Permita-se a lembrança boa - por Karine Klein

Permita-se a lembrança boa - por Karine Klein

Se você pudesse guardar uma lembrança boa de um amor que lhe feriu, qual seria? Normalmente, quando se termina um relacionamento, o que permanece mais na memória são as lembranças ruins. Recordações de momentos que foram desgastando a relação, ou que sem desgastar, chegaram de surpresa para acabar com tudo. 

É difícil não dar atenção para esses pensamentos, pois foram eles que nos machucaram e, de certa forma, nos transformaram. Foi aquela briga horrível, foi a crueldade de uma mensagem de WhatsApp, foi o excesso de ciúme, a traição, o egoísmo. Não importa o que tenha sido, normalmente isso habitará nossa mente por um tempo determinado, dependendo da intensidade com que foi vivido esse amor. 

Mas quando passa o período do luto, da raiva, ou o que quer que você tenha vivido ao perder alguém que amava, passamos a enxergar que aquela relação teve muitas coisas boas. É quando enfim estamos curados. 

Diferente do filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, não existe uma fórmula pronta para apagar as recordações de alguém. Por isso, guarde os sorrisos, os olhares, o jeito de falar que você tanto adorava e as manias engraçadinhas. Fique com a magia daquela tarde de sol, com o abraço que te protegeu do frio, com o modo como ele te defendeu na frente de todo mundo.

O amor merece que guardemos as lembranças boas. 

De um relacionamento que me marcou muito, eu guardo, por exemplo, a lembrança das palavras que precederam nosso primeiro beijo. Um momento acompanhado da certeza que eu não queria estar em nenhum lugar do mundo que não ali. Já meu último término, até hoje não entendi e nunca entenderei o que aconteceu, porém guardo a lembrança mais linda e é uma cena que passa seguidamente pela minha cabeça. Nós dois já altos de vinho, caímos na grama e ríamos um para o outro, numa sincronia difícil de explicar entre dois bêbados. Aquela foi a última vez que eu fui o motivo do sorriso dele.



 

O amor é isso, feito de momentos. De cenas. Alimentar essas boas lembranças deixa o coração aquecido e a vida mais bonita, enquanto não chega aquela pessoa que será a próxima a encher nossa vida de cenas de filme outra vez. 

Pode ser o sexo tórrido na biblioteca, aquele início meio atrapalhado que um não sabe como se despedir do outro, ou o anel colocado no dedo com juras de amor. Mas sempre opte por ficar com essa lembrança e não com a lembrança da devolução do anel. 

Deixar que o que foi bom permaneça é respeitar o que foi vivido e não apagar a dor que causou, porque isso seria impossível. Mas é também e simplesmente permitir que qualquer lembrança exista sem mais lhe causar sofrimento. 

Manter boas recordações é decidir fazer as pazes com o passado. É perdoar alguém que foi importante, mas hoje não tem mais sentido em sua vida. É entender que tudo é impermanente e tem prazo de validade. 

Se durasse para sempre você teria o presente e não bonitas recordações. 

Karine Klein é jornalista, idealista, otimista e detalhista. Uma mistura de rock n’ roll, blues e tango. Sonha viver de contar histórias, se perde admirando as estrelas e acredita que cada um pode começar a mudar o mundo.

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