Bolinhas de papel - por Rosana Martins

Bolinhas de papel - por Rosana Martins

Vinícius é um menino de onze anos. Sentado em uma classe do terceiro ano de uma escola pública. Entediado, passa a aula inteira tocando bolinhas de papel nos colegas. O menino não sabe ler e nem escrever. O típico “aluno problema”. Mas olhando a história mais de perto, não é o Vinícius que está com problemas.

Existe um sistema imposto ao ensino fundamental, pelo ministério da Educação. Alunos que mesmo não aprendendo a ler e escrever, não podem ser reprovados no primeiro e nem no segundo. Chegam assim no terceiro ano. Vinícius não é o único. Os terceiros anos estão cheios de crianças “não alfabetizadas”. O que agora é politicamente incorreto falar. Eles estão em “processo de alfabetização”.  Como professora, já entrei em uma turma de sexto ano onde alunos não sabiam nem ler e nem escrever. Parece absurdo. É absurdo! Esse processo de alfabetização não tem fim.

Obrigadas a manter certo índice de aprovação, as escolas públicas empurram com a barriga alunos para anos seguintes. O que mais podem fazer essas criaturas se não tocar bolinhas de papel para ter o que fazer em aula. Cansa ficar só copiando do quadro negro.  E que negro esse quadro! Copiar sem entender nada do que colocam no papel. Tocar bolinhas e causar perturbações em aula é a opção de se sentir melhor. A única forma que encontram essas crianças para dizer: “O que eu tô fazendo aqui!?” A escola para eles virou quase uma prisão. Prisão em regime semiaberto.



Há muitos Vinícius sentados nos bancos escolares. Encontram-se no meio de uma turma que já domina a leitura e escrita. Ficam de estranhos no ninho. Um ninho bem desalinhado, onde uns se encontram e outros se pedem cada vez mais.

Como se não bastasse essas chamadas “turmas de progressão”, ainda é imposto a todas as crianças que aprendam e utilizem a letra cursiva. A letra emendada. Desenhada e rebuscada, de difícil apropriação. Quase morta, só existe no âmbito do ensino fundamental. Os alunos aprendem a escrever coma letra script, desemedada. Começam a ler reconhecendo as letras nas ruas, placas, cartazes, outdoor, revistas, jornais, e principalmente nos joguinhos da Internet e videogames. O mundo é script. Tudo a nossa volta está escrito com letras de imprensa. Não é fácil para a criança transpassar de letra. Na minha visão, tempo e esforço desperdiçados.  Quando saírem da escola, dificilmente encontraram a letra cursiva. Para que então?  A Educação está cheia dessas perguntas sem resposta plausíveis.

O mundo está desabando. E a escola dorme. Simplesmente dorme nesse “berço esplêndido”! Fica complicado não tumultuar e não ser “aluno problema”.  Essas crianças estão  acordadas, dizendo: “tem algo de errado, e não sou eu”.  Tocar bolinhas é um comunicado. Será que alguém vai ouvir?

Rosana Martins

Professora e Jornalista

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