Experiências Traumáticas e Superações - por Sueli Santos

Experiências Traumáticas e Superações - por Sueli Santos

Situações traumáticas são inevitáveis

Chamamos de traumática, aquela experiência que nos impõe uma situação de perda e que surpreende, desestabiliza nossa vida, sem que haja possibilidade de reação, de defesa, de proteção. Pode ter um caráter irreversível, como a morte por exemplo, quanto a isso, nada podemos fazer. A morte não tem meio termo.

Mas quando a perda se caracteriza por uma situação circunstancial, temporária, como o rompimento de laços afetivos, perdas de bens materiais que considerávamos seguros, ou perdas de caráter pessoal, tais como: de prestígio, de poder ou de reconhecimento, nesses casos algo sempre pode ser resgatado. O traumático nesses casos, requer um período de elaboração, de entendimento dos acontecimentos para restabelecimento de nosso equilíbrio emocional. Isso às vezes necessita de um acompanhamento profissional e também de algum tempo para algumas resoluções.

Se acreditarmos, como equivocadamente os livros de auto-ajuda propagandeiam, que temos o controle de nossa vida, de nossos sentimentos, de nossos conhecimentos, de nosso futuro pela força de nosso pensamento, acreditamos em uma vida irreal. É como acreditar no pensamento mágico e místico do homem primitivo ou de crianças muito pequenas, ou seja, acreditar que o pensamento, por si só, tem poder de alterar a realidade.

Por exemplo, as crianças quando vêem um filme de terror fecham os olhos diante de uma cena assustadora, tentando assim evitar o perigo. Mas afinal, o perigo aí é uma projeção de imagens em uma tela, não há ali realidade. Então, fechar os olhos para essa cena não protege do perigo nem altera o curso da história. Nesse caso, não há realidade que possa ser controlada. Os  sentimentos de medo, estão em nós, em nosso psiquismo, pela forma como foram vividas nossas experiências emocionais na nossa própria história.

Portanto, o pensamento mágico tampouco nos protege de nossas emoções. Pensemos outra situação bem comum do nosso cotidiano, quando os pais se separam. Quando por inconformidade dessa situação, os pais entram em litígio, é comum que a parte que se sente lesada, traída ou ferida pelo rompimento, transforme em uma batalha essa separação. Para além da perda do amor, o traumático emerge na dor de não ter podido contornar o incontornável, ou seja, aquela relação se esgotou e não havia como recuperar os laços.

O traumático é sentido como uma falha de alguém, daquele que não pode fazer a escolha da separação. Então, alguém deve pagar. É preciso que o outro, aquele que definiu a separação pague por isso, sofra. Muitas vezes os filhos são usados como moeda de troca na negociação do sofrimento.

A criança é sempre a parte mais fraca pois não entende a situação, gosta dos pais e se sente implicada em ter que escolher. É como se ao estar com um dos pais, estivesse traindo o outro, ou se não pudesse gostar de estar com a mãe ou com o pai pois acredita que estando com um deles, o outro não o amará mais ou estará sofrendo por isso. Também por pensamento mágico, a criança pensa que pode ser responsável por resolver essa separação ou ter que restaurar a relação dos pais. Mas quanto a isso, ela não poder fazer nada, embora sofra as conseqüências da separação inevitável.

O traumático, quando se rompe a relação de amor, qualquer amor, não depende só de uma pessoa. Não é uma questão de quem falhou ou deixou de amar. Uma relação de amor é uma aposta no sonho do ‘para sempre’. Quando acordamos do sonho, às vezes, a realidade é diferente, se modificou. Algo aconteceu com o passar do tempo em que os sonhos, os projetos comuns deixaram de seguir na mesma direção, quebrando o contrato de seguir se amando e juntos.

Situações traumáticas não são incontornáveis

Nossos medos nos avisam de perigos eminentes ou imaginários, mas nossos medos não nos previnem ou nos protegem da vida real. Quando isso acontece, quando perdemos o rumo, ou nos sentimos ameaçados em nosso sonho de felicidade estável, é preciso enfrentar essa dor, tratar a ferida e não negar que isso está acontecendo ou culpar a vida.

