Sobre a Amazônia e a revolta do hambúrguer - por Rodrigo Cambará Printes, Rafaela Biehl Printes & Camila Caumo. 

Sobre a Amazônia e a revolta do hambúrguer - por Rodrigo Cambará Printes, Rafaela Biehl Printes & Camila Caumo. 

Parece incrível que descendo de barco o Rio Tapajós, no coração da Amazônia, você possa chegar às ruínas de uma cidade construída pela Companhia Ford no Brasil, entre 1928-1930.

Fordlândia hoje não é exatamente uma cidade fantasma. É uma típica comunidade amazônica, à beira do Rio Tapajós, que convive com as ruínas de um sonho americano. 

Sonho de um dos maiores capitalistas de todos os tempos: Henry Ford (1863-1947), fundador da Ford Motor Company, inventor da montagem em série e da produção em massa de automóveis no mundo. 

Ocorre que, no início do século XX, para Ford dominar toda a fabricação do automóvel faltavam apenas os pneus. Porém a borracha era produzida na Malásia, àquela época colônia britânica, e Ford não estava satisfeito com esta situação. Começou então a procurar um lugar onde pudesse plantar a seringueira (Hevea brasiliensis), árvore nativa da Amazônia, da família das Euforbiáceas, comum às margens do rio Tapajós e de tantos outros da bacia do Amazonas.

Barco descendo o Rio Tapajós

--- VEJA A GALERIA DE FOTOS ABAIXO ---

De alguma forma Jorge Dumont Villares, ficou sabendo disso e, representando o governo do Pará, vendeu para Ford uma área 15.000 km², de terras públicas, onde hoje fica o município de Aveiro. A concessão isentava Ford do pagamento de taxas de exportação da borracha, látex, sementes e até petróleo, se encontrasse. Aparentemente, um bom negócio para o norte-americano. Sem dúvida, um ótimo negócio para Villares, que embolsou o valor hoje equivalente a R$ 3.000.000,00.

Assim, entre 1928-30, Ford mandou construir uma típica cidade norte americana às margens do Rio Tapajós. A cidade tinha eletricidade, escolas, clube social, saneamento básico (coisa que até hoje as cidades amazônicas não tem) e até um hospital – onde foi feito o primeiro transplante de pele do Brasil. 

Casa construída em Fordlândia

Porém, os gerentes de Ford não tinham experiência em silvicultura na Amazônia e plantaram as seringueiras com espaçamento inadequado, muito próximas em relação ao seu padrão natural, o que facilitou a infestação por pragas, principalmente pelo fungo Microcyclus ulei, causador da doença conhecida como mal-da-seringueira. O fungo dizimou muitas das plantações de seringueira de Fordlândia.

Além disso, os homens de Ford tentaram impor aos caboclos um estilo de vida tipicamente norte-americano. Até que, em 1930, os trabalhadores locais se revoltaram contra os gerentes, que queriam lhes fazer comer hambúrgueres ao invés de farinha e açaí. Também achavam revoltante terem que usar crachás, segundo consta. O evento foi tão sério que os gerentes da fábrica tiveram que se esconder na floresta, e o exército foi chamado para reestabelecer a ordem. O episódio ficou conhecido como a revolta do hambúrguer e faz parte da história pitoresca e mal contada do nosso Brasil.

Dizem os historiadores (da história oficial) que o presidente Getúlio Vargas suspeitava das intensões de Ford na Amazônia e lhe oferecia pouca ajuda. Mesmo assim, Ford fez uma nova tentativa de plantio de seringueiras em Belterra, município próximo a Aveiro. Porém o ciclo da borracha já estava em decadência no Brasil, pois em 1912 os ingleses haviam levado 70.000 sementes de seringueira para o sudeste asiático e estavam produzindo o látex com grande eficiência. A partir de 1945, novas tecnologias permitiram fabricar borracha sintética, feita de petróleo. Estava acabado o projeto de Ford, que amargara um prejuízo de US$ 20.000.000.

Casa típicamente norte americana

O projeto foi oficialmente encerrado em 24 de dezembro de 1945, em acordo entre a Ford Company do Brasil e o governo federal. A empresa foi indenizada em cerca de US$ 250.000,00. O governo brasileiro assumiu as obrigações trabalhistas restantes e recebeu: 06 escolas, 02 hospitais, estações de captação e tratamento de água, usinas de força, 70 quilômetros de estradas,  02 portos fluviais, uma estação de rádio e telefonia, 2.000 casas, 30 galpões, centro de análises de doenças e autópsias, 02 unidades de beneficiamento de látex, vilas de casas para administração, departamento de análise de solo e plantações de 1.900.000 seringas em Fordlândia e 200.000 em Belterra.

Henry Ford morreu em 1947, sem nunca ter pisado na Amazônia. Tinha medo de contrair malária. Hoje sobraram apenas ruínas a céu aberto do seu sonho de dominar o mundo. Nem sequer um museu foi construído. 

Mas qualquer aventureiro que consiga chegar a Fordlândia, descendo o rio Tapajós de barco, ou pela empoeirada e terrível BR 163, poderá entrar, sem cerimônia, nas ruinas da velha fábrica que Henry Ford mandou construir no meio da Amazônia. Poderá andar pelas ruas da antiga vila americana e com certeza lembrará de alguns filmes que assistiu na TV ou no cinema. No cemitério, poderá encontrar um setor com cruzes da época, que lembram os campos santos de soldados mortos na Segunda Guerra Mundial. E talvez, então, reflita sobre pneus, automóveis, desenvolvimento e a ambição dos seres humanos. Sobre o Brasil e os brasileiros, sobre a Amazônia e a revolta do hambúrguer.

O cemitério, onde há setor com cruzes da época
Ruínas da velha fábrica que Henry Ford

 

Texto e fotos: Rodrigo Cambará PrintesRafaela Biehl Printes & Camila Caumo. 

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