Franco Vasconcellos

Franco Vasconcellos

Transbordar para dentro stars

Logo eu, que sou de me derramar de todas as formas, olhem no que fui me meter. Nada comedido, beirando o superlativo, ouvi um chamado do Céu – sim, acredito em Deus – e fui me habilitar. Me tornei doutor, o sonho da minha mãe.
Mas como pra mim, nada acontece dentro da normalidade, meu doutor usa nariz vermelho e carrega na maquiagem. O jaleco branco ostenta a marca da Trupe da Graça e se confunde em meio aos profissionais de saúde dos hospitais.
Mesmo após a tantas aulas teóricas e tantas dicas dos veteranos, é na própria carne que experimentamos o que é ser plateia de apenas um ouvinte, plateia esta que preferia estar em qualquer lugar que não aquele onde se encontra frente a ti.
Nossa mente está pronta para nudez, vômito, fezes, mau humor, e morte. Isso a gente pensa antes de cruzar a porta e sentir o cheiro frio do hipoclorito nos corredores. Nossa mente pensa que está.
Mas é quando ela se abre que nos deparamos com a surpresa. Abrimos o sorriso, no compromisso de alegrar um pouco toda aquela dor compartilhada por pacientes e familiares. Sempre é novo. Nada se repete. O nó na garganta vai apertando... aperta tanto que parece que vai vazar.


Aprendi a transbordar para dentro. Quem chora é o coração. É uma mistura de tristeza, por tantas pessoas tristes, com uma gratidão tão gigantesca que nunca a havia experimentado. Ninguém devia passar pela vida sem viver tal magnitude de sentimentos.
Após alguns truques com balões, uma ou duas canções, várias risadas e também caras fechadas, é hora de partir. Cruzando a porta de saída, se abrem os canais lacrimais e o choro salgado se mistura à maquiagem branca ao ponto de pingar no chão. O nariz vermelho é removido e o ar novo entra em meus pulmões como um presente.
E assim, de leito em leito, de paciente em paciente, vou me curando de todos os males.

 

 

O Resto da Viagem de Ida - por Franco Vasconcellos stars

Retomando da história da semana passada: Entraram na casa da nossa anfitriã e fizeram uma bagunça fenomenal. Ficamos muito chateados, pois a desconhecida, que levantara de sua cama às 4h30 da madrugada, para nos acolher, havia sido vítima, justamente, no período que havia separado para nos atender. A viagem continuava a dar sinais de que não seria das melhores. Confesso que cheguei a pensar em desistir.
Família inteira na capital... esperamos chegar às 8h da manhã e fomos ao Barra. Ali tem um hipermercado, onde poderíamos nos entreter por algumas horas, para que o dia passasse mais rápido. Ela insistiu e nos levou.

Liquidação
No marcado, havia uma super liquidação de cama, mesa e banho. Óbvio que não podíamos deixar de aproveitar. Esquecemos que já tínhamos malas, mochilas e sacolas abarrotadas para a bagagem. Fomos comprando... muito volume. Quando o shopping abriu, mais compras. Até que, na hora combinada, a nossa condutora, que havia insistido para nos acompanhar até a rodoviária, apareceu. Finalmente era hora de, outra vez, embarcarmos. Calor, sede, crianças pequenas, xixi, cocô, enjoo, Dramin... Insistimos e prosseguimos viagem. Foi tranquila até o nosso destino.

Ho, ho, ho
Era semana de Natal e, no outro dia, mais descansados, fomos às compras. Que loucura! Conseguimos atender todas as “encomendas” e ainda pensar na ceia... lombinho recheado, peru, sobremesas... frutas secas e castanhas... Na véspera de Natal, reunimos a família, trocamos presentes, celebramos o nascimento do Cristo e nos recolhemos. Passamos uma semana reformado e requentando restos do jantar festivo. Tudo perfeito e como manda o figurino. Mas o pensamento na viagem de retorno para casa me causava arrepios.

E agora, a volta
Inexperientes em empreitadas desse tipo, como já te adiantei antes, havíamos nos esquecido de todo o volume de bagagem que levamos para o veraneio, compramos mais no shopping, compramos mais para o Natal, sem falar nos inúmeros presentes que ganhamos... até uma casinha de boneca integrava o conjunto. A bagagem não cabia em um automóvel comum. Tivemos que, no momento de ir para a rodoviária, ocupar um para as malas e outro para a família. Seguimos para Porto Alegre, e de lá, para Nonoai. Na rodoviária, apenas um táxi... o enchemos com toda aquela tralha e fomos a pé para casa.

