginar.

O confronto, geralmente tão adiado por receio de suas consequências, é inevitável e necessário. Tantas vezes, o “não querer se incomodar” acaba trazendo transtornos maiores que “chutar o balde e rodar a baiana”. Acabamos deixando para depois que as crianças crescerem, depois que tiverem concluído a faculdade, depois que o carro estiver quitado, ou quando vier aquela promoção. Os anos vão passando e cada vez mais a inércia vai pesando sobre os ombros.

Virar a mesa pode ser libertador. Como esperar da vida uma resposta diferente diante das mesmas e repetitivas atitudes? Mudar pode provocar no outro – e não falo somente de relacionamentos amorosos – aquela mudança com a qual tantas vezes sonhamos e que nos faria mais felizes.)

No filme, recheado de escatologias, Helen Mirren é magistral. Sem sombra de dúvidas, a sua cena final, o momento em que Georgina, seu personagem, decide que não será mais massacrada pelo marido - quando ela convence o chef a assar o seu amante para que este seja servido ao esposo – ambientada no salão do restaurante, apesar de grotesca é arrebatadora e aguardada pelo espectador.

Que a mudança parta de mim. Até dezembro.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

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