Ressocializar e fazer o bem - por Karine Klein

Ressocializar e fazer o bem - por Karine Klein

Crédito foto principal: Silvio Kronbauer - 

Parceria entre a ONG Amigos de Rua e o Presídio de São Francisco de Paula vem gerando benefícios para a comunidade

As psicólogas técnicas superiores penitenciárias do PESFP falam sobre o projeto “Casa para Todos”

Farejando entre uma lixeira e outra, eles caminham pelas ruas. Quase sempre abanam o rabinho para quem passa, na esperança que um par de olhos humanos encontre os seus e lhes levem para casa. Nestes dias gelados, em que a geada e até a neve não fazem cerimônia em deixar o solo branquinho, eles resistem sem abrigo, e sem saber que logo ali mais adiante, alguns homens afastados do convívio da sociedade, entre o pensamento lá fora e a espera por sair de trás das grades, constroem aquilo que lhes protegerá das intempéries do clima.

Coordenação Geral - da dir. para esq.: Letícia Carvalho, Giovana Ghidini, Gisele Maganini (representantes da ONG Amigos de Rua), Faltemara Tessele, Rita Maganini e Maria Eli Carvalho Lima (representantes do PESFP). Crédito: PESFP/Divulgação


Através de uma iniciativa aplaudida em todo o Estado, desde o dia 5 de julho a ONG Amigos de Rua – que atua promovendo a conscientização da importância de castrar e respeitar os animais, evitando o abandono, no atendimento de emergência e no controle populacional de animais de rua – firmou parceria com o Presídio Estadual de São Francisco de Paula, para que os apenados passem a fabricar casinhas para a população canina de rua.
Inspirada no projeto já adotado na Penitenciária de Pelotas, a presidente da ONG, Gisele Pereira Maganini, pensou nesta parceria e realizou o contato com a psicóloga Rita Frezza Maganini, uma das técnicas superiores do estabelecimento penal.

 
“Olhei algumas reportagens sobre detentos fazendo os abrigos, como sempre estamos precisando, porque quando há adoção sempre pedem a casinha, e também para os que ficam na rua, pensei que podíamos fazer aqui. Enxergo benefícios para os peludos e também ocupamos os apenados com uma ação social, em favor da sociedade. Hoje todas as ruas têm animais, e precisamos de casinhas para todos,” lembra Gisele.




 Logo após, a proposta foi repassada à Direção e prontamente autorizada. A partir daí, alguns procedimentos foram tomados, como a designação de um preso representante da galeria, que se tornou o responsável pela coordenação interna do projeto. Posteriormente, a também psicóloga e técnica superior penitenciária, Faltemara Forsin Tessele, compôs a equipe de coordenação e auxiliou na confecção do projeto documental que foi batizado de “Casa para Todos”.


“Reduzir os efeitos da prisionalização, fazendo com que os sujeitos retomem uma autopercepção positiva e sua autoeficácia, contribui certamente para os objetivos do tratamento penal,” explica Rita. A psicóloga continua: “além disto, a realização da atividade reverte-se diretamente em benefício à comunidade, local onde os efeitos negativos dos delitos se instalam. Inverte-se, assim, a relação dos sujeitos com o ambiente e, espera-se, ainda, um novo olhar da comunidade para com estes sujeitos, para que possam ressignificar suas histórias e integrar-se novamente na vida comunitária,” completa.

Crédito:Karine Klein


Nas segundas, quintas e sextas-feiras pela manhã, das 10h15min às 11h15min, intercalados em três grupos de seis pessoas, os presidiários recebem as instruções iniciais e começam o trabalho. Como a atividade, além de beneficiar o projeto da ONG, também possui caráter educativo e de ressocialização, a primeira tarefa dos presos é elegerem o modelo de casinha que irão produzir,entre os sete disponíveis, de acordo com o material que possuem no dia, e escolher um nome para o grupo. A cada três dias trabalhados, eles têm direito a reduzir um dia da pena.


Na ocasião em que visitei o presídio, dois grupos já haviam sido definidos nos dias anteriores, o “Vapt-Vupt” e o “Babilônia”. Então acompanhei o desenvolvimento do trabalho do grupo recém formado que se auto intitulou “Casa e Cia”. Dentro do grupo é escolhido um coordenador, que participa com um e coordena os demais.


O presidiário C. D. R, 30 anos, é um dos coordenadores de trabalho e conta: “É muito bom participar dessa atividade porque é o momento em que a gente consegue não pensar no que fez lá fora e esquecer que está dentro da prisão. Este é o terceiro presídio que eu passo e a primeira vez que vejo isso e participo de algo assim”.

Giovana Ghidini, representando a ONG Amigos de Rua, explicou o projeto aos presos. Crédito: PESFP/Divulgação


Inicialmente, os presos construirão três casinhas a serem alocadas na sede da ONG. Posteriormente, a ideia é produzir outras para distribuir pelo centro da cidade, nos locais onde já existem recipientes para a distribuição de água e alimentos aos animais de rua. E o projeto não se limita somente aos animais, existem planos futuros para uma terceira fase, em que cogita-se a possibilidade de confeccionar móveis para órgãos públicos (Casa de Passagem, Escolas de Educação Infantil, por exemplo) e, finalmente, a produção comercial a preço popular a ser vendida no comercio local, com retorno de renda à ONG e aos presos envolvidos.