LEIA A PRMEIRA PARTE: Daria um Filme (A ida) - por Franco Vasconcellos

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

Daria um filme (A ida) - por Franco Vasconcellos

Seguidamente, ao contar alguma das minhas histórias, ouço alguém dizer: “Bah... daria um filme!”. Muitas vezes, eu concordo. Essa que vou te contar é uma delas.
Começava o verão de 2010 e nós sonhávamos com alguns dias de descanso em uma praia. Fazíamos planos mas sabíamos que não seria fácil, sem carro e com duas crianças. Confesso que pensei em desistir.

Preparativos
Quebramos os porquinhos, juntamos nossas economias, nos enchemos de coragem e fui em busca das passagens. Não havia linha de ônibus que fosse de Nonoai (RS), onde morávamos, até Sombrio (SC), que seria nosso destino. A solução era irmos até Porto Alegre, e dá lá seguirmos para o litoral. Confesso que pensei em desistir.
Como era fim de ano e a procura por passagens era intensa, tivemos que nos submeter aos horários para os quais ainda havia passagens. Acabei comentando, no trabalho, que teríamos que ficar em Porto Alegre esperando o ônibus para a praia das 5h até às 14h... mas comprei as passagens até a capital e fiz as reservas para o litoral mesmo assim. Confesso que pensei em desistir.
Aí, passamos o dia nos organizando com bagagens, lanches, remédios, protetores solares e todos os apetrchos que uma viagem desse porte, com duas crianças exige. Tudo pronto. Confesso que pensei em desistir.
Carona para a rodoviária combinada, se aproximava a hora da dita viagem, desci com malas, mochilas, sacolas, crianças... chegamos intactos até a calçada. Subi para chavear a porta do apartamento. A chave partiu como manteiga morna, antes da primeira volta. Como poderíamos viajar e deixar o apartamento aberto? Confesso que pensei em desistir.
Mas fui em busca de um chaveiro – o único da cidadezinha -, às 22 horas e a pé. Ele terminou de jantar e, lentamente, se dirigiu até meu apartamento, resolvendo, em segundos, o problema.

Agora vai
Embarcamos, finalmente, meio desconfiados, no ônibus que nos levaria às nossas, tão sonhadas, férias de verão. Exausto que estava, nem percebi a filha que enjoava ou a que queria ir ao banheiro, ou aquela que tinha fome, ou sede. Apaguei. Quando dei por mim, o veículo já manobrava para entrarmos na rodoviária de Porto Alegre. Meio zonzo, tratei de organizar a descida.

A chegada
Ao descermos do ônibus, minha filha mais velha, se abraçou em mim, encabulada: “O que é aquilo, pai?” – apontando para fora. Pude avistar uma senhora, de roupão, empunhando uma cartolina onde lia-se, em vermelho: FAMÍLIA DO FRANCO. Também estranhei, mas me dirigi à desconhecida. “Quem é a senhora?!!!!!”, perguntei, cheio de exclamações.
“Minha filha é tua colega, lá em Nonoai... ela disse que tu iria chegar essa hora, com tua família, e que ficarias aqui até de tarde. Preparei café e cama para vocês. Depois, na hora de irem pra praia, trago vocês de volta”, disse a senhora.
Constrangidos, ante tanto desprendimento, embarcamos no Uno azul e rumamos para a Cidade Baixa.

A cereja do bolo
Entrando na casa, achamos tudo muito estranho, uma verdadeira bagunça. Mas, seguimos em frente. Chegando na cozinha, para o café que ela preparara com tanto carinho, nos deparamos com uma cena de guerra. Realmente parecia que um terremoto tinha acontecido ali. Nisso, nossa anfitriã nos vem, aos gritos: “assaltaram minha casa!”. Bandidos se aproveitaram desses minutos em que ela estava fora, por nós, para invadir a residência e fazer aquela bagunça.

Muita coisa ainda rolou nessa viagem... conto na próxima.

LEIA A CONTINUAÇÃO: O Resto da Viagem de Ida - por Franco Vasconcellos

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

Aliviemos nossos fardos - por Franco Vasconcellos

Passei um tempão sem escrever aqui. Tanta correria e atropelos me impediam. Creio que esses meses sabáticos serviram para colocar algumas ideias em ordem e entender algumas coisas.

