A Crônica da Vez: Invasora - por Andrea Dórea

A Crônica da Vez: Invasora - por Andrea Dórea

Outro dia precisei pedir um certo favor para um vizinho de piso, uma bobagem. Chamei à sua porta, expliquei a situação e perguntei se poderia me ajudar, desde que não fosse um incômodo. Foi um incômodo! Desde o primeiro momento. Aquele em que alguém que mora três portas à frente de sua casa, tocou a campainha. Fiquei um pouco surpresa, se fosse o contrário eu não hesitaria em ajudar. Pedi desculpas e o liberei do pedido.

Eu sempre fiz parte de grupos que vivenciavam uma dinâmica de relações profundas, com momentos de confraternização, envolvimento e interferência literal na vida do outro, sempre que solicitado. Movia-se céus e terra por uma boa causa, mesmo que não fosse a sua. O intercâmbio de habilidades, serviços, gentilezas e críticas construtivas sempre foi uma constante em nossas vidas. Era muito enriquecedor.

Acho que em São Paulo foi onde eu mais vivenciei a experiência da solidariedade, da confraternização, do parar o que se está fazendo para socorrer alguém em dificuldade. Não que eu não tenha visto isso no Rio Grande do Sul. Muito pelo contrário. O Sul me abraçou gostoso também, e certamente virou o meu estado queridinho no Brasil. O povo gaúcho, na minha opinião, é gentil e educado. Mas percebi que meu hábito efusivo de relações profundas muitas vezes foi interpretado como simples invasão. Compreensível.

As relações que eu vivenciei durante a minha vida sempre foram permeadas de favores a vizinhos, de gentilezas com pessoas que não sabiam lidar com nosso sistema “burrocrático”, ou do simples ato de ser gentil com um estranho. Desde sempre lembro dos meus amigos como pessoas que sentiam prazer em ajudar alguém, apenas para tornar sua vida melhor. Eles foram um espelho para mim.

Pensando de uma forma mais universal, eu sou piegas e sonho com um mundo em que a troca de gentilezas, pela simples gentileza, seja um hábito adquirido naturalmente e sobretudo, transmitido de geração em geração.

Por ora, o que tenho visto é um distanciamento respaldado pela necessidade de suposta proteção e uma certa falta de interesse pelo outro. Cada um na sua, cuidando do seu, sem gentilezas ao vizinho – “...afinal eu mal o conheço”.

E o que me surpreendeu, mais do que a expressão incomodada do vizinho diante do meu pedido; foi o olhar que ele me lançou quando eu o liberei do favor e lhe disse que ali estava o meu telefone, que ele poderia contar comigo se precisasse de qualquer ajuda ou socorro; eu estaria bem ali, três apartamentos à frente. Eu, a invasora, pude ver em seus olhos: ele ficou chocado.

Andrea Dórea é artista plástica, fotógrafa, graduada em Letras Espanhol e Literaturas. Nascida no Rio de Janeiro e radicada em São Paulo, viveu também no Rio Grande do Sul durante sete anos. Desde os anos 90 produz peças artísticas traduzidas em pinturas, desenhos, esculturas e objetos; além de fotografias feitas nas ruas, em grandes eventos ou em apresentações artísticas de dança, música ou teatro. Sua paixão pela literatura a levou a estudar Letras e a produzir textos em forma de contos, crônicas, poemas e relatos. Seu trabalho reflete um interesse profundo pelas questões humanas, as artes e a cultura. A versatilidade da artista lhe permite mesclar técnicas e linguagens, algo recorrente em suas obras. 



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