O Frio - por Heidi Lauterbach

O Frio - por Heidi Lauterbach

Chegávamos em casa com as pernas das calças de tecido grosso completamente congeladas e minha avó nos colocava em frente ao fogão (alimentado com carvão, não com lenha) para descongelar. No chão, papel de jornal para não molhar o piso ou o tapete. Na mão, uma caneca de chocolate quente. Aos pouquinhos, o rosto, as mãos, os pés começavam a nos pertencer novamente, e a gente se sentia viva e esfomentada.  A tarde inteira nos divertimos  com nosso trenó lá no fundo do vale onde o pasto de verão subia a montanha mas que nesta época do frio estava coberto de neve e gelo. A brincadeira era puxar o trenó lá para cima e descer a pista numa incrível velocidade – ou sentado ou deitado de bruços. Às   vezes, emendamos os trenós para formar um trem, mas para isto a gente tinha que ter um dos rapazes maiores (promessa aos pais!) como guia no trenó da frente e outro para frear no último trenó. Muitas vezes um trem  virava causando uma gritaria federal e, mesmo assim, não tenho lembrança de ossos quebrados. 

Acordando de manhã cedo, um silêncio estranho nos avisava que tinha nevado durante a noite e  as flores de cristal de gelo nos vidros da janela indicavam um frio intenso que faria a neve ficar no chão.  No inverno, íamos de trem para a escola, um trem tipo Maria Fumaça, alimentado também com carvão e expelindo uma  fumaça grossa e preta. Do nosso vilarejo até a cidade onde estava o ginásio eram cinco  quilômetros pela linha de trem que beirava a estrada por onde a gente ia de bicicleta no verão. Mas no inverno, íamos  de trem. Perto da metade do trecho ficava o orfanato de meninos, e este prédio servia de ponto crucial quando nevava muito:  Se o trem ficava impedido de continuar por causa da neve excessiva ANTES de chegar no orfanato, nos podíamos voltar para casa. A pé, claro, mas com a perspectiva de um dia livre na neve. Se o trem empacava DEPOIS do orfanato, tínhamos a obrigação de ir, também à pé,  para a escola.  O trem ficava onde tinha parado, esperando pela turma dos “limpa-trilhos”. 



Nunca ficávamos resfriados ou até gripados. No primeiro sinal de coriza ou “bichinho na garganta”, passávamos por “procedimentos” caseiros:  Gordura de ganso (reservado da época do natal quando sempre tinha ganso na ceia) passado no peito, uma camada de mostarda nas costas, uma fralda macia e depois um pano de flanela enrolando a vitima, e em volta do pescoço uma compressa de sal e vinagre. Por cima de tudo, um pijama. Por dentro, um leite quente com bastante mel e canela. Depois de uma noite de sono  debaixo de pesados edredons de penas de ganso  e cobertores de lã de carneiro, acordávamos novinhos em folha. Talvez uma das razões da nossa resistência  fosse  o costume da minha mãe de nos mandar dar várias voltas pelo gramado gelado, logo depois de sair da cama e de pés no chão, para “fortalecer nossa alma”, como dizia. 

Até agora, além da minha família, só conheço uma pessoa – e nem a conheço pessoalmente – , que professa publicamente  que adora o frio aqui da Serra.  Acho uma pena  pois penso que as pessoas perdem boa parte da beleza que a natureza da nossa região oferece.  É diferente do frio da minha infância, porém tem todo um charme próprio: o nevoeiro que de repente fecha tudo, os dias seguidos de chuvinha fininha e fria, o vento que libera os pinheiros de galhos secos, as manhãs com a geada reluzente no sol, as tentativas de alegrar os turistas com flocos de neve, e, para coroar, a floração das azaleias que acontece bem no meio do inverno e embrulha a cidade numa nuvem cor de rosa. 

 

Heidi Lauterbach, é tradutora e tem como hobby cozinhar, artesanato, animais, leitura e família.

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