Adando aqui pela Baronesa do Gravataí, numa manhã de calor, ali perto da José do Patrocínio, avistei um casal desses que recolhem papelão e, da reciclagem tiram seu sustento. Eu, com a cabeça cheia das preocupações cotidianas às quais nos damos ao luxo de conservar e, eles, virando lixo, felizes. Era nítida a alegria, que confirmei quando, ao abrir a tampa de um container o moço, após um grito de exclamação disse: “Olha só, neguinha! Quanto papelão!”. Me envergonhei de mim.

Estamos tão habituados a ouvir o quanto a crise nos tem prejudicado, e no quanto as coisas estão complicadas, que acreditamos que o pior bate à porta. E já o vivemos, por antecipação. A simplicidade da alegria daquele casal, me lembrou que não preciso viver buscando um motivo para a felicidade. Viver é o motivo.

Drummond defendia que “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.”. Passei, recentemente, a concordar com o sábio poeta. Com o raiar do dia, sei que os problemas, antes de mim, já se levantam. Mas também sei que a força que me deu o dia de hoje, dará o de amanhã.

Haverá o dia em que aprenderemos a celebrar, mesmo o lixo. Iniciemos celebrando as pequenas bênçãos cotidianas. Valorizemos aquilo que tem valor de verdade. Aliviemos nossos fardos.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

O que te identifica? - por Franco Vasconcellos

Num dos trechos de “O Homem do princípio ao fim” - seguidamente falo desse texto, pois o acho incrível, e não são raras as vezes que o releio... assim mesmo, picadinho, pois é construído de retalhos de textos e poemas, Millôr – que retrata o medo do ser humano, há uma frase curiosa: “E aquele menino muito pobre e abandonado, filho de uma família numerosa, quando alguém lhe perguntava quem ele era, respondia tristemente: “Eu? Eu sou aquele, de óculos.””

Há alguns dias, numa dinâmica de grupo, participei de um exercício em que deveríamos escolher seis pessoas para morar conosco em um bunker, pois a cidade estaria para sofrer um ataque terrorista. Os que ficassem de fora, inevitavelmente, morreriam.

A lista trazia um violinista, com 40 anos, narcótico viciado, um advogado, com 25 anos, HIV+, uma prostituta, com 34 anos, uma menina de 12 anos, e baixo Q.I, um homossexual, com 47 anos, ente outros.

Imediatamente, começaram os julgamentos. Enquanto bancávamos os verdugos e nossos concorrentes se aproximavam do cadafalso psicológico, levantaram a questão: Ninguém é somente aquela definição que o exercício propôs, a menina de 12 anos e baixo QI, ou o homossexual de 47 anos, ou qualquer outro personagem poderia ser qualquer um de nós.

O “de óculos”, do Millôr, ou o “gordinho do balcão”, como alguns costumam se referir a mim, apontam para o primeiro em primeira instância... o primeiro rótulo.

Perigoso. Nem sempre o rótulo descreve exatamente o conteúdo da embalagem. Nada como conhecer alguém mais demoradamente para se formar uma opinião.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

O negro espelho, o primeiro-ministro e a porca - por Franco Vasconcellos

Não sou do tipo de assiste séries episódio por episódio, de cada temporada... tenho amigos que dedicam finais de semana inteiros a “The Walking Dead”, ou “Game of Thrones”. Assisto alguns episódios, até para poder formalizar uma opinião. Ontem, assiti o 1º episódio da 1ª temporada de “Black Mirror”. Desde Dogville – Lars Von Trier – que eu não ficava tão incomodado por uma obra.

A série não apresenta uma história sequencial. Cada episódio tem início, meio e fim e não se comunica com o seguinte, ou seja, não tem uma história que perdura por uma temporada inteira. Pode continuar lendo... não vou dar spoiler.

O episódio começa com uma ligação ao primeiro ministro britânico. Ele recebe uma ligação urgente no meio da noite, e para sua surpresa, trata-se do sequestro da princesa mais querida do Reino Unido. Até então vemos um episódio com uma temática normal, que já tínhamos visto em outras séries. O surpreendente é o conteúdo do vídeo publicado no Youtube, contendo imagens da Princesa Susannah em cativeiro e lendo uma lista de requisitos do sequestrador para que ela possa continuar viva.

É aqui que a série te surpreende e mostra muita ousadia. Um dos requisitos do sequestrador é que o Primeiro Ministro faça sexo com um porco ao vivo na televisão britânica às 4 horas da tarde. É com base nesse pedido que o restante do episódio se desenvolve. Vemos um governo abalado, tentando recuperar sua princesa e falhando, o que só piora a situação e mostra até onde uma pessoa sob pressão – neste caso, o ministro – pode chegar, demonstrando vários sentimentos: medo, desespero e etc. O que chama atenção também é o modo que a série demonstra a reação do público e da mídia.

