Ideologia: Por que NÃO quero uma para viver - por Ryano Mack

Ideologia: Por que NÃO quero uma para viver - por Ryano Mack

A ideologia pode ser caracterizada, de um modo geral, como um sistema de ideias, adotado por um determinado grupo, tendo relação com diversas esferas sociais e pode ser política, religiosa, filosófica, etc. Também é possível notar um número expressivos de ideologias terminadas com o sufixo “ismo”.

No século XIX, por influência de pensamentos iluministas e ainda, o advento das ciências e tecnologias, houve uma ruptura com o modo de pensar religioso, em que crenças e práticas rituais forneciam uma interpretação fundamental da vida humana e da natureza, sendo o principal valor da convivência, entretanto, essa estrutura de pensamento, deu lugar a relativização da moral, na qual os valores, princípios morais e leis, não eram mais delegados a transcendência divina, mas sim aos homens e a ciência.

Nesse cenário, onde havia a possível ameaça da falta de sentido pessoal, surgiu um campo fértil para se disseminar princípios ideológicos, que serviriam como uma orientação ainda transcendente ao indivíduo, a maioria, se não todas elas, nasceram com a pretensão de servir para qualquer um, e também como a melhor solução para a vida.

Vivemos hoje um período em que a busca de ideais ganhou grande destaque na existência de indivíduos, suprindo a ausência da moral transcendente e balizando o comportamento social, no entanto, uma ideologia imposta como certa, pode causar um grande maleficio, havendo ainda, a oportunidade para o sujeito passar a acreditar que é definidor do que está certo ou errado, submetendo-se a critérios para julgar o mundo pela ótica ideológica que achar conveniente. Se a ideologia toma parte da existência de alguém, logo, não faltarão coletivos histéricos atuando como polícia moral, empenhados em silenciar toda e qualquer ideia que entre em atrito com seus valores ideológicos.

Pense na seguinte situação: você está andando na rua e resolve comer um hambúrguer, pois está na correria de um dia de trabalho e as outras alternativas exigiriam um tempo que você não tem, logo o hambúrguer, dadas as circunstancias, é o que é melhor para você naquele momento. Pois bem, alguém se virá para você, olha torto, e diz que você deve se livrar das carnes processadas, dos farináceos, e a partir de agora comer chia, pois é rica em cálcio e ômega-3 e a vida saudável aumenta sua qualidade de vida, outra pessoa, olha você com mais rispidez, e acrescenta que você é um assassino e está colaborando com a matança de animais. Isso porque você decidiu por você, dados os seus contextos, comer um simples hambúrguer, e então brotaram discursos morais, pois a sua ação está em desacordo com alguns grupos e seus ideais de mundo. Certamente nenhum desses agrupamentos que manifestam moralidade lhe perguntou o que você quer, do que precisa ou tentou entender sua situação.

Há um bombardeio de sentenças ideológicas em tudo que é canto, mas não seria melhor se essas pessoas lançassem um olhar sobre si mesmo ao invés de se empenhar em silenciar toda e qualquer ideia ou ação contraria ao seu pensamento? Me pergunto ainda se haveria tantas vitrines ideológicas se não houvesse a possibilidade de exibi-las numa rede social ou em grupos? Mas as ideologias seguem cada vez mais firmes, reforçando personalidades, dando motivos para a existência e também a exalando demagogia na pose de bons samaritanos, o moralismo a favor da pior imoralidade.

Porque desconstruir ideologias? Porque buscar em uma ideologia um sentido para a vida é negar a busca de um sentido em si mesmo. Ora, uma ideologia NÃO pode me tirar o direito de saber o que é bom para mim, e sendo assim, eu também não pretendo ser a referência para a vida de ninguém. Estamos cada vez mais no agarrando em propostas para viver a vida, que transcendem nós mesmo, em outras palavras, estamos deixando de lado nossas particularidades e desejos em prol de doutrinas que nos dão critérios de qualificação da vida.

Alguns dependem e até delegam sua existência em prol de um ismo qualquer, mas, acredito que ainda é possível seguir valores ideológicos sem ser o manequim da camiseta e também não querer obrigar ninguém mais a vesti-la. O melhor é não vestir camisa alguma, afinal, só quem te conhece e sabe o que é melhor para você, é você mesmo.

Ryano Mack, estudante de História, Músico e Compositor, amante de café, leitura, música e filosofia

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