A Boneca - por Heidi Lauterbach

A Boneca - por Heidi Lauterbach

Meus pais sempre viajavam para a Alemanha quando o tempo começava a esfriar aqui em Gramado, e, enquanto eu e meu marido com a filha morávamos no Rio de Janeiro, eles costumavam fazer escala no nosso apartamento para curtir alguns dias conosco. Numa destas paradas, meu marido descobriu, folheando uma revista alemã, uma “mulher de plástico”, novidade do mercado erótico que, naquela época, estava pipocando em vários países com lojas especializadas. Brincando, ele pediu à sogra para trazer uma boneca destas, de preferência loira, o sonho dele. Prontamente, minha mãe, que adorava uma brincadeira, comprou e guardou o pacotinho na mala sem que meu pai soubesse, pois sabia que este não iria topar viajar com um produto destes de volta ao Brasil.

Por falta de sorte, desta vez, no desembarque no aeroporto no Rio de Janeiro, pegaram luz vermelha e tiveram que abrir as malas na alfândega. Meu pai estava bem tranquilo até que o fiscal ao lado, que estava examinando a bagagem de minha mãe, pescou na mala dela um pacotinho com uma mulher loira e nua estampada na embalagem. Perguntada o que era aquilo, minha mãe disse: “É uma boneca para meu genro!” “Como assim, boneca?” perguntou o fiscal. Prontamente, ela abriu o pacote, tirou a bombinha que veio junto e começou a inflar a figura. Nestas alturas, meu pai estava a ponto de  desmaiar, os passageiros em volta e os outros fiscais se juntaram ao fiscal que atendia minha mãe e a torcida começava: “Mais um pouco de ar, Senhora, mais força!!!” A figura ficou praticamente do tamanho de minha mãe, que era baixinha, mas tinha proporções razoáveis e convidativas para a finalidade a que fora projetada.



Como contou meu pai depois, o fiscal responsável por este tumulto todo somente conseguiu dizer: “Que genro felizardo!” e mandou fechar as malas da mamãe. Tudo isto, naturalmente, aconteceu lá dentro, fora da vista das pessoas que aguardavam seus familiares do lado de fora. E quando meus pais apareceram, mamãe empurrando o carrinho e a “Liselotte” (a figura já tinha até nome....) peladona empoleirada em cima das malas, meu pai fazendo de conta que era casada com a rainha da Inglaterra mas não com esta senhora aí, a nossa pequena filha estava dando pulos de alegria por causa da enorme boneca que a vovó trouxe da Alemanha para ela. Que a boneca estava pelada não era problema, a mãe certamente iria fazer roupinhas bonitas para ela...

Hoje, conversando com minha sobrinha no Rio, ela me contou que estará levando 60 casadinhos na mala – pedido feito pela filha para o casamento dela em Praga. Como ela faz escala em Lisboa, talvez – na eventualidade de os casadinhos serem descobertos – o fiscal português tenha compreensão também para este contrabando. Vou torcer!

Heidi Lauterbach, é tradutora e tem como hobby cozinhar, artesanato, animais, leitura e família.

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