O Passado Não Morre - por Marcelo Oliveira

O Passado Não Morre - por Marcelo Oliveira

Dora olhou o corpo pálido deitado no caixão, e sentiu o estômago doer. Durante todo o tempo que conviveu com Cortez sempre o admirou. Homem elegante, com gostos refinados. Dora também não se lembrava de alguém que lhe ensinara tanto sobre vinhos.

Quando a tampa do caixão foi colocada ela pôde ver apenas seu rosto pelo espesso vidro, sentiu a garganta secar. As mãos fortes seguraram os frágeis braços, a voz rouca em seu ouvido: “Não chore, pois o seu legado nunca morrerá”. Dora fechou os olhos. 

Na noite anterior ele telefonara pedindo para encontrá-la naquele restaurante que tinham se encontrado pela primeira vez. Ela foi ao seu encontro, e, após recebê-la com um beijo, cobriu seus olhos com as mãos e pediu que fosse com ele. Apesar de estranhar a situação Dora não o questionou. Cortez a conduziu até parar e descobrir seus olhos, onde ela viu-se enfrente à mesa. Sobre a mesa estava uma caixa de madeira com uma rosa presa a um laço vermelho, em seu interior encontrava-se um livro. 

Ela desfez o laço com todo o cuidado, sentiu o perfume da rosa antes de abrir. Na contra capa do livro uma dedicatória: “Com todo amor à mulher responsável por esta obra existir”. Embaixo da página, grafada com tinta dourada, ela lê: “P.S Dora, amo-te muito”. 

O livro que conta um romance entre imigrantes italianos durante a travessia do oceano Atlântico até ao Brasil no século XIX é história real de seus avós.  A saga de seus antepassados é o enredo do romance. Cortez se apaixonou por Dora ao longo dos meses que a entrevistou para coletar informações para seu livro. Ficando encantado por sua beleza delicada e sua inteligência fora do comum. 



Dora e sua mãe padeciam na total pobreza, seu pai empenhara todo o patrimônio da família em um cassino ilegal onde perdeu tudo. A depressão que caiu só terminou quanto à bala do Tauros 38 atravessou sua fonte. 

Ela abriu os olhos esperando que a visão daquele dia se repetisse, mas ela só conseguiu ver o caixão seguindo para o elevador do crematório...

Ela não queria isso, não queria tê-lo levado aquele restaurante e colocado o sonífero em seu vinho. Ter deixado ir embora sozinho após ter contado quem era. Ela morreu um pouco quando o carro dele bateu contra o poste, seu coração sangrou junto com o dele. Mas a herança recuperaria um pouco a dignidade perdida de sua família. Ela gostaria que não fosse Cortez o merecedor desse fim e nem ela a executora. No entanto, o que podia fazer ela diante da promessa que fizera diante do caixão de seu pai.

 Quando saiu da capela e levantou a cabeça deixando os pingos de chuva lavar suas lágrimas, ela desejou que Cortez não fosse o homem que era... Tudo teria sido mais fácil. Com a última lágrima escorreu também seu último remorso, não olharia mais pra trás. Cortez tinha traçado seu destino quando resolveu investir naquele cassino.  Sua morte representaria o sacrifício por todas as famílias destruídas. Ela, Dora, foi o anjo vingador delas...

Marcelo Oliveira, mora em São Francisco de Paula e estuda Gestão Ambiental. Ler e escrever são paixões. O tema? O que o mundo lhe apresentar.

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