Eu preservo, tu preservas - por Karine Klein

Eu preservo, tu preservas - por Karine Klein

A história do município contada através de acervos históricos particulares 

Quando se trata da memória, em São Chico se conjuga o verbo preservar. Seja nas casas dos moradores de mais idade, que, em geral, guardam objetos que remetem às épocas passadas, ou em pequenos museus, espaços que reúnem um pouco daquilo que forma nossa história. 

Para a historiadora e mestra em Processos e Manifestações Culturais, Cláudia Santos Duarte, "é importante pensar um museu como um porta-voz da memória coletiva de uma sociedade. Naquele espaço estarão as recordações que, mesmo pessoais, refletem a memória de um grupo, de um tempo. Ao contemplarmos um acervo desses, temos a oportunidade de experienciar o contato não só com elementos materiais, mas também com hábitos, concepções e modos de vida diferentes dos atuais.Dessa forma, nos aproximamos e nos sentimos parte de um passado que, além de curioso, nos ajuda a pensar o presente de forma mais consciente, possibilitando o aprendizado, o respeito e a valorização do espaço em que vivemos."

Apesar de não ter um museu municipal, ou local público destinado à preservação dessa memória, alguns serranos, por conta própria, resolveram abrir para visitação suas coleções particulares, e mostrar um pouco da história e da cultura que ultrapassam gerações. É o caso do Acervo Histórico Pé de Pilão, localizado na Avenida Júlio de Castilhos, nº 163, no Centro.

 O Pé de Pilão, fundado e organizado em setembro de 2013 por Vanessa Fernandes da Silva, é um acervo de objetos e fotografias aberto ao público. Ao entrar no ambiente o visitante é recepcionado pelo som do vinil rodando na eletrola, e, automaticamente, é conduzido para um tempo em que a vida era mais simples e as atividades não eram marcadas pela pressa.

Vanessa Fernandes da Silva acompanha os visitantes explicando item por item os artigos do Acervo Histórico Pé de Pilão.

 “Gosto das coisas antigas e me uni com pessoas que dão valor a isso”, conta Vanessa. Rosa Medeiros e Walter Herrmann são duas dessas pessoas, e ajudam Vanessa atendendo os visitantes com explicações detalhadas sobre cada item, e muita simpatia. A proprietária e curadora do acervo também conta que muitos dos objetos ali expostos foram doados, outros comprados em feiras, porém todos com uma longa bagagem de histórias. “As pessoas gostam de nos visitar porque diferente dos museus tradicionais, aqui elas podem tocar nos objetos e não somente olhar”.

Documentos que contam um pouco da história do município são só alguns dos artigos encontrados no Pé de Pilão.

Um dos aspectos mais interessantes do Pé de Pilão, é que seu acervo está organizado como em uma casa. Os artigos de lazer, como instrumentos musicais – entre eles um piano, uma cítara alemã, um clarinete e um acordeom de botão, ambos do pai de Vanessa, Luciano José da Silva Neto (conhecido como Xano Valim) e um órgão da Igreja Matriz, de 1931, da época que ainda era de pedra, além de uma luxuosa mobília, de um gramofone e de diversos telefones, como um de pé francês, de 1948 ou o mais antigo deles, um telefone de parede sem data definida – estão na sala de estar. 

Objetos que lembram de um tempo em que a vida era mais simples, porém quase tudo era feito em casa.

Já os artigos que revelam as tradições domésticas do passado estão dispostos na cozinha, como um pilão de 1915. Também há um quarto dedicado exclusivamente a uma das atividades mais comuns das mulheres serranas de antigamente – a costura. Ali é possível encontrar modelos antigos e manuais de máquinas de costurar, entre outros itens para confeccionar artesanatos como se fazia no passado. No mesmo espaço há uma cama de ferro com um colchão feito de crina de cavalo. Também chama a atenção no museu, a biblioteca composta por livros que datam de 1850 até 1980, entre eles alguns clássicos da literatura mundial. E na sala em frente à biblioteca, uma coleção de documentos originais conta a história de um São Chico que começava a engatinhar para a igualdade, como o documento com data de 1883, de libertação de um escravo de 106 anos! 

Uma opção cultural que também serve como uma aula de história. Visite!

O Acervo Histórico Pé de Pilão é aberto para visitação nas sextas-feiras, sábados e domingos, das 9h ao meio dia e das 14h às 18h. Um programa cultural imperdível em São Chico. 



Outro lugar para voltar no tempo é o Memorial Iva da Silva, um espaço inaugurado em 14 de dezembro de 2014 que reconta a história do município através de artigos pertencentes à família da historiadora, escritora e poeta, Iva da Silva. 

Iva da Silva, poeta, pesquisadora histórica e escritora, resolveu abrir suas memórias e a dos seus para resgatar o passado do município.

Organizados e catalogados com precisão e cuidado, estão diversos itens que passaram pelas mãos de uma família inteira da localidade de Rumão, hoje pertencente à Cambará do Sul, mas que outrora foi solo serrano. Entre os itens que compõem o Memorial, estão a mobília do quarto dos pais de Iva, Arcília Manique da Silva e Idolino Zananciele da Silva, toda feita por seu pai, e os bordados e as roupas de cama confeccionados pelas mulheres da família. 

Roupas de cama, bordados e artigos domésticos revelam a delicadeza dos trabalhos manuais de antigamente.

Podem ser vistos também artigos que faziam parte do trabalho e do dia a dia do serrano da metade do século passado, como carro de boi, balança e arado. Do pai de Iva, destaca-se também um móvel antigo cheio de ferramentas de carpintaria. Idolino era tão bom em seu ofício, que sobre esse móvel encontram-se fotografias de quatro casas feitas por ele na década de 40, em um tempo em que a força de trabalho não vinha de máquinas, mas sim do homem. Chamam a atenção também duas telhas de barros feitas por escravos. Na época eles as moldavam nas próprias coxas. 

 

Entre os itens do Memorial Iva da Silva destacam-se a mobília dos pais da escritora, toda feita por seu pai.

Em outra sala, junto dos 11 livros de sua autoria (e virá mais um este ano) e das cerca de 200 antologias que participou no Brasil, Portugal e Uruguai, a poeta e pesquisadora também tem catalogados uma série de livros antigos, moedas nacionais e internacionais, e cópias de documentos do início do município sobre relação de escravos, impostos e diversos outros.

Iva fala sobre suas motivações para abrir ao público seu acervo. “Aqui eu pretendo fazer um resgate da história do município através da história da minha família”, explica. E é exatamente isso que ela faz ao se dedicar à pesquisa histórica: um verdadeiro resgate do passado, que não fosse por iniciativas como a dela, estaria se perdendo ano após ano. 

Memorial Iva da Silva

O Memorial fica na Rua Bento Gonçalves, nº 418, Centro, e é aberto para visitação com agendamento prévio. Fones: (54) 3244-3502 ou (54) 9973-7378. 

SERRANÍSSIMA - São Chico em pauta                                                         

Karine Klein é jornalista e apaixonada por São Chico. Sonha viver de contar histórias e acredita que cada um pode começar a mudar o mundo.

 

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