A Cozinha - por Heidi Lauterbach

A Cozinha - por Heidi Lauterbach

Adoro cozinhar. Deve ser herança da minha avó, a qual, para o desespero da minha mãe, ficava de pé em frente do fogão para assistir e esperar terminar o cozimento das batatas, alimento base na minha infância na Alemanha. Para o almoço já se preparava uma quantidade extra destas bolotas para, cortadas em fatias fininhas, servirem para o jantar, preparadas  com bastante cebola em pouca banha na frigideira. Além das batatas, eram obrigatórios legumes, saladas, grãos como lentilhas, ervilhas – mas feijão preto não conhecíamos. Carne? Era coisa de domingo, dia de festa ou quando se esperava visita. E peixe não havia também, pois morávamos longe do mar e não existiam caminhões frigoríficos ainda. Massas apareciam com frequência, principalmente o “furadinho”, aquele grande, que nos crianças usávamos para chupar o molho de tomate. Era proibido, mas sempre conseguíamos brincar um pouco.

Arroz era coisa exótica. Minha avó, responsável por nossa cozinha, nunca cogitou fazer qualquer prato que envolvesse arroz. E quando minha tia do Brasil veio visitar, sentiu falta de arroz e foi atendida pela mãe: Uma enorme panela com água e sal, onde foi jogado um punhado de arroz. Minha avó deixou cozinhar, vigiando de perto, passou o mingau pela peneira e ficou muito sentida quando a filha não comeu. Aprendi então como fazer arroz, mas levei muito tempo para conseguir um arroz branco decente – soltinho, gostoso.

Tenho uma colher de pau que já está na quarta geração de uso. A colher é pequena, gasta de tanto mexer na panela e ser limpa, era uma colherzinha específica para fazer molhos. Passou da minha avó para minha mãe, depois para mim e agora já está na cozinha da minha filha e com as netas na fila. Já escrevi neste espaço sobre a panela de ferro que ganhei de uma amiga, que, por falta de tampa – que tinha se perdido no tempo – veio recheada de orquídeas. Feijoada ou arroz carreteiro feitos nesta preciosidade é tudo de bom. Outra amiga me achou merecedora de ser a guardiã de um rolo de madeira, também há gerações na família dela, que é todo desenhado em relevo para enfeitar biscoitos.

Durante alguns anos, dividi minha cozinha com a Helena, criatura querida que cuidava de nos e principalmente da nossa filha pequena com muito carinho enquanto eu trabalhava fora. Helena era boa cozinheira, porém não sabia ler nem escrever. Um dia, quando saiu para fazer compras, perguntou: “Só o figo? Não quer mais nada?” Tentei convencê-la que o que comemos frito com cebola, pimentão e tomate era fígado e que a fruta se chamava figo.  Mostrei para ela no dicionário – mas como este era “do estrangeiro”, não era confiável e, antes de eu perder uma boa ajudante, desisti. E quando minha mãe me presenteou com uma lata de chucrute, trazido da Alemanha, sobrou um pouco da festa gourmet de domingo, dia de folga da Helena. Na volta do trabalho, segunda de tardezinha, procurei pelo pratinho na geladeira. Não contei com a Helena que disse aborrecida que jogou fora aquele repolho podre antes que a família ficasse envenenada......

Sábado aqui em Gramado é dia de festa – desde a existência da feira orgânica faço minhas compras lá. Vou de cesto e me alegro com tudo que vai lá de dentro. Peço “abóbora” e me dizem que “isto é moranga” – mas independente do que é, cozida com alho, manteiga e pimenta, fica deliciosa. E penso que, mesmo com a falta de tempo, com a facilidade de comprar comida pronta e as cozinhas muitas vezes minúsculas, o ato de fazer comida continua sendo uma das atividades mais criativas e gratificantes.

Heidi Lauterbach, é tradutora e tem como hobby cozinhar, artesanato, animais, leitura e família.

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