A vida é um investimento de risco. Não vem com garantia ou prazo de validade. As possibilidades de perdas e ganhos estão sempre em um horizonte que vislumbramos à distância. As operações de investimentos, quando pensamos ter atingindo nossos objetivos, já não bastam. Não estão mais lá, e buscamos atingir outro patamar. O sentimento de que sempre nos falta alguma coisa, no entanto, é o que nos impulsiona a seguir buscando, crescendo, desejando.

É porque algo sempre nos falta que buscamos completar esse furo. Essa insatisfação com o que já conquistamos, por si só, não deveria ser traumático. A insatisfação com o que temos ou somos, ou com o que perdemos ao longo de nossas relações, na vida, pode ter um destino não traumático.

Pode ser instigante, provocar outras soluções de continuidade. As perdas que nos desestabilizam, muitas vezes, quando enfrentamos esses momentos de dor ou de crise, podem nos fortalecer.

A psicanálise nos ensina que o desejo é algo que não sacia, ou seja, estamos sempre  a procura de algo que nos dê prazer, completude, bem estar. É o que chamamos de pulsão de vida. Dizendo de outra forma, a vida insiste em querer, em provocar desejo. Isso é o que entendemos como libido, uma energia erótica, vital.

Retomando o título desse artigo, Experiências Traumáticas e Superações, gostaria de propor também uma reflexão sobre o traumático episódio que nos afetou, quando um tornado atingiu São Francisco de Paula, domingo, 12 de março. O evento em si foi traumático pela destruição de casas, de bens materiais.

As pessoas que sofreram ferimentos mais ou menos graves, seguramente ainda lembrarão por muito tempo o medo da morte eminente; terão que trabalhar muito para recuperar suas casas, o cotidiano de suas vidas. Isso ficará na memória de todos. Dos que foram atingidos diretamente e da comunidade como um todo que solidarizou-se com seus amigos, vizinhos, parentes.

Mas nem tudo que é traumático é patológico. Dizendo de outra forma, nem tudo que nos fragiliza, nos abate, nos desestabiliza vai nos adoecer. O que ouvimos de pessoas que foram atingidas diretamente pelo tornado, revelou a força vital, e portanto erótica, dessa comunidade. 

Os depoimentos das pessoas atingidas não eram de uma crença de destino, de fatalidade, de conformismo. Havia dor, tristeza, medo da morte tão próxima. Sim foi traumático. Esses sentimentos não poderiam ser manifestados de outra forma. A realidade de um evento dessa magnitude não pode ser relativizado.

As forças da natureza, recolocam o humano na sua real dimensão de fragilidade. Não controlamos a natureza com o pensamento mágico, supondo de nenhum mal vai nos acontecer quando fenômenos climático ou tectônicos atingem a terra. Os fenômenos naturais tem seu curso, seu ciclo, mas também reagem ao que os humanos intervêm sobre o curso natural da natureza. A relação humano com a natureza também é de reciprocidade.

Mas apesar da grande devastação produzida por esse evento traumático e que abalou toda a cidade, foi muito surpreendente ouvir declarações, de parte das pessoas atingidas, de que a vida humana estava assegurada, a família estava viva e isso era o mais importante. A forma de viver essa realidade era apostar na força da reconstrução daquilo que não era o fundamental, os bens materiais.

Tudo o que haviam perdido, claro, era lamentado porque conquistado com muito trabalho, dificuldade, empenho em melhorar suas condições materiais. Mas todos esses bens, com trabalho, com saúde, com a ajuda de todos se reconquistaria. A solidariedade, como um valor agregado das relações fraternas de famílias, vizinhos, amigos, construiu uma rede de força e apoio, retomando o desejo de recomeçar, reconstruir, retomar a vida nas mãos.

Ainda precisaremos de algum tempo para superar nossos medos, ainda lamentaremos o que perdemos. Mas a grande lição que tiramos desse evento traumático, que tocou a todos é que a solidariedade, o cuidado, o respeito pela vida de uma comunidade, pode transformar a vida de cada um, é responsabilidade de todos, implica a todos. E finalmente, o traumático pode ser transformado em superação e força.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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