Nossas Lendas III (A Lenda do Primeiro Gaúcho) - por Marcelo Oliveira

Nossas Lendas III (A Lenda do Primeiro Gaúcho) - por Marcelo Oliveira

Muito antes que as coxilhas tivessem donos, um povo livre e sem medo habitava os campos sulinos. Eram nômades, moravam onde os rebanhos de gado selvagem estivessem, pois era a principal fonte de alimentação. Esta era tribo indígena Minuano. Eram senhores dos pampas. Habitavam o pampa muitos séculos antes de o homem branco chegar por estes pagos. 

Mas um dia o homem branco chegou e sem pedir licença foi conquistando através da força e levando tudo o que tinha valor. Os brancos desbravaram os mais longínquos rincões atrás de ouro, prata ou tudo o que pudesse ter valor, contudo deixou um rastro de destruição e morte nas tribos indígenas que encontravam pelo frente, alguns eram levados como escravos, mas nem todos, pois muitos preferiam morrer lutando que se entregar.

Uma comitiva cruzava os campos em busca de escravos para suas lavouras quando vira ao longe fumaça, sinal de que havia não muito distante deles uma tribo indígena. Logo se dirigiram para tribo, pois precisavam de mão de obra escrava, e também cobiçavam as índias para seus pelegos. Os Minuanos estavam em volta à fogueira sem preocupações, pois era costume se reunirem entorno de uma grande fogueira para agradecerem e preparem a comida que os caçadores traziam. 

Os Minuanos eram grandes guerreiros, e conheciam muito bem as táticas de batalha. Tinham sentinelas espalhados e atentos a qualquer aproximação. As sentinelas perceberam a aproximação dos brancos e rapidamente avisaram o Grande Chefe que chamou seus guerreiros para a batalha. Quando os brancos se aproximavam da aldeia avistaram uma tropa de cavalos ao longe. Eles pensaram ser uma tropa de cavalos selvagens, e mudaram a direção de avanço, pois não podiam perder a chance de capturar tão belos animais. Continuaram avançando até se aproximarem; então, aos gritos de guerra, surgem de baixo dos cavalos os guerreiros Minuanos. Estavam ocultos ao longo do dorso, com suas boleadeiras, arcos e flechas e as mortais lanças. Pegos de surpresas pela tática indígena os brancos tentaram atacar com suas espingardas, mas os índios avançaram tão rapidamente que pouco pôde ser feito.

Assustados os que sobreviveram fugiram desordenadamente. Entre os que tombaram diante do ataque, os índios encontraram um sobrevivente. Era Rodrigo o mais jovem. Mas segundo suas tradições não deviam matar um homem ferido ou doente, e, como este não estava mais em batalha não poderia ser morto. Eles levaram o homem para tribo e o fizeram prisioneiro para que quando estivesse recuperado fosse morto. Era a lei: homem branco devia morrer pelo mal que fazia aos índios. 



A jovem índia Imembuí recebeu o dever de cuidar e alimentar o prisioneiro. Ela era uma bela moça de coração doce. A moça percebia a tristeza de Rodrigo, que sabia em seu íntimo que seria morto a qualquer momento. Eles não falavam o mesmo idioma, mas enquanto os dias passavam foram criando códigos através de gestos. Um meio próprio de se comunicar. Rodrigo sentia que podia confiar em Imembuí, e da mesma forma ela não sentia que rapaz fosse um inimigo. Quanto mais os dias passavam Rodrigo aumentava sua tristeza, sabia que seu momento chegava. Ele pediu a Imembuí que conseguisse algumas taquaras, e algumas tiras de couro de capivara. Ela prontamente conseguiu.

O dia para execução de Rodrigo estava marcado, seria na próxima lua. Imembuí sentindo uma profunda tristeza, pois seu coração já batia de forma diferente quando estava com Rodrigo. Ela correu até o chefe, que também era seu pai, e implorou pela a vida do prisioneiro. Seu pai a amava muito e deseja realizar o pedido da filha, no entanto, a decisão de execução já tinha sido tomada pelo conselho da tribo, e esses não desejavam descumprir a tradição de punir o branco e devia ser exemplo aos outros. 

Rodrigo passou os dias trabalhando com os materiais que Imembuí tinha conseguido, ela ficou ao seu lado o tempo todo. Finalmente ele terminou de confeccionar seu instrumento de cordas. Mas estava tão abatido que não conseguiu tocar. O dia de sua execução havia chegado e foi levado e amarrado em um tronco que ficava no centro da aldeia. Todos os mais velhos que faziam parte do conselho estavam reunidos, e os principais guerreiros com suas lanças também. Quando se posicionaram a jovem Minuana chorando implorou ao conselho que parasse. Eles gostavam muito da filha do Grande Chefe, mas não estavam dispostos a voltar a atrás. Contudo, frente a tão desesperado pedido, eles ordenaram que os guerreiros baixassem as lanças. Deviam soltar o prisioneiro, pois se reuniriam a noite e discutiriam a execução.

A jovem índia sentiu muita felicidade, mas Rodrigo sabia que o conselho apenas abreviara a sua execução. À noite o conselho discutia o destino do jovem, mas apesar do pedido do Grande Chefe para reconsiderar o conselho não considerava certo voltar atrás. Temendo ser sua última noite ao lado de sua amada Imembuí, ele sentou perto ao fogo com ela ao seu lado, e, ali começou a tocar seu instrumento. Ele cantou e tocou a música mais triste que lembrava, pois era como se sentia. Queria que sua amada soubesse que a tristeza não era só por morrer, mas também por ter que deixar o seu amor. 

Sua triste melodia pode ser ouvida por toda aldeia e pelos conselheiros que saíram para ouvir tão triste música. Quando viram que prisioneiro que cantava com bela voz e doçura, acreditaram que deuses mandavam um sinal e perdoaram o prisioneiro. Além disso, Rodrigo foi aceito como Minuano, e o Grande chefe permitiu que sua filha casasse com ele. Enquanto cantava todos exclamavam Gaú-che! Gaú-che! Que significa pessoa que canta triste, onde se originou a palavra gaúcha. E dos filhos de Rodrigo um branco e da índia minuana Imembuí se originou o povo gaúcho que se espalhou pelo Pampa.

Marcelo Oliveira, mora em São Francisco de Paula e estuda Gestão Ambiental. Ler e escrever são paixões. O tema? O que o mundo lhe apresentar. 

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