Obrigado por não fazer mais que a obrigação - por Ryano Mack

Obrigado por não fazer mais que a obrigação - por Ryano Mack

Minha mãe sempre me advertiu quanto a honestidade, dizendo que essa não era mais que a obrigação de qualquer pessoa, ou seja, devolver um objeto que não lhe pertence, para o seu dono, dentre outras inúmeras atitudes, é um dever, e não uma qualidade. Entretanto, pela escassez da honestidade, criticidade e senso ético, temos a abundância da busca pela vantagem pessoal, e dessa forma, os atos de integridade, quando assistidos, causam espanto na nossa sociedade, sendo esses, enaltecidos como se não fossem apenas um processo do exercício de responsabilidade que cabe a cada indivíduo. 

É comum que apareça na mídia alguma matéria jornalística, vista como exceção, em que alguém devolveu algo que não é seu. Mas essa deveria ser a regra, e não o contrário. Não deveríamos ter de agradecer alguém, pelo simples ato de ter sido honesto e cordial. 

No nosso país, lamentavelmente, obter vantagens pessoais em detrimento de quem quer que seja é algo comum, e por mais perturbador que isso pareça, as manifestações de indignação, em sua grande maioria, são vistas somente em relação à política, como se só lá houvesse desonestidade, ou seja, somos pecadores condenando pecados alheios, mesmo que o fenômeno da corrupção política beire o absurdo, ainda temos um caminho muito longo para percorrer no campo social, em virtude da ética e da cidadania. Para cada grito contra a corrupção, existe alguns suspiros na sonegação de impostos, carteirinha falsa, atestado comprado ou aquela vaga para deficiente que se pega ligeirinho, entre outros atos corruptos, que não são coibidos com a mesma energia que os discursos contra a corrupção política.

Mas de onde vem essa nossa falta de valores morais, que causam tanta perplexidade a ponto de agradecermos por um ato honesto?  

Essa pergunta exigiria um grande esforço de análise Histórica e Social, mas ainda assim, é possível estabelecer algumas perspectivas:

Infelizmente, o Brasil tem um índice de leitura vergonhoso de 1,7 livros, em média, por ano. Sem contar que muito dessa leitura é de livros de autoajuda, cuja busca reflexiva é questionável. A História nos mostra que a leitura é uma ferramenta de transformação social, a leitura, por si só, não é a garantia de tornar alguém mais ético, mas aumenta muito essa possibilidade, pois contribui para formação de pessoas mais conscientes, com maior senso crítico e tem participação na formação do caráter dos indivíduos. Uma sociedade com mais leitores, se torna mais sabia, e com mais recursos intelectuais para encarar os dilemas sociais e morais que enfrentamos no cotidiano.

Possuímos um modelo de educação que visa atender as necessidades do mercado de trabalho e não parece estar interessado na formação moral do indivíduo, desencadeando dentro desse processo, um agente que potencializa a busca do benefício próprio em detrimento da reflexão em prol dos direitos individuais alheios. Isso se reflete na pouca ênfase e protagonismo no âmbito do ensino nas áreas mais legitimadas ao debate ético, como a História, Filosofia, Sociologia, Etc.

Vivemos tempos em que os discursos se perpetuam facilmente, a internet democratizou e deu voz a todos, e isso é uma vitória da democracia, mas que por sua vez possibilitou inacreditáveis manifestações rasas de caráter moralista, que andam longe da reflexão estudada e que se preocupa em respeitar a opinião divergente. Mas a moral é uma questão de caráter, e não uma polícia disposta a controlar e criticar atitudes alheias. 

Pensar no outro, ao invés do benefício próprio, exige reflexão, senso crítico e capacidade de discernimento sobre não prejudicar o próximo. Ou seja, abrir mão de um benefício particular em nome do bem-estar comum é um exercício integro, que deve ser praticado, mesmo que os discursos contrários do tipo “todo mundo faz” sejam a tônica social. 

O exercício do bom convivo coletivo requer uma transformação na nossa maneira de enxergar o mundo, que só pode ser alcançada através de uma educação que prepare os indivíduos para uma conduta mais ética, a educação não resolverá todos os problemas do mundo, mas dará ao mundo melhores ferramentas para solucionar os seus problemas, e quem sabe a partir daí não tenhamos mais que agradecer alguém por não ter feito mais que a sua obrigação.

Ryano Mack, estudante de História, Músico e Compositor, amante de café, leitura, música e filosofia

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