Nossas Lendas IV (O Negrinho do Pastoreio) - por Marcelo Oliveria
Foto de: Silvio Kronbauer

Nossas Lendas IV (O Negrinho do Pastoreio) - por Marcelo Oliveria

Há muito tempo existiu um estancieiro que sua fama de ruim e avarento corria todos os lugares como o vento minuano. Os peões cortavam volta das lidas na estância, já que sabiam que iriam ter que trabalhar só por dividir o boi mais magro e chorado como se este saísse da própria pele do dono.  

Nesta estância havia um negrinho escravo, comprado muito novo não tinha pai e nem mãe, nome não recebera e era só chamado de Negrinho. Sem família ele considerava Nossa Senhora como sua madrinha, pois segundo ele sabia Ela era madrinha daqueles que não tinham. 

A estância era conhecida por seus cavalos parelheiros, tinha uma tropa de 30 tordilhos negros e um cavalo baio que era considerando um dos melhores corredores. O negrinho era o pastor dessa tropa e também o responsável por montar os cavalos nas corridas de cancha reta.

A certa feita o maldoso estancieiro e um vizinho começaram a se provocar para uma carreira, depois de muitas negaças acertaram a tal parelheira de 30 quadras. No entanto, o vizinho queria a parada para os pobres, mas o estancieiro não aceitava queria que fosse para os cavalos. Acertaram, então, que se o mouro do estancieiro vizinho ganhasse ele daria a parada para os pobres, e se o baio do maldoso estancieiro vencesse este ficava com a parada que tinha sido acertado em mil onças. 

Na estância o Negrinho seguia suas lidas, começando o trabalho antes do sol nascer e terminando só depois que ele sumisse no horizonte, mas antes disso o filho do estancieiro troçava com ele sem dó, como se fosse um vira-lata sem valor. Nessa noite o senhor disse que se preparasse o baio que correriam a parelha de trinta quadras contra mouro do vizinho.

Chegado o dia da carreira juntou mais gente que festa de santo grande, e seus ânimos estavam exaltados, as apostas eram grandes, se esvaziavam as guaiacas nas apostas e tudo o que se valesse. Era muito difícil definir quem ganharia, pois os dois animais eram muitos bons. Depois de tudo acertado se largaram os cavalos.

Os dois cortavam o vento cabeça a cabeça, o público gritava sem parar numa euforia frenética. No lombo do baio o Negrinho rezava a Virgem que não podia perder ou seu senhor iria mata-lo. No outro cavalo o corredor repetia que não podia perder porque o dinheiro eram para os pobres, e assim eles baixavam o rebenque sem dó. 

Quando se apontava os metros finais os cavalos seguiam emparelhados, mas com o baio sobrando folego para cruzar o laço e o mouro soluçando. Mas a pouco da chegada o cavalo do Negrinho se assustou e deu de parada, se pós em pé obrigando o ginetear, sendo que o outro corredor passou livre na chegada. 

O estancieiro furioso gritava – Mau jogo!, Mau jogo!

Depois de muito bochicho, pistolas e facas em punho, a carreira foi declarada feita e vitória do mouro era válida e quem perdeu que pagasse declarou o juiz da carreira. O estancieiro jogando o dinheiro nos pés do adversário se retirou. O ganhador com as apostas na mão logo distribuiu o que restara aos pobres.

Depois de se manter em silêncio na estrada ao chegar de volta nem desceu do cavalo mandou prender o Negrinho ao palanque e dar-lhe uma surra de relho sem dó. Na noite levou o negrinho a uma coxilha e lhe disse: trinta quadras tinha a cancha que perdestes; trinta dias tu ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de trintas tordilhos negros e o baio fica no piquete e tu ficas de estaca!

Chorando o Negrinho ficou dia e noite, vento e chuva pastoreando. Passando o dia a fome e sem forças amarrou a corda no braço e deitou-se e dormiu rezando para a Virgem que deixava seu coração em calmaria. Mas durante a noite os graxains vieram sorrateiros e cortaram as cordas, o cavalo sentindo solto troteou como vento pelos campos levando a tropilha de tordilhos negros com ele. 

O Negrinho acordou assustado com o tropel, mas como a cerração e escuridão ele os perdeu. Pela manhã o filho do estancieiro vendo que a tropilha não estava correu para contar ao pai, que furioso mandou amarrar novamente o Negrinho e surra-lo. Ele ficou durante o dia todo sem água e comida.

À noite o estancieiro ordenou que saísse e achasse a tropilha perdida. Ele foi até o oratório da casa e rezando a sua madrinha, a Virgem, pegou uma vela do oratório e seguiu pelos campos, atravessou lagoas e restingas e cada avanço ia deixando pingos da vela a iluminar seu rastro. Os pingos iluminaram a escuridão, os animais se silenciaram e não o ameaçavam ou fugiam por onde ele passava. Quando os galos cataram ele escutou os relinchos dos cavalos. Muito feliz ele montou o baio e levou tordilhos para a coxilha novamente. 

Depois de recolher os cavalos ele deitou sobre um cupinzeiro e sonhando com sua madrinha, a Virgem, dormiu em paz. Mas pela manhã o filho do estancieiro veio e vendo que ele encontrara os animais, correu e os enxotou fazendo que se dispersassem pelos campos e matas. O Negrinho acordou com o tropel e vendo os cavalos sumirem sem poder fazer nada, chorou.  O filho correu e contou ao pai que o Negrinho dormia e não encontrara os cavalos. 

Mas uma fez o estancieiro mandou amarrar o Negrinho e surra-lo de relho, só que dessa vez devia ser surrado até não conseguir gemer ou soluçar mais. Com as costas recortadas e lavadas no próprio sangue, ele rezou a Virgem quando já não aguentava mais e suspirando caiu como se estivesse morto. 

Sem querer perder tempo ou gastar inchada ele mandou jogar o corpo em um formigueiro para que as formigas devorassem o corpo e o sangue. As formigas logo tomaram o corpo do pequeno negrinho. Eles viram as costas e não olharam para trás. Durante três noites e três dias o maldoso senhor sonhou com ele e tudo o que tinha eram mil vezes e tudo cabia em um formigueiro pequeno. Nesses dias houve cerração forte. 

Ele colocou todos os peões que tinha atrás do baio e da tropilha e eles não encontraram nada. No final do terceiro dia ele foi ate o formigueiro ver o que sobrara do corpo do Negrinho, mas para a surpresa dele ele viu o negrinho em pé ao lado do formigueiro sem nenhum machucado eu picada. Ao seu lado estava o baio e fazendo guarda os trinta tordilhos negros. O estancieiro não acreditava em seus olhos, mas para aumentar seu espanto ele viu a madrinha daqueles que não tem a Virgem Nossa Senhora em seu esplendor sobre a terra. Ele caiu de joelho diante do Negrinho, que de um pulo montou o banho de pelo e sem rédea, chupou os beiços e tocou a tropilha que ele encontrou pela última vez. 

Deste então quando alguém perde algo reza ao Negrinho do Pastoreio, pois ele procura o que está perdido em troca apenas de uma vela para devolver ao altar de sua madrinha Nossa senhora. E se ele não encontrar ninguém mais ira encontrar.

Marcelo Oliveira, mora em São Francisco de Paula e estuda Gestão Ambiental. Ler e escrever são paixões. O tema? O que o mundo lhe apresentar.

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