O britânico, sempre tão “por dentro” das coisas da realeza, fica totalmente vidrado no assunto, comentando a todo o momento nas redes sociais a repercussão de todo o caso no mundo.

Assista. Nem que seja para me xingar depois.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

Somos pó - por Franco Vasconcellos

Escrevo isso um dia depois de o avião do time do Chapecoense cair na Colômbia. E escrevo triste. Não torcia pelo Chapecoense. Apesar de haver, no avião, um erechinense, não o conhecia. Mas escrevo triste. Triste não por serem atletas, ou conhecidos, ou bem sucedidos.

Triste por serem filhos, pais, esposos que partiram e deixaram no ar uma vida incompleta. Lhes faltou um último abraço, uma última macarronada de domingo, um último beijo na boca, uma última canção de ninar desafinada na beira de um berço cor-de-rosa.

Mas a vida é assim e tem dessas coisas, não é mesmo?

Aproveite o tempo. Aproveite as oportunidades. Utilize o seu tempo, que não volta mais, com o que é precioso. Numa dessas idas, pode não haver volta.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

Mea-culpa/ O deficiente sou eu - por Franco Vasconcellos

Sempre bati no peito, orgulhoso, por ser livre de preconceitos, por não ser como as outras pessoas. Hoje, me envergonho disso. Talvez eu te choque, leitor, mas é impressionante o quão despreparados para lidar com as diferenças nós somos. Excluímos, muitas vezes, pelo fato de não querermos/sabermos como lidar com as pessoas que trazem deficiências diferentes das nossas.

Agradeço à Gabriela. Naquele semestre eu cursava uma disciplina em uma turma que não era a minha “de sempre”, na faculdade de Direito. É anã. A cumprimentava de longe... Deus me livre de apertar aquelas mãozinhas com dedinhos curtos... Era incrível, raciocínio rápido e inteligente, boa amiga. Aos poucos, fui me distraindo, até que fui me libertando da marra e deixando a admiração tomar lugar.

Hoje, cada vez que me deparo com situação semelhante, eu, tão comunicativo e tão perspicaz (sqn), ainda dou aquela travada básica. Noutro dia, durante a eleição para prefeito, estava trabalhando e um cego chegou à seção. O encaminhei até a urna, votou em seu candidato... o aviso sonoro “FIM”, não vinha... Eu, na minha habilidade: “Clica no verde, senhor!”. Ele, doce: “Meu filho, não sei o que é verde!”. “Toma!”, pensei. Me envergonhei, me desculpei... fiquei chateado comigo mesmo.

A saia justa, é justa mesmo, com a maioria das pessoas, tanto que chegam haver algumas cartilhas de como se portar nesses casos.

Eis alguns “toques” interessantes:
- Os termos ”cego” e “surdo” podem ser utilizados;
- Ao conversar por mais tempo que alguns minutos com uma pessoa que usa cadeira de rodas, se for possível, lembre-se de sentar, para que você e ela fiquem com os olhos no mesmo nível.
- A cadeira de rodas (assim como as bengalas e muletas) é parte do espaço corporal da pessoa, quase uma extensão do seu corpo.
- Pergunte e saberá como agir e não se ofenda se a ajuda for recusada.
- Não se acanhe em usar termos como “andar” e “correr”. As pessoas com deficiência física empregam naturalmente essas mesmas palavras.
- Algumas pessoas, sem perceber, falam em tom de voz mais alto quando conversam com pessoas cegas. A menos que ela tenha, também, uma deficiência auditiva que justifique isso, não faz nenhum sentido gritar. Fale em tom de voz normal.
- Não se deve brincar com um cão-guia, pois ele tem a responsabilidade de guiar o dono que não enxerga e não deve ser distraído dessa função.
- Ao falar com uma pessoa surda, acene para ela ou toque levemente em seu braço, para que ela volte sua atenção para você. Posicione-se de frente para ela, deixando a boca visível de forma a possibilitar a leitura labial. Evite fazer gestos bruscos ou segurar objetos em frente à boca. Fale de maneira clara, pronunciando bem as palavras, mas sem exagero.
- Enquanto estiver conversando, mantenha sempre contato visual. Se você desviar o olhar, a pessoa surda pode achar que a conversa terminou.

A minha dica: tente se colocar no lugar do outro.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

E os anjos fumam seus charutos - por Franco Vasconcellos

"... Jamais voltaremos a ser que éramos antes da morte de um ente querido. Morremos também e em nosso lugar surge um outro de nós, meio Highlander."