Para Wagner Cruz Pimentel, o vice- diretor do presídio, o projeto está se desenvolvendo de maneira muito satisfatória. “Já foi comprovado em outros locais que esta é uma forma mais eficaz para ressocialização dos presos. A atividade possui um valor bem importante que é a educação, e esta é uma causa que eu apoio e defendo, a causa animal. Além de tudo isso, os participantes são beneficiados com a remissão de pena e se sentem valorizados”.


A bióloga Giovana Ghidini, diretora administrativa da ONG Amigos de Rua, conta que alguns dos materiais para dar início ao projeto foram comprados por voluntárias, outros foram doações, através de pedidos nas redes sociais. “A parceria com a entidade foi de suma importância, pois está resolvendo um problema pontual da ONG amigos de Rua, ou seja, nem sempre conseguimos adotantes para todos os animais. Entendemos que a parceria trará benefícios tanto aos apenados, pois terão uma ocupação, e vimos essa parceria como uma maneira de inclusão, e para a ONG que além do ganho imediato para os animais de rua que estarão protegidos do frio, permite que mais pessoas se engajem na causa e conheçam a realidade da Amigos de Rua. Não precisa ser voluntário de uma ONG para ajudar, seja animais, seja pessoas, basta querer. O que sempre repetimos é que não basta ter pena, é preciso atitude para mudar uma realidade. Juntos podemos mais!” enfatiza.

Coordenadoras do projeto com Wagner Cruz Pimentel, vice-diretor do presídio e Valdemar Alves da Silva, diretor. Crédito: PESFP/Divulgação


No lançamento oficial do projeto, em 5 de julho, houve uma confraternização com os apenados, em que estiveram presentes as representantes da ONG, e do PESFP. Na ocasião, os presos ligados à atividade laboral de artesanato realizaram as combinações iniciais da execução do projeto. Na data, um coquetel produzido por um apenado ligado à atividade da padaria, foi servido aos participantes.

Continuidade
Para o projeto seguir em andamento, a ONG e o Presídio precisam contar com o apoio da comunidade com doações. Materiais como pregos, madeiras e dobradiças são necessários a todo momento. Além disso, também faltam equipamentos de marcenaria, como serra fita, lixas, tintas, fundos e telhas.

Quebrando o preconceito
A psicóloga Faltemara Tessele explica que apesar do projeto já ser conhecido da comunidade, pois foi amplamente divulgado e comentado nas redes sociais, ainda são poucas as doações que chegam. “Por enquanto não tivemos uma adesão muito grande da comunidade em apoiar o projeto doando materiais. O preconceito é uma questão recorrente, construída ao longo da história. Por serem presos, muitos acreditam que não devem apoiar”.  E a profissional ressalta: “Nosso presídio tem muitas limitações, o espaço em que a atividade de artesanato é desenvolvida não é o ideal. Mas não deixamos de fazer, apenas adaptamos à nossa realidade”.

Gisele Maganini dando instruções para o início da produção. Crédito: PESFP/Divulgação


Para Daniele Guidotti, moradora de São Francisco de Paula e apoiadora da causa animal, a iniciativa é positiva para todos os envolvidos. “Penso que a parceria firmada beneficia toda a sociedade e privilegia valores carentes de exercício, pois permite o envolvimento da comunidade de São Francisco de Paula, que doa os materiais utilizados na construção das casinhas, confere aos apenados a prerrogativa de fazerem algo de positivo para outrem, o que é sempre honroso, assim como permite que a ONG Amigos de Rua continue ajudando e protegendo animais abandonados”, disse.

 

Wagner Cruz Pimentel, o vice- diretor do presídio. Crédito: Karine Klein
Vice diretor do presídio junto das psicólogas técnicas superiores penitenciárias, Faltemara Forsin Tessele e Rita Frezza Maganini

Sobre o Presídio
Com capacidade para 40 presidiários e ocupação atual de 116, o Presídio Estadual de São Francisco de Paula está localizado na Rua Tiradentes, s/nº. Além das atividades do projeto “Casa para Todos”, os presos são envolvidos em tarefas de culinária, faxina, serviços gerais, manutenção externa, interna e padaria. Também são oferecidas aulas na modalidade EJA, de Ensino Fundamental e Ensino Médio.
A psicóloga Rita Maganini conta que a ocupação atual do presídio se dá devido à alta reincidência. “Isto é uma característica local. Como nossa cidade é carente de empregos, muitos vão para a liberdade, mas voltam a cometer delitos, ”explica.


*A pedido do PESFP não divulgamos os nomes nem os rostos dos apenados.

SERRANÍSSIMA - São Chico em pauta                                                        

Karine Klein é jornalista e apaixonada por São Chico. Sonha viver de contar histórias e acredita que cada um pode começar a mudar o mundo.

 

 

 

 

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