12 de Março - por Marcelo Oliveira

12 de Março - por Marcelo Oliveira

Foto: Silvio Kronbauer

A resiliência, a capacidade de lidar com problemas e superar obstáculos, é o que preenche os homens em momentos de sofrimentos inevitáveis. Como diz um provérbio japonês: "cair sete vezes e levantar oito" - Raimundo Grossi

Era uma noite de sábado como tantas outras, calma e sem nada que fugisse a rotina, lá na rua até fazia um clima agradável. Era as costumeiras atividades em família de sempre: jantar, olhar tevê, internet e finalmente dormir – cansados como normalmente ocorre toda a noite de sábado, quando realmente acaba nossa semana.

O domingo é aquele dia onde podemos esticar o sono até mais tarde e curtir o descanso tão esperado. Mas, naquele 12 de março, nosso tão valioso sono foi interrompido de maneira brusca pelo som violento das paredes sendo atingidas por pedaços de outras casas e as telhas sendo arrancadas. Aquele som estridente foi aumentando, quando vimos já estávamos na sala e pelo buraco no forro vimos nosso telhado se indo de uma só fez. Colocar as crianças embaixo da mesa foi à única atitude que pudemos tomar em meio aqueles poucos segundos onde uma parte daquele lugar que nos abriga por anos ia se esmigalhando.

Foi rápido, muito rápido.. E tudo passou, mas logo nossa casa parecia tomada por cachoeiras intermináveis, rapidamente a água que brotava por todos os lados foi tomando conta, o desespero que ora tentava chegar, teve que dar lado, pois não havia tempo para isso, era necessário proteger e salvar o máximo que pudesse. Precisávamos correr e proteger o que dava, mesmo parecendo que era impossível salvar alguma coisa daquele caos.

Enfim a chuva torrencial deu uma trégua, o que me permitiu abrir a porta para ter uma real dimensão do que tinha nos atingindo. No entanto, nem o mais pessimista poderia imaginar. Por toda a minha vida não esquecerei a cena ao abrir a porta. O que vi me atingiu quase com a mesma força do que tinha atingido a nossa casa, era uma cena apavorante, nosso bairro estava destruído, arrasado, como uma cena típica dos filmes de desastre de Hollywood.



A parte externa a nossa casa tinha sido varrida, o carro do meu cunhado foi lançado contra a tela, postes caídos, todas as casas destelhadas e uma delas arrancada do chão; então percebi que era muito mais do que uma tempestade o que havia passado, era algo ainda mais destruidor. Ao chegar à rua não consigo descrever como foi olhar para cima da minha e ver que praticamente não existia mais telhado. E da mesma forma quando olhei para o lado e vi que as casas dos vizinhos haviam desaparecido.

Entrei no banheiro e por um minuto as lagrimas escorreram, mas não podia fraquejar, não tinha tempo para isso, afinal existia muita coisa a fazer. Tampar a casa com lona e proteger o que dava com ajuda de pessoas com espírito altruísta que rapidamente nos ajudaram, sendo isso imprescindível para que pudéssemos salvar nossas coisas. Passei aquele dia embaixo da chuva, foram dois dias sem luz, água e quase nada de sinal de celular; dias de trabalho duro para reconstruir e tentar voltar à normalidade, ainda com os acontecimentos daquele domingo engasgado.

Nestas situações ficamos mais fortes e nos reforça o valor de estar vivo e das pessoas que amamos também estarem bem. As pessoas mostram seus valores. As famílias que por mais tortas que sejam se unem num só objetivo e sem medir esforços. Os amigos, que às vezes nem falamos há certo tempo, nos procuraram e oferecerem ajuda. Os desconhecidos que vem nos perguntar se estamos bem e se precisamos de algo e todos aqueles que trabalharam sem parar no auxilio ao próximo, seja ele o bombeiro ou voluntario anônimo. Nestes momentos acreditamos que estar vivo e junto às pessoas que amamos, mesmo em um tempo tão confuso e distorcido, vale muito pena. Pois na dor cresce a esperança de um tempo novo e melhor.

Marcelo Oliveira, mora em São Francisco de Paula e estuda Gestão Ambiental. Ler e escrever são paixões. O tema? O que o mundo lhe apresentar.

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