O Pão - por Heidi Lauterbach

O Pão - por Heidi Lauterbach

Minha avó, nascida no ano 1881, sempre foi a primeira pessoa na nossa família a cortar um pão novo. Mas antes de tirar a primeira fatia, ela levantava o pão grande e redondo, e fazia o sinal da cruz na parte de baixo. Contava ela que, quando era criança, morando em Aachen na Alemanha, a mãe muitas vezes a mandava comprar o pão na padaria. Esta padaria também vendia pão para o verdugo da cidade (ainda existia a pena de morte) e como ninguém queria ter contato com este homem, o pão destinado a ele sempre ficava virado de cabeça para baixo  no balcão. Mas como errar é humano, (vai que o carrasco tinha tocado neste pão),  por via das dúvidas a mãe fazia o sinal da cruz na parte de baixo do pão antes de cortá-lo murmurando  um agradecimento a Deus.  E passou este ritual para a filha, minha avó. E dela, veio para mim.

Durante a da segunda guerra mundial, meus avôs vieram morar conosco, num lugarejo pequeno, no campo.  A alimentação era saudável, porém bem simples. Não havia farinha de trigo, nosso pão levava somente farinha de centeio, cultivado nos campos ao redor da vila e moído no moinho de pedra da cooperativa. No relato que fiz para minhas netas, sobre  minha infância, escrevi:

“O pão era feito mais ou menos uma vez por mês. Uma boa quantidade da massa anterior ficava guardada no porão para servir de fermento (chamado massa azeda) para o próximo pão. Depois da massa feita e crescida, os pães eram colocados em cima de tábuas e estas em cima do carrinho de mão que nós, crianças, então levávamos para o padeiro. Para este serviço do padeiro, existia um calendário publicado no mural da prefeitura; todos os moradores tinham o direito, num determinado dia, de assar o pão. Lá dentro na padaria, estavam os fornos, grandes bocas abertas onde ardiam as chamas, e o padeiro tirava a massa crescida das tábuas com uma pá comprida, enfiava a pá dentro do forno, dava um solavanco e tirava a pá vazia, para pegar a próxima massa. Nunca descobri, enquanto eu levava os pães para a padaria para serem assados, onde a massa ficava lá dentro – era só fogo para meus olhos.  Depois de algumas horas, a gente tinha que ir lá de novo para pegar os pães assados – brilhantes, quase pretos, cheirosos, redondos que nem a lua com uns 35 cm de diâmetro – 20, 25 de cada vez. Era o estoque para um mês. Os pães ficavam guardados no porão, junto aos barris de vinho. Às vezes, mais que uma família assava o pão no mesmo dia no fornos do padeiro, e para não confundir os pães, eram feitas marcas na superfície do pão – diferentes para cada família.”

Gosto de ficar na Praça das Etnias, assistindo nossos colonos a fazer o pão. E quantos pães diferentes eles fazem – pão branco sovado, pão de milho, pão de batata ou de aipim, pão com linguiça, com queijo, pão de farinha integral, cucas de todas as frutas que tem no pomar, biscoitos, até strudel de maçã alguns produzem. Que facilidade para ter o pão nosso na mesa, sempre fresquinho. E os fornos têm as mesmas bocas iluminadas pelo fogo como as da minha infância – mais uma razão para eu me sentir em casa.

Heidi Lauterbach, é tradutora e tem como hobby cozinhar, artesanato, animais, leitura e família.

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