Essa semana, aqui em Erechim, morreu um rapaz de 18 anos. Fiquei sabendo no grupo de Whatsapp da minha família (o nome do grupo é uma homenagem póstuma - :D Vovó Miroca). Nem conhecia o guri. Mas a comoção era percebida em cada post. Estavam chocados. Não é normal nem esperado que pais enterrem filhos. Essa era a dor da qual falavam. Mesmo que a única certeza seja a morte, quando vem fora da ordem natural, provoca espanto e dor.

Dentre as mensagens recebidas estava uma em particular, atribuída à Danilo Sousa,que me trouxe admiração, não pelo texto, mas pelas imagens: “O céu se alegra com uma reação de maternidade a funerais. Os anjos vêem os enterros dos corpos do mesmo jeito que os avós monitoram as portas das salas de parto. ‘Ele sairá a qualquer minuto!’ Eles mal podem esperar para ver a pessoa que está chegando. Enquanto nós dirigimos carros funerários e vestimos preto, eles estão pendurando fitas rosas e azuis e distribuindo charutos.”.

A esse sentimento, complicado e particular, chamamos de luto. O luto nos concede uma certa carta branca, aleluia, e nos dá, por alguns instantes, o direito de sermos irracionais sem passarmos por julgamentos. Poucos são capazes de condenar a atitude de alguém que acabou de passar por uma perda dolorosa, ao contrário, solidarizam-se e dividem a dor.

O luto é importante e deve ser vivido. É um tempo que permite o “cair da ficha” e faz com que a mente trabalhe para aprender a viver sem a pessoa que partiu. E essa perda implica em uma mudança pessoal. Jamais voltaremos a ser que éramos antes da morte de um ente querido. Morremos também e em nosso lugar surge um outro de nós, meio Highlander.

E além disso, há a vida, que segue em frente.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

A Xerife de Getúlio - por Franco Vasconcellos

Brilhante e dourada, habitava certa lapela que passeava pelos corredores do colégio, impondo-se como símbolo de autoridade - e olha que naquele tempo, meus colegas e eu nem sabíamos, como sabem os alunos de hoje, que poderíamos nos insurgir contra as autoridades. A estrela metálica ratificava o respeito que tínhamos pela Irmã Gelma. Quem foi aluno dela sabe do que estou falando. A professora era uma figuraça.

Fazíamos macarrão. Centenas de quilos de macarrão. Passávamos tardes e tardes no salão paroquial, em meio a ovos e sacos de farinha. Algumas mães faziam a massa, outras limpavam, outras colocavam no cilindro. A gente entregava as encomendas. O objetivo era angariar fundos para a excursão do final de ano do Santa Clara. No mesmo ano iniciei meu curso de datilografia – precisava investir no meu futuro profissional.

O ano que morei em Getúlio Vargas (1989 – o ano em que nossos pais elegeram o Collor), me fez crer pelas últimas duas décadas que esta seria a cidade ideal para criar meus filhos. Retornei. Ainda conserva a pecha de cidadezinha pacata do interior. O que mudaram foram as pessoas. No meu imaginário adolescente, conservava a imagem que levei comigo. 

Voltei para lá e ficava chocado ao encontrar um antigo colega fazedor de macarrão e perceber que o tempo passou também para ele. Também o comportamento agressivo e 'nem aí pra nada' do jovem de hoje, me choca. Éramos inofensivos. 

Algum tempo depois (1992), durante o segundo grau, pintamos a cara e formos para as ruas. Acreditávamos que poderíamos derrubar o presidente. Aprendemos a escrever 'impeachment'. Foi a última vez que vi a juventude se unir em torno de algum objetivo. Derrubamos o Collor e nos acomodamos.

Sem acesso ao Google e às coisas que aconteciam além do que víamos no Jornal Nacional, participávamos mais ativamente e com responsabilidade. Éramos mais responsáveis e interessados em fazer o que devia ser feito.  

Quando passo por lá, tento reconhecer as ruas da minha adolescência. Sinto vontade de escrever. Mas escrever alguma coisa que gostasses de ler, que te fizesse feliz e te devolvesse as alegrias da tua infância. Por isso lembrei de tanta coisa. Porque sempre que me lembro de coisas boas do passado, me lembro de Getúlio. Gostaria de saber por onde anda a Irmã Gelma e sua estrela. 

Nunca concluí o curso de datilografia.

Franco Vasconcellos e Souza, gaúcho de Erechim, escreve sobre o cotidiano e aceita sugestões dos leitores

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