O Baú - por Heidi Lauterbach

O Baú - por Heidi Lauterbach

Na parte frontal do baú de carvalho consta o ano em que ele entrou na nossa família: 1792, provavelmente recheado com o enxoval de uma noiva. Pode-se imaginar que continha pilhas de lençóis e fronhas de linho, toalhas e guardanapos de mesa, feitos no tear manual, toalhas de banho, tudo bordado com as iniciais da noiva: I.A.B. Nunca soubemos o nome completo. O baú ficou na família, e desde que nasci faz parte da minha vida. Durante a segunda guerra mundial, com todos nos morando juntos – avôs, mãe, crianças – em um espaço muito pequeno, ele serviu para abrigar as roupas de inverno no verão e vice-versa. Numa das visitas da “outra” avó, brincando de esconde-esconde, meu irmão, então com uns 3 anos, entrou no baú para se esconder, e a avó colocou um livro, de capa mole, na lateral entre a parede e a tampa do baú, para o guri poder respirar. E sentou em cima para disfarçar. Resultado: Não deu mais para abrir a tampa, a grande fechadura antiga estava emperrada, e tivemos que chamar um marceneiro para abrir o baú por baixo, enquanto nossa mãe ficou deitada do lado do baú conversando com o filho para mantê-lo calmo.

Quando meus pais vieram de mudança para o Brasil, o baú veio junto e ficou na casa deles, dando abrigo aos edredons durante o verão. E agora está comigo. Dentro dele está guardado o presépio – estábulo, figuras da família sagrada, os três reis magos, vários pastores, pessoas em visita ao menino trazendo presentes, muitos carneirinhos, burricos, vacas, galinhas, e dois anjos, um dos quais queremos substituir há anos porque perdeu uma asa. Não dá tempo...... As figuras mais antigas – todas feitas de barro pela atual avó (eu) – tem mais que 48 anos, e ainda são sem rosto, por falta de talento para tal arte. Quando mudamos para Gramado, conheci um artista da argila, Sr. Macena, que trabalhava lá no Lago Negro, fazendo suas esculturas folclóricas numa velocidade incrível ao ar livre e ao vivo. Por vários dias fiquei horas observando até ele consentir em me dar umas aulas. Aí então nasceram figuras com rosto.



Todos os anos, a abertura do baú no primeiro domingo de advento provoca uma disputa – quem abre, quem é mais cuidadoso para desembrulhar as figuras, quem vai providenciar areia, pedras, pequenas plantas imitando árvores, tudo para formar a paisagem. E as meninas lembram direitinho o lugar de cada componente – o que vai dentro do estábulo, o que fica do lado de fora, e também sabem o lugar de cada enfeite do Advento, tudo tem seu lugar tradicional e certo. Até alguns anos atrás, o presépio foi sempre montado em cima de uma cômoda e o baú era entregue ao Papai Noel para usar como depósito dos presentes. Num dia qualquer durante o advento, aparecia uma fitinha vermelha pendurada do lado de fora do baú – sinal que Papai Noel esteve por perto e a partir daí não se podia mais mexer nem espiar.

Agora montamos o presépio em cima do baú de carvalho por possuir uma área maior, já que temos mais um baú – este bem brasileiro, todo trabalhado com desenhos de casarios coloniais – que o Papai Noel pode usar e, quem sabe, deixar sua fitinha vermelha como sinal que esteve aqui. E assim que tudo estiver no seu devido lugar – vamos começar a fazer os biscoitos de Natal! Porque no dia 23, ainda vai ser montada a árvore de natal.

Heidi Lauterbach, é tradutora e tem como hobby cozinhar, artesanato, animais, leitura e família.  

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