A erotização da Infância interessa a quem? - por Sueli Santos

A erotização da Infância interessa a quem? - por Sueli Santos

Coisas que fazemos sem nos dar conta

A realização de desejos, uma estratégia de mercado do mundo capitalista, usa a propaganda como instrumento poderoso para induzir a população ao consumo. Esse é o grande vilão da indústria de brinquedos que joga com as fantasias infantis de poder com seus personagens grandiosos, mágicos e imbatíveis. Assim o consumo de bonecos com todo tipo de poder e seus acessórios, tais como máscaras, capas, espadas, barretes como elementos de combate aos monstros e às criaturas do mal, ganham espaço no mundo da fantasia das crianças, dando vazão em suas brincadeiras e potencializando seus supostos super poderes no enfrentamento contra os possíveis inimigos.

É difícil para os pais, quando os filhos pedem para ganhar esses brinquedos, resistirem ao apelo.  Nem há porque resistir ou negar esses pequenos prazeres às crianças. No entanto, é bom lembrar que também podemos conversar sobre isso com as crianças, falar sobre suas fantasias. Observar como brincam, com quem brincam, com quem brigam no seu mundo imaginário.

Brincar é uma excelente forma de elaborar os sentimentos de hostilidade, medo, violência, amor, solidariedade.  Brincando as crianças conseguem por para fora suas fantasias, também evidenciar suas angústias e todo tipo de afetos. Os adultos podem aprender muito observando as crianças, o que está se passando em suas fantasias e quem sabe, contribuir para que convivam melhor com a realidade por vezes ameaçadora no mundo da infância e dos adultos.

Atualmente, há um forte apelo à erotização da infância, principalmente em relação às meninas.  É cada vez mais comum o mercado de bonecas com namorados. Portanto, não basta comprar a boneca, é preciso comprar seu namorado. Esses personagens têm um guarda-roupa para diferentes eventos, o que não só induz a forma como se deve conduzir a fantasia das crianças, criando cenários e cenas, mas também geram mais elementos para desejar consumir.

A fantasia de namorar, tem escapado da brincadeira com as(os) bonecas(os), e extrapolado a barreira de uma situação lúdica para ganhar espaço entre as crianças, como se fossem adolescentes precoces ou adultos em miniatura criando jogos de sedução. Algumas vezes, observa-se que é estimulada a idéia de  meninas e meninos terem namorados, porque brincam juntos na escola e são companheiros de festinhas nos aniversários. 

Gostar de estar e brincar com alguma criança em particular ou algum grupo de crianças, é comum e desejável. Afinal é parte necessária da socialização da criança. Mas confundir esse gostar, essa identificação entre amigos com um interesse erótico, já é um pouco de mais.  O gostar de alguns amigos(as) na infância não tem relação com identificação de gênero, assim como não tem o caráter da sedução do adulto ou do interesse erótico do adulto.



Voltando ao mercado de consumo, no entanto, todas as faixas etárias estão na mira das  indústrias. Criando objetos de desejo para todas as idades, o mundo consumidor, sem filtro, procura seguir a tendência do mercado, como se diz na linguagem econômica, sem entender o que está movendo e provocando esse desejo.  Em outro momento discutiremos outras faixas etárias. 

No presente artigo, tomo como referência a infância. O que nos parece assustador é que os pais, sensibilizados pelas demandas de seus filhos, respondem sem crítica a esses apelos que são criados pelo consumo. Assim, vemos crescer de forma vertiginosa a cosmética de todo tipo de maquilagem para crianças, gel para deixar os cabelos em pé para meninas o que não excluindo os meninos; assim como sapatos com saltinhos, moda que se assemelha ou ‘combina’ com as roupas e complementos da mamãe e do papai. 

Aqui surge uma dúvida: com a idéia de vestir todos iguais se pretende rejuvenescer ou infantilizar os pais? Ou se pretende ‘amadurecer’ as crianças? Qualquer resposta afirmativa seria um equívoco. Adultos e crianças não são iguais. Pais e filhos não são uma só pessoa, como um jogo de espelhos: eu sou você amanhã.

Quando as crianças, em casa, usem as roupas dos pais, isso decorre de uma fantasia de identificação, de parecer com os pais. Isso é importante enquanto modelos identificatórios. No entanto, quando se vai a uma loja e tem uma oferta de roupas e acessórios semelhantes entre adultos e crianças, não há nessa situação a fantasia das crianças como elaboração de identificação com os pais. Há uma armadilha para produzir fantasias de consumo.

O que aí se oferece é uma sugestão de que se pode alterar a realidade e voltar a ser criança, ou adulto em miniatura; ou quem sabe copiar o ‘boneco’ dos pais, posto que apenas a aparência, a imagem está em jogo.  Podemos pensar o mesmo em relação a estimular a foto de crianças se beijando, ou a crianças beijando um dos pais na boca, e/ou fazendo caras e bocas de sedução frente a uma câmera para o álbum de família, ou pior, exibir nas redes sociais.

Talvez aí se exiba a fantasia dos adultos de uma ilusão de precocidade erótica que não é da criança, mas da imaturidade dos adultos que exibem suas próprias fantasias sobre um mundo infantil que é seu.  Expor fotos de crianças em poses eróticas e olhares lânguidos, ensina a criança a se exibir como objeto, violentando a infância. Se esse escrito fizer algum sentido para você, discuta, compartilhe. A infância e também seus filhos, agradecerão.  

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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